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VIAGEM COM PASQUALINI- 20– por Sílvio Castro

 

 (Continuação)

 

 Agora já não sinto mais a música. O trem retomou o ritmo rápido e corre sem cansaços. Pára somenteem Ponta Grossa, onde não se vêem as bicicletas de Castro, não se escutam as notas da banda; somente carros, ônibus, caminhões, tudo num movimento novo para os ouvidos que já se sentiam acostumados a um quase constante silêncio.

 

Deixamos Ponta Grossa e, ao longe, se percebiam os relevos da Serra Geral que confluem nos altos maiores da Serra do Mar. Estamos próximos de Santa Catarina. O trem entra devagar, como numa despedida, em União da Vitória. De frente, passando a ponte sobre o rio Timbó, está União da Vitória.

 

Quando o trem passa pela ponte de ferro na grande velocidade de suas estruturas de aço e do ímpeto da eletricidade que explode como impulso absoluto da máquina e que projeta os vagões como relâmpagos no espaço da paisagem serena, nesta festa de luta entre o tempo que corre e o espaço que o segue sem parar, o trem muda de sons. As vozes que nascem da corrida na ponte modulam tons que são metálicos, mas igualmente aquosos líquidos, vermelhos, mais que vermelhos escarlates, de uma cor que deixa imperceptível no ar e no viajante o odor acre e quente de enxofre. O viajante respira fundo e corre como inebriado de sonhos. Corre o trem; e os sons são metálicos, mas feitos igualmente de belas e doces ressonâncias, sibilos, faíscas, vibrações de decibéis; tudo feito música para os ouvidos do viajante que passa com o trem pela ponte na velocidade que manobra os fios suspensos como se fossem aço volteado por uma força certa e invisível.

Os fios suspensos na ponte se curvam e recurvam como um jogo de asas.

 

 

 

Se da minha janela envidraçada que corre sempre eu observo os acontecimentos na paisagem, esses não cessam de acontecer.

 

Agora estou vendo o desenrolar do verde na corrida do trem; mas, já agora não é mais o verde: a corrida me levou a uma estrada separada dos trilhos por um muro alto. Porém, eu o vejo mais baixo do que o meu olhar na janela do trem, e o muro é uma variação de verde verdes verdemusgo verdescuro verdeclaro verdeamarelo verdazul verde, com uma linha vermelha que corta e harmoniza as matizações do verde. Mas, onde estou? em Castro ou em Kiefstein?

 

Pasqualini me disse

 

meu jovem amigo, certamente estou chegando ao fim. É difícil para quem passou a vida entre a gente, lutando para que os indefesos e os injustiçados pudessem ressurgir numa nova condição de vida, contra todas as forças que se empenham em mantê-los na dolorosa condição de ricos somente da antiga miséria do país, é triste saber que nada poderá fazer contra a sua condenação ao ostracismo.

eu sei, Sílvio, que a minha carreira e a minha vida estão por acabar, e já nada posso fazer para impedí-lo. Mas, não aceitarei jamais de acabar em silêncio. Mesmo de longe, sem poder e forças, minha voz continuará a condenar as injustiças que oprimem os pobres e os miseráveis. Eu me vou incorpar definitivamente a eles e, enquanto puder, caminharei junto deles numa orda de maltaprilhos.

mais do que nunca vou procurar não temer o grito pela verdade, ainda que ela me leve ao exílio da minha terra e da minha gente.


 

 

A amargura expressa por Pasqualini nos últimos tempos antes das eleições me retornam à memória. Revejo o meu amigo oprimido pela iminente impotência derivada do insucesso eleitoral. Porém, nele nada nascia da vaidade pessoal. Pasqualini nunca cuidou da preservação de seus interesses. Ele sempre lutou para manter aquelas posições que lhe permitiam a continuação da luta pela gente. Porém, não sacrificou jamais nada de sua independência pessoal e do carater crítico de sua ação política. Ele sabia que até mesmo no nosso partido se tramava para emudecê-lo definitivamente. Mas, ao acentuar-se dos conluios, ele não procurou mesmo então apoios que o ajudassem e o liberassem definitivamente dos perigos. Mais do que nunca, então ele se servia da própria perseguição sofrida para denunciar os processos anti-democráticos de determinada vida partidária. Eu procurei estar sempre a seu lado, mas hoje sinto que não lutei como devia, não me empenhei como tinha de empenhar-me. A sua ausência que me move nesta ansiedade de reencontrá-lo é também a declaração de minha impotência diante da injustiça praticada contra o meu amigo.

 

(Continua)

 

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