(Continuação)
O trem que entra no tunel, entra numa nova volocidade porque o tunel cego de quilômetros faz com que a corrida se desenvolva sem saber da paisagem. O trem corre corre corre cego errante bizzaro, inebriado pela liberdade de deixar-se todo aos trilhos e à corrida conformada pelo cubo inteiramente escuro, mas certo de seu espaço.
O viajante se integra com o trem no tunel e então nasce um sentimento de viagem indefinida. Se ele fecha os olhos a viagem se transforma em sons que passam docemente pela sua cabeça. É um sonho vivido no tunel e que se confunde com as vozes que sobem das rodas, dos trilhos, das trevas, tocam as paredes do tunel e dão à viagem a sensação de infinito.
Corre.
A corrida mostra ao viajante tantas maneiras de ver o mundo. Agora, na paisagem veloz aparece ao longe e se aproxima uma casaem ruínas. Quasenada mais resta da casa: paredes arruinadas, o teto quase todo desabado, mato que se alça invadindo tudo. Enquanto o trem corre e afasta dos olhos a casa, fica nos olhos do viajante que ainda colhem os últimos detalhes da casa em ruínas, fica a sensação de vidas passadas, mas visíveis.
Vou caminhando pelo Estado do Rio neste trem que agora me parece mais familiar.
Muitas vezes falei com Pasqualini dessa terra. Ele sempre teve grande estima pelas tradições fluminenses. Dizia mesmo que encontrava no fluminense muitos traços distintivos, mas que o fazem claramente brasileiro; em particular o intenso sentido da história, originado do predominante espírito ultra-regional, que ele sabe exprimir. É possível que, dizia ele, o sentido do litoral em confronto com o interior, tenha criado um modo local de comportamento, porém, sempre aberto e disponível ao contato com o diverso. Isto deve ter vindo principalmente do mar. Para o fluminense, o mar foi sempre o porto que acolhe o navio vindo de longe. Daí surgiu a predisposição à vida urbana. O fluminense, mesmo aquele das vilas ou das fazendas, não vive um extremo mundo regional. O Rio de Janeiro fez-se desde sempre a síntese dessa predisposição ao maior contato com todo o mundo.
Enquanto o meu expresso caminha, antes corre, acompanhando em sentido contrário as águas do Paraíba, pequeno grande rio, vou relembrando essas coisas e chegando e passando por São Fidelis, Cambuci, Santo Antônio de Pádua, Itaocara, Euclidelândia, Cantagalo.
No longo rememorar com os olhos que viajam por terras conhecidas, o Paraíba é presença constante, ora visível, ora somente pressentida; aqui largo e encachoeirado, ali estreito e sempre nervoso nas águas que correm para uma foz da qual me afasto continuamente.
O viajante viaja com muitos outros passageiros no vagão cheio e murmuroso. O murmurio da gente se percebe na corrida do trem como um perfume que se impõe num primeiro momento e lentamente se dilui no olfato que lhe corre atrás temeroso que a sensação perfumada se perca para sempre.
O viajante tem ao lado um companheiro de viagem. É um homem e por isso a percepção da paisagem se faz quase sem mudanças, a não ser aquela imperceptível perda que o viajante sente se o seu companheiro de poltrona é um homem. Se é uma mulher, a mudança na viagem é de outra intensidade. A paisagem se faz mais íntima, como se agora o homem a pudesse captar somente com os olhos e não mais com todos os seus sentidos.
O trem parou em Cordeiro. Estousentado numa poltrona que se confronta com uma outra, e todo o vagão é feito de poltronas que se confrontam em quatro lugares para quatro pessoas que podem fixar-se nos olhos, falar-se diretamente, até mesmo ver a paisagem em grupo e dizer alguma coisa dos campos que passam, das casas solitárias nos caminhos, contar das nuvens, do céu, dos pássaros que continuam a voar de encontro à corrida do trem, dos animais e das gentes.
Em Cordeiro tomaram o trem três mulheres e se sentaram ao meu lado e diante de mim.
Olho com vagar o movimento da gente que passa agitada na plataforma e daqueles que procuram lugar no expresso que vai para o Rio.

As três mulheres colocaram as malas e embrulhos nos lugares convenientes, acima das nossas cabeças, e sentaram-se. São três gerações de uma família, certamente: a do meio é uma senhora de quase cinquenta anos, magra, nervosa, ativa, dominadora, com aquelas evidentes características de mulher-guia de família, visíveis na agitação das mãos e dos braços, e mais ainda do olhar que tudo controla; a mais velha é a avó, terá mais de setenta anos, cabelos branquíssimos e olhos de um azul que teima em aparecer, e seu rosto sereno deixa fazer tudo à filha, com uma voz suave, ainda que tocada de longe por um cansaço vindo dos anos; a jovem pouco se parece com a mãe e recorda a avó quando esta era uma moça do interior num tempo vivido que certamente era um outro, e seus olhos eram azuis claros e a voz não tocada pelo cansaço. A jovem também ela tem os olhos claros, azuis, mas o seu olhar não é aquele que deve ter tido a avó. São jovens e límpidos, mas tendem a não ver, a olhar somente para dentro. O olhar da jovem que está sentada ao lado de sua mãe e diante de mim, invés de procurar o espaço aberto da janela, fixa sempre o corredor, as outras poltronas, o vagão que se abre numa porta na direção da saída já ao aberto na velocidade do trem.
A mãe, logo depois de ter predisposto tudo, conversado sem atenção com a avó e procurado demover a filha a sair da ausência constante, falou comigo, procurando integrar-se também com a minha viagem. A filha teve um sobressalto de inquietude vendo a mãe que procurava conduzir-me para aquele espaço familiar claramente turbado que se preparava para subir a serra, até chegar já noite no Rio de Janeiro.
Eu acolhi o convite da mãe, levado principalmente pela expressão inquieta da filha. Inquietude que aumentou quando me foi oferecido um pedaço do bolo trazido de casa e um copo de laranjada mantida fresca pela garrafa térmica que a mãe agitava na sua distribuição metódica. Mais fazia a mãe, mais a filha mostrava o nervosismo que lhe estava dentro. Não aceitou as ofertas, mas recolheu-se no olhar que perambulava pelo vagão sem nada ver.
Escutando o contar sem fim da mãe e o assentir silencioso, mas presente, da avó, eu participava sem sair de mim e sem dizer nada mais do que não fosse uma participação atenta que se compassava com a subida do trem para Friburgo.
O ar se fizera mais frio com a serra e os vidros das janelas foram fechados completamente. A mãe colocou um xale amarelo nos ombros da filha que o recebeu a mal. O xale amarelo combinou com seus cabelos louros, não muito longos, e com a brancura látea de seu rosto redondo.
Eram já passadas várias horas desde a partida de Cordeiro, e o trem, superada a beleza de Friburgo, mudara de ritmo na subida verde fria da serra, em busca do alto de Itaboraí.
Depois de muito contar, a mãe e a avó agora repousavam quase adormecidas. A filha, pouco a pouco, passou o seu olhar do corredor para a visão da janela. Vendo as árvores que corriam, e o verde e as flores que se banhavam no frio do bosque sem fim, como se jamais tivesse existido um silêncio entre nós, nos falamos.
(Continua)

Muito bom, obrigado pela partilha 😀