(Continuação)
O trem continua a correr por São Paulo. E eu com ele vou viajando em muitas dimensões, desde aquela que mostra os cafesais como esquadras verdes com botões vermelhos, numa organização que pacifica a vista, até os mais distintos pensamentos. Penso mais uma vez sobre a dimensão do território, vendo a paisagem, examinando a gente que desce e sobe na viagem, nas diferenças de comportamentos, de maneira de vestir-se, de falar, que recolho a cada instante. Então me lembro de outras lições de Pasqualini
o ambiente é essencial para a melhor prática política. A sua valorização não pode ser mais matéria de simples movimentos ambientalistas, mas deve ser parte importante dos programas de todos os partidos. A defesa do ambiente, na totalidade de suas implicações e naturezas, é um dos fatores da vida democrática e forma insuperável para a melhor distribuição de bens e direitos numa sociedade estruturalmente injusta para com a grande maioria dos cidadãos, como é a brasileira.
com a política do ambiente pode-se evitar abusos de todos os tipos e em toda a extensão do território. Principalmente naqueles espaços em que predomina o abuso do poder político, áreas em geral carentes de uma mais imediata ação da Justiça. A política do ambiente nos pode ensinar a transformar também muitos comportamentos nos territórios de fronteira. O poder político que nesses espaços ainda vive e se aplica com critérios de pura defesa militar do território, esse poder deve compreender que hoje os territórios de fronteira são principalmente espaços abertos à convivência comunitária, até mesmo com aquela multi-nacional.
quando a consciência do valor do ambiente será transformado em comportamento cultural não mais se queimarão árvores que levaram mais de 2 mil anos para atingir o máximo esplendor e que se consumam em menos de 6 horas. Queimar uma árvore assim, transformá-la num amontoado de carvão e cinza, é destruir um coração que sentiu bater a vida e hoje não existe mais.
a consciência do ambiente leva à reintegração do homem na natureza e a uma retomada do valor de tudo que representa a existência: plantas, animais, coisas, a gente toda.
Lembrando-me de quanto dizia Pasqualini, eu me entrego ao maior significado de suas lições.
Um dia eu vou ter um gato. Ele se chama Mino. É um gato cinza-escuro, de olhos verdes. Sua barriga é rosa, de um rosa que se alarga pelo cinza. Mino, cinza e rosa, debaixo da cara de olhos verdes e densos bigodes, tem um colarinho branco que confina com o rosa da barriga. As patinhas não são cinzas, mas junto ao cinza das patas, as patinhas são brancas. Quando Mino se senta sobre as patas cinzentas, mantendo o corpo ereto nas patinhas dianteiras, o rabo cinza e rosa acomodado debaixo das patas, olhos verdes fixos nas muitas plantas de seu jardim mágico – gerânios, hortências, rododendro, azálea, camélias -, Mino se transformaem esfinge. Entãoseus olhos ganham um olhar infinito, como se Mino passasse pela intensidade roxa das flores do rododrendo, pelo vermelho amarelo azul das hortências, ou pelo multicolorido dos gerânios, e chegasse além dos vôos dos pássaros, das borboletas, além, muito além do murmúrio do bosque-jardim encantado. Mino ama repousar em meu colo, escutar a minha voz e corresponder ao diálogo proposto com o movimento do rabo, das costas, dos olhos, do corpo todo. Mas, ama ainda mais dormir 18 horas debruçado sobre aquele da mulher que enche com seus gestos a nossa casa.
Os pensamentos eram tantos que não percebi ter já passado a serra de Paranapiacaba e que São Paulo estava por ficar atrás da corrida deste trem que agora entra em Itararé e pára na estação antiga. Vendo a tranquilidade dessa terra, a beleza do lugar, difícil é acreditar que por aqui já se deu uma batalha, com tantos mortos. Olho com curiosidade as estradas, os caminhos, os montes, os declives derradeiros da serra, e nada vejo senão paz.
Estou na última etapa da viagem como se fosse sob uma áurea de serenidade. Sei que dentro em pouco estaremos entrando no Paraná e que metade da caminhada que me distancia do meu amigo já foi superada. Como estará? o que deve estar fazendo neste momento no trem que o leva para Santa Maria?
Vejo que já estou no Paraná quando o trem passa por uma pequena estação da qual me fica somente o nome de sonoridade incomum: Senges. O novo nome me acompanha enquanto se sucedem na corrida as mais variadas paisagens. É todo um verde cultivado, dividido não mais na predominância de grandes fazendas, mas em terrenos menores, sem perdas visíveis do espaço cultivável, ainda que aqui e ali surjam espectros de antigas fazendas onde o gado pasta indolente e sente a ausência da gente no trabalho.
Corre o trem – Jaguarialva, Boa Vista, Piraí do Sul, Socavão.
De repente a locomotiva reduz a marcha e entra no entardecer de uma cidade cheia de vida; o trem caminha lentamente dentro das ruas da cidade, como faziam os trens de antigamente; segue os passos de centenas de bicicletas que ao lado do rápido de São Paulo se encaminham para a estação. Logo todos nós chegamos na praça grande, com um belo jardim de canteiros de flores variadas, ao centro, um coreto branco, muito branco, junto ao qual estão sentados a falar e ver o trem que entra na cidade muitos homens e mulheres, jovens e velhos, crianças. Na estação está escrito o nome: Castro. O meu trem, tomado de desconhecida indolência, entraem Castro. Epára. Pára como se fosse um velho trem, do qual a locomotiva cansada procura o refornimento de água para uma sede sem fim.
A paragem em Castro foi longa, como se esperasse que a banda euterpe acabasse a sua marcha pelas ruas de Castro, entrasse no jardim da praça, tomasse os lugares no coreto e começasse a retreta com as notas solenes e ao mesmo tempo nostálgicas da protofonia de «O Guarani».
(Continua)
