FUTEBOLANDO – ERNESTO SÁBATO FOI UM ADEPTO FERVOROSO DO BOCA JUNIORS

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É muito natural que nem todos gostem de futebol. Ouço com frequência a justíssima queixa de que o mundo do futebol é um pântano de corrupção onde vão desaguar todas as águas sujas que escorrem dos poderes políticos em autarquias e mesmo de negociatas e cambalachos a nível do poder regional e central. É muito natural que haja quem não goste e que haja também, quem se tenha desgostado com o mundo envolvente de uma modalidade desportiva que se transformou em espectáculo de multidões.

O que já não é tão natural é que exibam o seu desdém pelo futebol como se fosse um certificado de superioridade intelectual. Poderá não significar estupidez, mas significa, pelo menos, tontice. Disse aqui que futebol e cultura parecem vocábulos de idiomas diferentes, pois muito raramente se cruzam. No entanto, como também disse, durante a minha vida profissional que,  em grande parte decorreu no mundo da edição, algumas vezes futebol e cultura coexistiram.

Anos  atrás, traduzi um livro de Ernesto Sábato, o grande escritor argentino, um dos  indigitados crónicos para o Prémio Nobel da Literatura. Foi o romance «Sobre  héroes y tumbas» que na edição portuguesa, com o acordo do autor, ficou «Heróis  e Túmulos». Não foi trabalho fácil, pois tendo estudado o castelhano europeu,  deparei com um texto cheio de argot porteño que só vim a decifrar com a ajuda  de  Sábato. – tendo-lhe confiado os problemas, mandou-me um glossário com termos  que os dicionários de que dispunha não registavam.

Traduzi muitos livros, mas poucos me deram tanto trabalho e tanto prazer – é um romance esplendoroso, com uma paleta psicológica que abrange todo o espectro da tragédia de um animal bisonho chamado homem e que, preso á sua animalidade, sofre a maldição dos sentimentos e da racionalidade – e o que nos outros animais é instinto de sobrevivência, transforma-se em  paixão, inveja, ciúme, crueldade… A par das viagens pelo universo das suas personagens, Sábato faz-nos percorrer a Buenos Aires dos anos 40, com os bares do Bairro de La Boca, os adeptos do Boca Juniors. Contudo, o que me surpreendeu num intelectual de tamanha dimensão foi o rigor  com que as suas personagens discorriam sobre futebol, descrevendo jogadas de  confrontos históricos entre o Boca e o River Plate, evocando grandes  jogadores… Vim depois a saber que Sábato, que morreu a poucos dias de completar os cem anos, pois nasceu  em Junho de 1911, era um fervoroso adepto do Boca Juniors, o clube do mítico  Diego Maradona. Li que, enquanto pôde, nos dias de grandes jogos, vestia a camisola do clube e ia até a um café perto de casa, onde na companhia de amigos, assistia à transmissão televisiva dos desafios.

Ernesto Sábato nasceu em 1911 e  doutorou-se em física e, no final da década de 40. Quando se chegou à fissão do átomo de urânio, tornou-se pesquisador do Laboratório Curie, em Paris. O horror de Hiroxima e Nagasáqui, levou-o a abandonar a carreira de cientista e a dedicar-se à literatura. Já muito idoso, disse «é uma pena – quando começamos a aprender a viver, estamos quase a morrer». Mas depois de ter dito esta frase, don Ernesto ainda viu muitos jogos do seu Boca Juniors.

Na próxima semana, continuarei a falar de notáveis adeptos do futebol – gente do mundo da cultura e da ciência.

Ilustração: Desenho de Dorindo Carvalho

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