VIAGEM COM PASQUALINI- 2 – por Sílvio Castro

(Continuação)

 

 

 

Quando deixei a Câmara, depois de uma outra sessão que levou à maior intensidade a crise que vivo sem respostas, me dirigi quase como um automa para a estação central da Rede Ferroviária Nacional, em Brasília. Na multidão que se movimentava para tomar os muitos trens em todas as direções, eu também não sabia que trem queria. Nas plataformas dos trens suburbanos, muitos rostos me fixaram com descofiança, quase reconhecendo em mim um deputado. Assim eu imaginava na minha agitação; mas, verdade era que tudo não passava de uma impressão nascida de mim mesmo, da conturbação vivida que não me permetia saber com clareza que trem tomar.

 

Eu sabia somente uma coisa, e disso me era certo: eu procurava a única solução para o desconforto em que vivia desde há muito: reencontrar, aonde fosse, o senador meu amigo que durante anos assistira com generosidade à crise porque começara a minha vida parlamentar. Ele seguira por todo o tempo de uma legislatura o choque entre os frágeis ideais de um deputado inexperiente e a cínica realidade da prática política. O senador Pasqualini me foi amigo constante por quatro anos. Assim correram aqueles anos de amizade, durante os quais pude recolher lições de uma experiência de profunda participação democrática com a política; de integração com os problemas brasileiros vividos a partir de um ponto de vista que esclarecia muitas de minhas aspirações mais abstratas e me conduzia mais objetivamente para uma atividade civil progressista e aberta.

 

Porém, chegados os momentos de novas eleições, desde logo ele me procurara antecipar o seu temor de uma sua não reeleição. Assim foi.

 

Quando voltei a Brasília, na movimentação do início do novo período legislativo, eu não percebi imediatamente a intensidade de minha perda. Comecei a participar dos trabalhos nas comissões ou no plenário com suficiência cega. Pouco a pouco, tudo começou a desmoronar; me achei sem respostas para enfrentar o muro que julgara superado. Então me senti só e corri para a estação em busca das lições de meu amigo que eu não sabia aonde se encontrava.

 

Eu sabia só de uma coisa: o senador agora vivia errante e o podia fazer a partir de um privilégio contra o qual tínhamos combatido longamente: Pasqualini, depois da derrota eleitoral, passou a gozar com radicalidade de um direito legal dos parlamentares ou dos ex-parlamentares, consistente em poder viajar sem limites nos trens da Rede Ferroviária Nacional.

 

Eu já sabia de como ele se encontrava há tempos: sozinho, sem parentes vivos, de saúde frágil e isolado politicamente. Talvez, por tudo isso o senador escolhera de viver dia-e-noite nos trens, numa viagem sem fim. Subia e descia nas mais diversas estações; chegava e logo partia, numa sincronização de viagens que recomeçavam sempre. Todos começavam a individuar aquele viajante sem fim, gentil, educado, fino, sereno, que descia de um rápido e tomava o bilhete do noturno que muitas vezes retomava uma estrada paralela àquela já vivida pelo rápido. Os chefes das estações principais já o conheciam e logo que o viam gritavam bom dia, Senador; boa noite, Senador. Sim, o Senador passou ontem por aqui na direção de Minas Gerais, deve estar viajando agora entre Belo Horizonte e o Rio; mas pode também ter ido para Vitória.

 

Empurrado pela multidão agitada, eu não sabia para onde ir. Queria encontrar meu velho amigo e recomeçar a falar com ele; escutar sua voz tranquila, seus conselhos. Me era indispensável a sua visão do mundo e da política. Uma única coisa conseguia ver com clareza: meu amigo estava num trem que certamente naquele momento corria pelo Brasil. Mas, para onde, aonde?

 

Queria começar a minha viagem de procura, mas como começá-la? Poderia sair de Brasília e ir para o Nordeste, na direção de Salvador, Recife, Fortaleza. O mesmo, entretanto, poderia fazer tomando a linha do Norte: Belém, Manaus. Ou penetrar por Goiás, rumo de Mato Grosso, de Mato Grosso do Sul.

 

Diante de tantas hipóteses de repente me vinha à cabeça que meu amigo sendo de Santa Catarina procurava mais geralmente as linhas do Sul. Então me recordava de seus momentos de reminicências pessoais sobre a raiz italiana de seus avós, emigrantes na então província de Santa Catarina, com Desterro como capital.

 

Preciso começar a minha viagem.

 

(Continua)

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