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OS HOMENS DO REI – 81 – por José Brandão

 

 

 

 

D. PEDRO V (reinou de 1853 a 1861)

 

Morrera já D. Maria II. Sucede-lhe seu filho mais velho, D. Pedro V, rei de grandes virtudes humanas e de valor intelectual notável, interessado em todos os movimentos de cultura científica e técnica do seu tempo. Filho de D. Fernando e da rainha D. Maria II, nasceu em Lisboa a 16 de Setembro de 1837.

 

Sobe ao trono em 15 de Novembro de 1853 e por ser ainda menor, seu pai, D. Fernando, assume a regência.

 

Aclamado solenemente nas Cortes de 16 de Setembro de 1855, D. Pedro V, a despeito da curta duração do seu reinado, é considerado o melhor dos soberanos da sua dinastia.

 

Dotado de superior inteligência e de invulgares dotes morais, diligente, aplicado e metódico, D. Pedro, ainda príncipe, provocava, não raro, a admiração dos seus preceptores, como é o caso de Francisco Martins Bastes, seu mestre de latim, que recorda que nunca encontrou «um talento tão abalizado, uma aplicação tão constante, uma vontade tão pronta, uma índole tão dócil, uma gravidade e modéstia que se lhe possa assemelhar, de modo que mais parecia um homem de idade madura, do que um menino de nove anos e dez meses».

 

Durante a sua regência, determinou D. Fernando que seus filhos D. Pedro e D. Luís visitassem, durante dois anos, os países europeus onde mais pudessem aprender: Inglaterra, Bélgica, Holanda, Alemanha, França, Suíça e Itália.

 

D. Pedro percorria as terras como lia os livros, aprende pela atenção e fixando na memória tudo quanto de mais útil podia contribuir para a sua formação de chefe de Estado de uma nação em tão grande atraso na cultura geral, como nas técnicas criadoras de riqueza e de bem-estar. Os seus dois Diários dão eloquente testemunho do modo como observava e do muito que aprendia. Um terceiro volume é constituído pelas instruções dadas ao general Barreiros para visitar os estabelecimentos de artilharia das principais nações da Europa, a fim de que, entre nós, procedesse depois à conveniente modernização daquela Arma.

 

D. Pedro, que vive em Portugal no período do fomento económico, é quem funda em Lisboa o Curso Superior de Letras, depois transformado na Faculdade de Letras de Lisboa, para o qual contribuiu com uma avultada quantia do seu bolso particular e com o saber adquirido nas viagens que fez pela Europa antes de subir ao trono. A introdução em Portugal, dos caminhos-de-ferro, do sistema métrico e do telégrafo eléctrico são também elementos de progresso a que dedicou a melhor atenção.

 

Sem deixar de se preocupar com a difícil política da sua época, D. Pedro V procurou por todos os meios ao seu alcance, melhorar o nível de vida do seu povo, e com ele dialogava, num ambiente simples e de total confiança mútua. A fórmula que inspirava suas exigências culturais era: quero saber de onde viemos, quem somos e aonde vamos. Entende que «quando o Povo souber ler e escrever, e, sobretudo, quando souber fazer uso dessa base de toda a instrução, ele não será tão fácil de conduzir pelas oligarquias e o regime parlamentar poderá desenvolver toda a sua acção, para o bem da sociedade». Aliás, o seu empenho na cultura popular exprime-se claramente na força deste conceito: «Condenar toda a sociedade a não ver a luz é um crime que tarde ou cedo se paga. E a luz não é aquela que brilha como o fogo de Bengala, ofuscando a vista: é a pequena chama modesta, que arde sempre e alumia os trabalhos verdadeiramente úteis».

 

D. Pedro, quando escolhe os estabelecimentos que visita e faz os comentários que deixou escritos, é um jovem, muito promissor é certo, mas de 17 e 18 anos. E, ao iniciar suas funções de rei, o seu positivismo de observador das realidades concretas dilata-se e aprofunda-se através de horizontes que muito ultrapassam os comuns. E como o anima o amor da Pátria e do Povo, em suma, de uma Nação cuja Geografia e cuja História tão bem conhecia, não é difícil concluir que não suportaria de bom grado a situação constitucional de reinar sem governar, contrária, naturalmente, ao seu anseio de intervenção.

 

Na verdade, não há assunto que lhe seja estranho ou sobre cuja solução não tenha concebido uma ideia. E isto desde os problemas gerais europeus até aos do Portugal metropolitano e ultramarino. Desde a situação do funcionalismo civil e militar até aos problemas específicos do homem do povo ou do homem de escol.

 

Ao visconde de Atouguia não o deixa descansar. Durante os poucos meses de administração deste ministro, escreveu cerca de trinta cartas, comentando, informando, sugerindo alterações. Por vezes, a repreensão salta-lhe irreprimível, da pena ou dos lábios: «Só pasmo de que, sendo pedida a aprovação em Março de 1855, se resolva tomar a medida como urgente em Dezembro de 1855. Hão-de concordar que nesta reflexão não deixo de ter razão».

 

Foi ele que aboliu por completo o beija-mão, etiqueta palaciana que era um dos restos legados pela soberania absoluta, e recusou-se a confirmar a pena de morte. Não queria ver os cidadãos, entre os quais era ele o primeiro, dobrarem o joelho na sua presença, porque essa vénia só pertence à Divindade como só a ela pertence tirar a vida aos homens. Entendia que a cerimónia do beija-mão era um acto de servilismo indigno de todo o homem que se preza, como entendia que à justiça humana unicamente compete corrigir os delinquentes, pela reclusão e pelo trabalho, para os restituir à sociedade, purificados e prestadios.

 

Quando a doença que inesperadamente o acometeu se agravou, o povo, que desconfiava dos políticos e amava o soberano, concebeu a ideia de que este fora envenenado, como corria que o havia sido seu avô D. João VI. Foi necessário, para o acalmar, que muitos dos que se dirigiram ao Paço fossem admitidos ao quarto onde o rei agonizava, mas sem evitar o apedrejamento das casas do duque de Loulé, dos condes da Ponte, de Tomar e de Valada.

 

Após uma caçada em Vila Viçosa, em que o rei se fizera acompanhar pelos irmãos, os infantes D. Fernando e D. Augusto, todos regressaram com os primeiros sintomas da febre tifóide que os iria vitimar. Com efeito, o infante D. Fernando faleceu, em 4 de Novembro, e o rei D. Pedro V, em 11 de Novembro desse mesmo ano de 1861, com 24 anos. Mais uma vez, a morte passara por este Palácio em circunstâncias trágicas. A juventude, subitamente, interrompida do rei D. Pedro V, aliada ao seu temperamento romântico, grave e sério, à sua profunda inteligência, ao seu escrúpulo profissional e à sua curta felicidade com D. Estefânia, tudo se conjugara para o tornar muito estimado do povo português.

 

Em 1858 D. Pedro V casara com a Princesa D. Estefânia, de nacionalidade alemã, indo o casal viver para o Palácio das Necessidades em Lisboa.

 

A vida idílica do casal real no Palácio cor-de-rosa estava sentenciada a uma curta duração, ao contrário do final feliz de um conto de fadas. Quis o destino que a morte prematura cedo levasse D. Estefânia, acometida por uma angina diftérica que em nove dias a vitimou. Chegada, triunfalmente, a Lisboa em 17 de Maio de 1858, veio a falecer nas Necessidades a 17 de Julho de 1859, apenas com 22 anos.

 

D. Pedro V, destroçado, perdera a vontade de viver. A alegria e a graciosidade da jovem rainha desapareceram para sempre dos salões do Palácio das Necessidades.

 

Sem deixar descendência é seu irmão D. Luís que lhe sucede no trono.

 

António Alves Martins, Alexandre Herculano e Camilo Castelo Branco foram homens do rei D. Pedro V.

 

A seguir – António Alves Martins, Bispo de Viseu

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