Nobel da Literatura e que faleceu a poucos dias de completar cem anos (há quem ironize, dizendo que quis evitar as muitas homenagens que lhe preparavam). Foi o romance «Sobre héroes y tumbas» que na edição portuguesa, com o acordo do autor, ficou «Heróis e Túmulos». Não foi trabalho fácil, pois tendo estudado o castelhano europeu, deparei com um texto cheio de argot porteño que só vim a decifrar com a ajuda de Sábato. – tendo-lhe confiado os problemas, mandou-me um glossário com termos que os dicionários de que dispunha não registavam.
Era um intelectual de uma grande dimensão literária e ética – muitos o comparavam a Jorge Luis Borges, sendo que, ao contrário de Borges, manteve durante a ditadura militar, uma atitude de dignidade e de corajoso antagonismo, que Borges, como se sabe, não teve. E perante essa grande dimensão intelectual, surpreendeu-me o rigor com que as suas personagens discorriam sobre futebol, descrevendo jogadas de confrontos históricos entre o Boca e o River Plate, evocando grandes jogadores… Vim depois a saber que Sábato, era um fervoroso adepto do Boca Juniors, o clube do mítico Diego Maradona. Vibrava com o futebol, com as vitórias do Boca e envergava a camisola do clube com frequência.
Uma outra história.
Num almoço de trabalho que, há muitos anos tive com o grande musicólogo João de Freitas Branco e com o maestro Ivo Cruz no restaurante Belcanto, no Largo de São Carlos, Freitas Branco contou-me um episódio
muito curioso ocorrido durante a vinda a Lisboa do grande violinista ucraniano David Oistrakh, que na altura era considerado o maior executante do mundo, sobretudo de compositores do repertório russo contemporâneo.
Logo após a chegada e a recepção protocolar, Oistrakh chamou Freitas Branco de parte e pediu-lhe para lhe arranjar maneira de ir ver o Eusébio jogar. Embora surpreendido pelo inusitado pedido, o maestro contactou o presidente do Benfica e logo foi disponibilizado um camarote para Oistrakh e Freitas Branco. Diz-se que, no final do concerto, o grande violinista não agradeceu pela segunda vez os aplausos do público do São Carlos, para poder chegar rapidamente ao estádio. No final do jogo, em que Eusébio marcou um golo magnífico, David Oistrakh foi ao balneário cumprimentar o jogador.
Sobre o concerto em São Carlos, José Gomes Ferreira escreveu um interessante poema, que vem publicado no 2º volume de Poeta Militante (Não, não deixes secar/este fio de água de violino/que nas manhãs de ouro/completa as nossas sombras com flores -/ enquanto os pássaros de sementes nos olhos/procuram na espiral dos voos/outro cárcere de recomeço.). A leitura deste belo poema de Gomes Ferreira, leva-nos até a Fernando Namora e a Manuel Alegre. O primeiro, no seu poema «Marketing», alude aos 5-3 do Eusébio à Coreia. Manuel Alegre, sobre o «Pantera Negra» diz:
Havia nele a máxima tensão
Como um clássico ordenava a própria força
Sabia a contenção e era explosão
Não era só instinto era ciência
Magia e teoria já só prática
Havia nele a arte e a inteligência
Do puro e sua matemática
Buscava o golo mais que golo – só palavra
Abstracção ponto no espaço teorema
Despido do supérfluo rematava
E então não era golo – era poema.
Figuras míticas como Pinga, Pepe, Peyroteo, Eusébio fazem parte da face luminosa do futebol. Bem sei que há a face oculta, aquela a que a resplandecente luz solar da verdade nunca chega – claques, subornos, tráficos de drogas …
Futebol, democracia e cultura – palavras de idiomas diferentes e de distintos mundos conceptuais? Não necessariamente. É perfeitamente normal que haja quem não goste de futebol. O que já é menos normal é que se transforme esse sentimento de indiferença pelo jogo num sintoma de superioridade intelectual. Quando se sabe que homens com Camus, Jean Cocteau, Picasso, Jean-Paul Sartre, foram fervorosos amantes de futebol, esse elitismo torna-se sumamente ridículo.
Falei em Alber Camus, Prémio Nobel da LIteratura – não só amava o futebol como integrou a equipa do Racing de Argel. Uma tuberculose interrompeu a sua carreira de futebolista.
Outro nosso conhecido, é um fervoroso adepto do Fluminense – Chico Buarque de Holanda. Ouçamo-lo:
Hoje quis falar da face positiva do futebol, luminosamente inspiradora. Aquela em que o jogo nos reconcilia com a beleza da vida, dela fazendo parte. O futebol não tem de estar sempre nos antípodas da cultura e da democracia.
Termino com este poema de Carlos Drummond de Andrade:
Futebol se joga no estádio?
Futebol se joga na praia,
futebol se joga na rua,
futebol se joga na alma.
A bola é a mesma: forma sacra
para craques e pernas-de-pau.
Mesma a volúpia de chutar
na delirante copa-mundo
ou no árido espaço do morro.
São vôos de estátuas súbitas,
desenhos feéricos, bailados
de pés e troncos entrançados.
Instantes lúdicos: flutua
o jogador, gravado no ar
– afinal, o corpo triunfante
da triste lei da gravidade
