A mundialização económica designa o crescimento das interdependências entre as nações resultantes das actividades de produção e do consumo de bens e serviços. Estas interdependências incluem as trocas internacionais entre países — as importações e as exportações de bens e de serviços — e os fluxos internacionais de capitais, favorecendo a divisão internacional do trabalho, e por essa via favorecem a fragmentação do processo de produção. A mundialização assume, além disso, um aspecto regulamentar onde a regulação das actividades económicas ultrapassa o quadro nacional. Pensa-se evidentemente na redução das barreiras aduaneiras como consequência dos acordos do GATT, o antepassado da Organização Mundial do comércio (OMC), mas igualmente dos esforços da criação de espaços económicos integrados como a União Europeia (UE), por exemplo. É evidente que o crescimento dos fluxos internacionais e a criação de instituições supranacionais são processos que se auto-reforçam, e onde as novas regras impulsionam as trocas internacionais e por seu lado o crescimento dos fluxos de bens e serviços assim como de capitais aumentam a necessidade de se estabelecerem normas comuns.
A política industrial visa, quanto a ela, alterar o volume e a qualidade da produção das empresas de uma economia, de maneira a aumentar os resultados económicos. A qualificação de “industrial” designa com efeito toda e qualquer actividade de produção de bens manufacturados ou de serviços. No entanto, no plano dos factos, a política industrial interessa-se principalmente pela indústria transformadora e isto por duas razões. Em primeiro lugar, é ela que está na origem dos dois principais motores do crescimento: a Investigação e o Desenvolvimento (I&D) e as exportações. Para a França, em 2007, mais de 80 % das exportações referem-se a produtos manufacturados e quase que a integralidade da despesa em I&D privado é efectuada por empresas transformadoras. Seguidamente devido à sua abertura internacional, a indústria transformadora é particularmente exposta às dificuldades induzidas pela mundialização. A indústria transformadora conhece um declínio muito nítido no volume dos seus empregos e da sua contribuição para o valor acrescentado das economias contemporâneas, enquanto que ao mesmo tempo, os novos actores, a China e a Índia nomeadamente, conquistam partes de mercados sempre cada vez mais importantes.
Neste contexto, devemo-nos interrogar-se sobre a pertinência, os objectivos e os meios de uma política industrial definida à escala nacional. Haverá lugar para uma tal política? Qual é o seu papel e quais os investimentos que ela deve favorecer? É lícito, tendo em conta as regras internacionais em vigor sobre a concorrência? Para responder a esta questão, não se pode ignorar os novos constrangimentos nascidos da crise da dívida, primeiro da dívida privada e depois da dívida pública, desde 2007. Em primeiro lugar, o constrangimento externo, o do equilíbrio da balança comercial, acentuou-se devido às dificuldades de financiamento. Assim fazendo, dado que os bens manufacturados representam o essencial das trocas, a vitalidade das exportações da indústria transformadora volta a tornar-se um alvo das políticas económicas. Seguidamente, num contexto onde os meios atribuídos à despesa pública são restritos, o custo de oportunidade destas políticas aumenta mecanicamente. Privilegiar esta ou aquela indústria, esta ou aquela actividade ou programa de investigação implicará renúncias igualmente dispendiosas em apoiar outras indústrias, outras actividades ou outros programas de investigação.
A secção 1 apresenta o declínio da indústria transformadora, este declínio que é concomitante com o crescimento da concorrência dos países de baixos salários, tanto sobre as indústrias de baixas tecnologias como sobre as indústrias de elevada tecnologia. A secção 2 considera as margens de manobra da política industrial contemporânea no contexto da mundialização. Aí se insiste nos constrangimentos regulamentares e nas dificuldades de aplicação que impõe a internacionalização das actividades económicas. A secção 3, de vocação normativa, questiona a viabilidade de uma política de moderação salarial e sem margem para dúvidas defende uma política industrial baseada em serviços de elevado valor acrescentado e na existência de um quadro regulamentar legível, harmonizado mas exigente.
1. O declínio da indústria transformadora
Nestes vinte últimos anos, todos os países desenvolvidos tiveram um forte aumento do número de postos de trabalho utilizados no sector de serviços – em paralelo com uma forte diminuição dos empregos na indústria transformadora. A França, por exemplo, criou entre 1990 e 2007 quase 3 milhões de empregos, sendo a maior parte no sector terciário e perdeu mais de um milhão de empregos na indústria transformadora (quadro 1). A Alemanha perdeu mais de 3 milhões de empregos na indústria transformadora ao longo do mesmo período enquanto que criou 3,5 milhões de empregos nos serviços. Esta substituição aparente, indústria transformadora/serviços, é uma consequência da subida da componente “serviços” da produção transformadora correlacionada com a melhoria qualitativa dos produtos. Esta traduz-se pela externalização das actividades terciárias da indústria para as actividades de serviços às empresas. Para o caso da França sobre o período 1980-2007, Demmou (2011) estima que um emprego industrial em cada quatro foi assim transferido para os serviços comerciais, ou seja quase 500.000 empregos[1].
Sobre o mesmo período, o volume da produção de bens manufacturados não deixou no entanto de crescer. Quer seja na Alemanha, nos Estados Unidos, na França ou no Japão, o declínio do emprego industrial esteve associado a um aumento do volume da produção de bens manufacturados, a revelar ganhos de produtividade do trabalho verdadeiramente substanciais sobre o período. Recentes estimativas das causas do declínio do emprego na indústria transformadora avaliam que na França durante a última década, dois em cada três empregos industriais foram assim destruídos pelos ganhos de produtividade (Demmou, 2011). Mas para além dos ganhos de produtividade do trabalho, esta evolução foi acompanhada igualmente por esforços de investigação consideráveis (tabela 1): a indústria transformadora quase que concentra a integralidade do esforço de investigação privada e permanece por conseguinte o lugar de maior parte das inovações.
Tabela 1. Estrutura, evolução do emprego e actividades em I&D da Alemanha, dos EUA, da França e do Japão
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Alemanhaa |
EUA |
França |
Japãob |
|
Emprego na ind. transformadora (PETc, 2007) |
19,0 |
9,9 |
12,6 |
17,4 |
|
Emprego nos serviços às empresas (PET, 2007) |
41,1 |
44,9 |
41,1 |
43,9 |
|
Emprego nos serviços públicos (PET, 2007) |
30,2 |
35,4 |
34,4 |
22,7 |
|
Variação do emprego na ind. transformadora (90-07) |
-3 048 000 |
-3 777 167 |
-1 039 507 |
-3 756 738 |
|
Variação do emprego nos serviços às empresas (90-07) |
3 512 000 |
16 061 782 |
2 308 707 |
3 033 172 |
|
Variação do emprego nos serviços públicos (90-07) |
2 064 000 |
12 067 733 |
1 951 331 |
3 914 583 |
|
Variação do emprego total (90-07) |
1 103 000 |
26 997 1 36 |
2 842 561 |
330 440 |
|
Parte da I&D efectuada pela ind. transformadora (2007) |
90,9 |
63,3 |
86,3 |
88,9 |
|
Parte na despesa dos doze paísesd (2007) |
11,9 |
42,1 |
6,7 |
24,5 |
|
Intensidade de I&D na ind. transformadora (2007) |
2,7 |
3,1 |
2,3 |
3,7 |
a: Para a Alemanha, o primeiro ano de observação é 1991.
b: Para o Japão, o último ano de observação é 2006.
c: PET : Parte no emprego total
d: Parte nos investimentos de I&D na Ind. Transformadora sobre um total de 12 países: Alemanha, Canada, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos, Finlândia, França, Irlanda, Itália, Japão, Reino Unido, Suécia.
Fonte : OECD STAN2009, cálculo dos autores.
O declínio da indústria transformadora tem pois causas muito mecânicas que têm a ver principalmente com as mudanças técnicas. O papel da mundialização no declínio do emprego na indústria transformadora, que está certamente ainda mal avaliado, pode parecer marginal ao lado do progresso técnico. O avanço tecnológico é revelado entre outras coisas por um esforço de investigação importante que parece ser ainda o privilégio das velhas potências industriais: os Estados Unidos realizam quase metade do esforço total de investigação (42%), seguido pelo Japão (24%), pela Alemanha (12%) e pela França (7%). Este esforço asseguraria, por uns tempos ainda, o futuro das indústrias transformadoras ou, pelo menos, o das altas tecnologias.
A evolução das partes de mercado oferece todavia perspectivas inquietantes (tabela 2). Com excepção da Alemanha os países desenvolvidos vêem a sua parte de mercado nas indústrias transformadoras decair em correlação com o desenvolvimento das exportações chinesas: -4,7% para os Estados Unidos, -1,8% para a França, -6,5% para o Japão, e +15% para a China. A parte crescente da China no comércio internacional e isto em todos os tipos de indústrias mostra que os empregos das indústrias de média e elevada tecnologias não são poupados. Nós observamos pelo contrário que mesmo nestas indústrias, o emprego conheceu um declínio significativo, embora menos marcado. Dito por outras palavras, o declínio do emprego na indústria transformadora refere-se a todas as indústrias, qualquer que seja a sua intensidade tecnológica.
Tabela 2. Partes de mercado no comércio mundial (2007) e a sua evolução (1997-2007), por tipo de indústria
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Indústria |
Alemanha |
EUA |
França |
Japão |
China |
|
TCAMa do emprego em 1990-2007, em %,: |
-2,13 |
-1,32 |
-1,64 |
-1,88 |
– |
|
Alta tecnologia |
-0,23 |
-0,31 |
-0,12 |
-0,25 |
– |
|
Média alta tecnologia |
-0,75 |
-0,25 |
-0,39 |
-0,25 |
– |
|
Média baixa tecnologia |
-0,41 |
-0,11 |
-0,38 |
-0,39 |
– |
|
Baixa de tecnologia |
-0,74 |
-0,64 |
-0,76 |
-0,99 |
– |
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Partes do mercado, em %, 2007 |
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Alta Tecnologia |
7,9 |
12,3 |
4,3 |
6,1 |
16,9 |
|
Média-alta tecnologia |
15,2 |
10,0 |
5,0 |
10,1 |
7,7 |
|
Média tecnologia |
8,3 |
6,3 |
3,6 |
4,7 |
8,0 |
|
Baixa tecnologia |
7,1 |
5,9 |
4,4 |
1,2 |
17,7 |
|
TCAM das partes 1997-2007, em % |
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|
Alta Tecnologia |
1,7 |
-4,7 |
-1,8 |
-6,5 |
15,0 |
|
Média-alta tecnologia |
0,1 |
-3,8 |
-2,2 |
-2,2 |
12,4 |
|
Média baixa tecnologia |
-0,9 |
-3,8 |
-3,0 |
-3,3 |
8,7 |
|
Baixa tecnologia |
1,3 |
-3,9 |
-1,4 |
-4,0 |
6,1 |
a: TCAM : taxa de crescimento anual médio.
Fonte: BACI, cálculos dos autores.
Esta constatação abala a visão de um avanço tecnológico adquirido, pertencendo “de direito” às economias desenvolvidas que determinam a fronteira tecnológica. Parece, bem pelo contrário, que é necessário questionar a dicotomia ingénua que distingue as economias modernas que inventam as tecnologias de alta tecnologia e as economias em convergência que se satisfazem em seguir a estrada tecnológica já estabelecida. É certo que a economia chinesa está ainda longe de dominar o conjunto do know how dos bens que exporta. Uma parte das suas exportações de elevada tecnologia resulta ainda de uma montagem de componentes importadas. Mas o crescimento da sua inserção nas trocas mundiais revela também o crescimento das transferências de tecnologia em curso. Se podemos discutir sobre a velocidade desta convergência, não há hoje nenhuma dúvida que uma convergência tecnológica é inevitável.
(Continua)
[1] Os 500.000 empregos transferidos correspondem ao quarto dos empregos na indústria transformadora que foram destruídos desde 1980, ou seja dois milhões de empregos. Desde 1990, a França perdeu 1 milhão de empregos na indústria transformadora, o que sugere uma redução do ritmo de destruição de empregos nestas indústrias.
