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Os países periféricos da zona euro debaixo do fogo da União Europeia e dos mercados financeiros: um outro olhar sobre os CDS[1] – Introdução.Uma carta do autor, o argonauta Júlio Marques Mota

Coimbra, 30 de Novembro de 2011

 

Caros Colegas

Caros Funcionários

Caros Estudantes,

 

Hoje, vira-se uma página na minha carreira profissional e é simples, esta carreira acaba aqui e com este texto. Tudo certo, há assim um vínculo oficial que se desfaz, terminei a minha vida activa no mercado de trabalho, vou sair desta casa que foi a minha casa de profissão durante décadas sem que com isso diga que vou sair, que viro as costas, porque há um outro laço, talvez, que se esteja a criar, a criar pela simples razão de que esta casa levo-a também comigo como as suas memórias e assim a habitarei e com elas razão de vida também farei, até porque da FEUC passarei também a ser o tempo passado do seu próprio futuro.


Por tudo isso é chegada a altura de agradecer a todos sem excepção e de igual modo, funcionários, colegas, estudantes, e expressar o meu reconhecimento porque de forma directa ou indirecta pude partilhar com todos um projecto, este, esta casa, esta Faculdade, este país até, porque uma Faculdade não pode, por definição, estar fora do contexto que a cria, que a fundamenta e para quem ela se dirige, também. O meu reconhecimento por um lado e, por outro, apresento as minhas desculpas por aquilo que eventualmente não fiz e deveria ter feito ou por aquilo que fiz e fiz mal feito e aqui também o meu pedido de desculpas se eventualmente alguém de forma não intencional magoei. Nestes últimos, contar-se-ão muitos estudantes que, por erro, passei e que, por isso mesmo, sinto sinceramente que um mau serviço lhes prestei.


Está longe, muito longe, o tempo em que aqui cheguei. Com efeito, larguei em 1975 o ISE cansado de um destino que aí se desfazia entre a exigência de notas dadas ou exigidas de mão no ar e a existência de um clima universitário que, por fruto da época, não era compatível com a minha pretensão de aproveitar os primeiros anos de docência para uma preparação de ordem científica, por um lado, para meu próprio interesse e estrita valorização pessoal e, por outro, tendo em conta a investigação de carreira, pois considerava que a formação adquirida até aí estava muito longe da que pretendia, para além de querer procurar sempre interrogar os textos que estudava, forma de estar que aprendi enquanto estudante. Também pelo mesmo motivo, diferentes propostas de emprego outro na altura recusei. Tempo de uma geração que aprendeu a interrogar, a contestar também.


Foi assim que vim para Coimbra e durante meses o ISE continuou a pagar-me o ordenado, porque pensavam que eu havia de voltar. Não voltei, fiquei. A preparação científica a que fundamentalmente ansiava, a formação face aos meus objectivos de percepção e de acção no mundo, essa, o tempo e a vontade sempre permitiram que fosse sendo feita. Para trás e para sempre ficou a investigação dita investigação de carreira, ou mais simplesmente, o doutoramento, que por efeitos de trade-offs não foi feito. Mas os sinais dessa inquietação quanto à percepção do mundo e a tensão ou a insatisfação intelectual que lhes esteve sempre subjacente permaneceram uma constante que tentei sempre transmitir a quem comigo estudava, a quem comigo partilhava as mesmas dúvidas, as mesmas interrogações, a quem comigo interrogava os mesmos conhecimentos. Nestes, em particular, estão por ordem de escrita e de acaso, aqueles com quem trabalhei mais de perto, Adelaide Duarte, Joaquim Feio, João Sousa Andrade, Clara Murteira, Ana Neto, Margarida Antunes, Luís Peres Lopes.


A estes dois últimos docentes devo a obrigação de uma certa auto-crítica, a de que muitas vezes, fruto dos meus trade-offs e da minha própria visão da Universidade os levei a trabalharem muito, mas muito mesmo, para além do que seria normal, seja na elaboração de textos pedagógicos aos alunos destinados, seja ainda a orientar, a ler, a avaliar múltiplos trabalhos de estudantes, a discutir muitos deles, e isto numa altura (até meados dos anos 90) em que regimes de avaliação deste género eram vistos como exóticos e os trabalhos em nada equivalentes aos trabalhos de hoje para o mesmo método de avaliação. Tudo isto exigia trabalho, tempo, estudo para além da formação de base, tudo isto foi feito possivelmente até com prejuízo, para cada um deles, da sua própria carreira académica. Ainda recentemente, depois do último acto oficial enquanto docente da FEUC, estando os três a almoçar, a Margarida mostrou-me uma folha onde eu, há 23 anos atrás, quando ela começou a trabalhar comigo em Economia Internacional, lhe indiquei a lista da bibliografia que devia ler como preparação para leccionar a cadeira. Nesta lista, constavam nomes como M. Clement, R. Pfister e K. Rothwell, Bo Södersten, R. Heller, M. Chacholiades, J. Williamson, P. Dockés, B. Rosier, G. Marcy, A Emmanuel e C. Kindleberger. Gostei de reler a lista.


E a um outro nível, e sem querer com isso fazer quaisquer comparações ou exclusões, um diferente tipo de inquietações com outros partilhei e, nesse sentido, devo aqui recordar um dos anos mais violentos da minha vida profissional, o ano em que a Faculdade esteve em risco de ser fechada, devo aqui recordar a extraordinária camaradagem que envolveu todo um Directivo que, sob a presidência serena, competente e muito eficaz do Professor José Veiga Torres, a um muito bom porto a Faculdade conseguiu acostar, afinal, este porto éramos todos nós colectivamente, descobrimo-lo mais tarde. Arte do Professor José Veiga!


Também a um outro nível devo recordar um outro ano muito difícil em que fiquei como presidente do Conselho Pedagógico, ano em que a Faculdade se repartiu por vários sítios, ano também em que este Conselho como um todo se defrontou com sérios problemas de ordem pedagógica, dada a dispersão espacial em que as aulas da FEUC funcionaram e, como se isto não chegasse, deparámo-nos ainda com o exemplo do que é não ser professor e que envolveu a disciplina de Contabilidade Geral.


Essa mesma linha de disponibilidade para interrogar tudo o que estudava também a procurei sempre transmitir a todos aqueles estudantes que por todos nós passaram, de licenciaturas a mestrado. Disso se confirma também quando há dias a arrumar papéis do que haveria ou não de largar ao esquecimento, leio uma dedicatória de alguém que por esta casa passou e onde me agradecia, na sua tese de mestrado que eu não orientei, porque “siempre estuvo listo para resolver mis dudas y ayudarme a estudiar y a aprender, que me ensegno a romper a barreira del medo a no saber e me dio confianza em mi”. A querer vencer os cones de sombra da nossa ignorância foi assim que aprendi a ser estudante, foi assim que quis ser professor e foi assim que sempre ensinei, ou seja, a perder o medo de não se saber e só há uma forma séria de o perder, que é a de procurar saber. Dessa linha de inquietação, dessa linha de interrogação constante, dessa linha de rumo a todos aqui deixo, como uma ilustração, um texto, maçudo talvez, escrito expressamente para esta saída que não é de despedida, e onde me exponho a procurar perceber um tema que nunca ensinei e de que possivelmente muito pouco sei, a querer dar, depois de Fiat Lux para mim escrito, um segundo olhar sobre o estranho mundo dos CDS.


Com este texto, quero ao mesmo tempo expressar uma mensagem destinada a todos os jovens e que é simples: ao estar numa Universidade e quando as forças do obscurantismo intelectual a querem colocar em ruínas, como agora está a acontecer, a única resposta que se lhes pode e deve dar é a de procurar fazer da nossa vontade e da nossa capacidade em saber a mais poderosa ferramenta com a qual nos podemos transformar noutros cidadãos, de corpo e alma e a tempo inteiro através de uma outra Ágora, herdada da Grécia antiga e também da moderna.


Tempo dos mais novos então e deixem-me utilizar as palavras de uma jovem de uma Escola da periferia desta cidade, Joana Duarte Bernardes de nome assim assinado, e fazer delas a expressão do que agora sinto relativamente à casa para a qual de costas não me quero virar: “quando penso na escola — na minha escola — penso nela como casa… É nela que aprendemos a nossa capacidade de construir casas fora da nossa casa”. E, como essa estudante, também hei-de desejar sentir mais tarde que é “…tanta a luz que a minha escola-que-foi-minha-casa nada tem de álbum de família a quem o tempo [há-de] escurecer com a sua sepsia feita de pó e de poesia”. Os tempos para isso são agora muito difíceis e a política de ignorância por toda essa Europa a ser seguida em nome dos défices e dívidas públicas, em nome dos mercados, em nome da desqualificação do trabalho como princípio, é disso um claro e mau sinal, mas creio sempre na consciência colectiva dos homens e sobretudo na dos jovens que contra este modelo de sociedade hão-de a sua dignidade profissional e de cidadania saber conquistar. E assim, serão pois capazes, coisa que nós não fomos, de fazer da nossa Universidade o centro de saber a que a nossa jovem estudante também se poderia estar a referir e que constituirá o mecanismo de elaboração da seiva que irá pois sustentar a futura Ágora, a democracia real que, lamento dizê-lo, ainda está por criar. E de tudo isto estou certo.


E de tudo isto estou certo e por tudo isto direi apenas até amanhã, porque essa evolução quero viver, quero partilhar, do mesmo modo que partilhei e partilho estes tempos de horror. Por tudo isso continuo a querer partilhar também as certezas de amanhã desta Faculdade e da juventude que a irá encher, como partilhei as certezas de ontem e as incertezas de hoje. Por isso mesmo até amanhã, como até ontem.

 

 

Júlio Marques Mota

 


[1] Agradecemos a João Sousa Andrade, a Luís Peres Lopes, a Margarida Antunes e ao nosso antigo aluno Flávio Nunes a leitura atenta e os conselhos que tornaram este texto possível.

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