Deslocalização das empresas e vulnerabilidade dos territórios: antecipar os choques da mundialização – II. Por E. M. Mouhoud. Selecção, tradução e introdução por Júlio Marques Mota.

 

(Continuação)


2. Amplitude e lógicas de mundialização das empresas

 

2.1. Duas lógicas diferentes de mundialização das empresas

 

O facto de uma empresa se mundializar, saindo do seu país de origem para um outro país (ou vários outros países) passa por um desenvolvimento das suas actividades de produção, montagem, distribuição e inovação (I&D). Esta expansão pode ser acompanhada de uma deslocalização chamada ou absoluta ou relativa. A deslocalização é absoluta quando uma firma suprime uma unidade de produção ou montagem num país A para a transferir para um país B; esta lógica de deslocalização corresponde de resto à visão mais difundida da globalização das empresas nos debates e nas representações públicas (ver Esquema 1. e Enquadrado 1.).

 

Contudo, em geral, a expansão internacional das firmas não implica necessariamente uma transferência das actividades do país de origem para um outro país, mas apenas o crescimento das suas actividades no estrangeiro. A expansão internacional das firmas assemelha-se então a uma lógica de deslocalização relativa que consiste para uma firma multinacional em conseguir o crescimento da produção, do investimento ou dos empregos, nas suas sucursais instaladas no estrangeiro, em vez de ser no país de origem da sociedade-mãe: os meios utilizados são a criação de novas sucursais (sucursais ditas greenfield, ou seja, sobre um terreno “virgem”), as F&A quando a deslocalização se traduz numa transferência de capitais para o estrangeiro.

 

A mundialização da empresa pode fazer-se com ou sem transferências e investimento em capitais (à esquerda do Esquema 1.). A criação de sucursais ditas greenfield (criação de unidades de produção, I&D, montagem, distribuição ex nihilo), as F&A, as alianças estratégicas (sem ligações em capital), os acordos de joint-venture, as concessões de licença, e os acordos de subcontratação internacional, são apenas formas e meios práticos de pôr em marcha a mundialização das empresas; estas operações tornam os sistemas produtivos nacionais cada vez mais interdependentes e traduzem a mobilidade crescente das unidades produtivas, a montagem de subconjuntos ou montagem global de produtos. No total, a mundialização traduz-se numa aceleração do grau de mobilidade dos activos no espaço mundial (Gráfico 1). Se o IDE e as trocas comerciais são dinâmicas já antigas, o aumento da globalização financeira, da tecnologia e dos conhecimentos, bem como o desenvolvimento das migrações de pessoais qualificadas, faz da mundialização contemporânea um fenómeno realmente novo.

 

As deslocalizações não têm todas o mesmo significado: há as que se identificam com investimentos directos no estrangeiro (IDE) e estas têm essencialmente por objectivo o acesso aos mercados e às tecnologias e são relativamente complementares com o emprego, a produção e o comércio nos países de origem das empresas multinacionais. É o que se pode chamar de deslocalizações de complementaridade. As deslocalizações que destroem o emprego e a produção nos países de origem passam sobretudo por operações de subcontratação internacional: são deslocalizações de substituição (ver Enquadrado 1. e Esquema 1.).

 

A primeira lógica de mundialização das empresas passa pelos investimentos directos no estrangeiro e 80% deste é feito sob forma de F&A, e esta lógica conhece uma forte progressão: o rácio das existências de IDE relativamente ao PIB mundial passou de 5,1% em 1982 para 7,8% em 1990, para atingir mais de 25% em 2005. Comparado com a sua importância no início do século XX, a relação entre o IDE da indústria transformadora no estrangeiro e o conjunto da produção mundial subiu consideravelmente desde a década de 90. Em França, a existências de IDE representava menos de 4% do PIB em 1980 e atinge quase 30% do PIB, hoje. Deste ponto de vista, o “sítio França” é cada vez mais atractivo. Em2006, a França representa o segundo país de acolhimento de IDE mundial imediatamente atrás dos Estados Unidos. Geralmente, os países desenvolvidos são simultaneamente os principais países de acolhimento do IDE mundial e os principais investidores. A sua parte enquanto países de acolhimento reduziu-se entre 1986 e 2004, passando de mais de 80% dos fluxos mundiais para 69% desses mesmos fluxos, devido ao aparecimento e crescimento da China e da Índia como países de acolhimento. Os países do Sul permanecem no entanto marginalizados no acolhimento do IDE mundial. A parte da África tem vindo a reduzir-se desde o final dos anos 70 e é agora inferior a 2% do IDE mundial (UNCATD, 2006).

 

2.2. As deslocalizações das empresas francesas por motivos de minimização dos custos salariais continuam minoritárias mas alargam-se aos serviços sob a forma de subcontratação internacional

 

As deslocalizações para os países de baixos salários conheceram uma certa desaceleração nos anos 80 e, em seguida, uma retoma desde a segunda metade dos anos 90. Conhecem actualmente uma aceleração e uma extensão sectorial mas tornaram-se muito selectivas geograficamente. No caso do IDE francês no estrangeiro, apenas 4 à 5% correspondem a deslocalizações por motivos de diferenças de custos salariais que implicam uma reimportação dos produtos finais para os mercados de origem das empresas. Esta percentagem é mais elevada para o conjunto da União Europeia (8%), para os Estados Unidos (7%) ou para a Alemanha (20%).

 

Mas esta forma de deslocalização passa mais pela subcontratação internacional e pela importação directa. Os sectores mais afectados são a fileira têxtil-couros-vestuário, os produtos da metalurgia, os produtos electrónicos e eléctricos. A extensão aos serviços constitui uma inquietação que prefigura uma subida dos países emergentes no conjunto das actividades económicas incluindo as actividades de inovação tecnológica. Sobre o conjunto dos sectores, as importações industriais directas procedentes de zonas de deslocalizações representam, em 2003, cerca de 16% das importações de bens manufacturados realizadas pelas empresas industriais, ou seja, perto de 5% das suas compras e um pouco menos de 3% da sua produção.

 

Um estudo efectuado a partir de dados individuais de firmas francesas do sector industrial por Albert e Sillard (2005) conduz a resultados pertinentes: os autores consideram que há deslocalização quando se está simultaneamente em presença de supressões de postos de trabalho e de aumento das importações pelo estabelecimento do grupo afectado. Obtêm o resultado seguinte: 95000 empregos industriais foram suprimidos entre 1995 e 2001 devido às deslocalizações, ou seja, em média 13500 por ano. Estimam em menos de 7000 os empregos deslocalizados anualmente para os países emergentes (dos quais 30% na China, 20% nos PECO, 16% no Magrebe e 5% na Índia), sendo o resto para os países industrializados. Este cálculo foi actualizado até 2003 (Barlet et alii, 2007). Assim, por um lado, o número de empregos deslocalizados aumenta ligeiramente ao longo do tempo e, por outro, a proporção de empregos deslocalizados para os países emergentes está a progredir claramente. O crescimento dos empregos deslocalizados é, por conseguinte, devido ao dos fluxos com destino aos países de baixos salários, nomeadamente a China. O número de empregos deslocalizados para a China passa de 1459 por ano, entre 1995 e1999, a4114, entre 2000 e 2003.

 

Desde o início dos anos 90, inicia-se um processo de deslocalização de certas actividades terciárias, na sequência da liberalização do comércio internacional dos serviços e da divulgação das TIC. Este fenómeno, baptizado por “Business Process Outsourcing” (BPO), define-se como a transferência de uma parte da produção nacional de serviços para países de baixos custos salariais, seguido da sua reimportação para o mercado interno. Os primeiros empregos terciários deslocalizados foram os postos de tele-operadores (centros de chamadas), os postos de gestão das relações com os clientes (os empregos de back-office) e os postos de registo de dados (facturação, serviços de pagamento, declarações de acidentes por conta de companhias de seguros…). Em certos países, estes empregos rotineiros e pouco qualificados foram transferidos muito rapidamente para o estrangeiro (contabilidade ou manutenção informática, por exemplo). Mas os empregos altamente qualificados são igualmente referidos como tendo sido deslocalizados: administração de sistemas de redes, programação e desenvolvimento de software, engenharia, desenho, serviços jurídicos.

 

No entanto, estas importações de serviços informáticos, e de “outros serviços de apoio às empresas” (contabilidade, operações de back-office…) pelos países desenvolvidos representam apenas uma fraca percentagem do PIB dos principais Estados: 0,4% do PIB dos Estados Unidos, 1,2% do PIB do Reino Unido e 1,4% do PIB da França, em 2002. Mas o fenómeno tem vindo a crescer nos anos 90. A língua desempenha um papel determinante: a hegemonia da língua inglesa favorece as deslocalizações das firmas britânicas e americanas para as zonas anglófonas dos países de baixos salários (IBM, Accenture, Capgemini… por exemplo escolheram deslocalizar para a Índia). As firmas francesas deslocalizam para Marrocos para assim criar plataformas de proximidade de manutenção de sistemas informáticos ou dos centros de chamada.

 

Factores ligados à gestão da mão-de-obra, como a optimização dos centros ou as associações de oferta de trabalho em tempo real, graças às TIC, são igualmente importantes. Assim, enquanto as deslocalizações representam cerca de 10% do mercado americano da subcontratação informática, estas representam apenas 2 à 3% do mercado francês. A maior parte das empresas francesas são operadores de telecomunicações e de venda por correspondência. 

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