A Crise na vida das “Marias” do Mundo – I
Na noite passada fui a um espectáculo do FolkFaro onde iria actuar um grupo vindo da Sibéria. Junto ao Hotel Eva e enquanto esperava ouviu-se primeiro um artista português que poderia até ser bom se o seu humor não fosse profundamente reaccionário. Desliguei-me do que este fazia e lembrei-me de um encontro que tive com uma mulher russa, há um ano atrás e de quem me despedi exactamente junto ao Hotel Eva. É a história desse encontro que passo a relatar.
Em férias, numa tarde de sábado. Saio de casa. Vou comprar o meu jornal estrangeiro habitual um pouco longe. A mais de um quilómetro, junto ao Hotel Eva. Um certo não-sentido porque há um vendedor de jornais bem mais perto onde o posso encontrar mas onde me recuso a ir.
Penso, vou, não vou. Decido ir então tão longe, pois a palavra de um homem vale pelo que ele sente. Dias antes nesse vendedor mais perto solicitei a reserva diária desse jornal pedindo-lhe que mesmo que não aparecesse um qualquer dia não o devolvesse, pois queria-o sempre. Num mundo básico como me diz o meu amigo João cansado de emprego procurar, cansado de emprego não ter, propôs deixar alguns euros de garantia para essa reserva. Não era necessário, dizem-me.
Um dia o jornal não veio. Não foi distribuído. No dia seguinte, a mesma coisa. Avisei que mos guardassem. No terceiro dia, dirijo-me ao vendedor. Os jornais vieram? A resposta siderou-me: vieram, mas já os vendi.
Que ninguém imagine os impropérios que não me saíram da garganta. Nenhum. Olhei, talvez com desprezo e disse: a sua palavra pode não valer nada, é consigo. A minha palavra, essa vale o que eu sou e eu não sou isto. Nem mais, virei as costas.
Em tempo de crise a palavra de um homem não vale nada absolutamente nada é assim a moral do pequeno comerciante, do pequeno trader afinal, é esta a lição que aprendi deste vendedor de jornais, em Faro e em férias.
Fui então perto do Eva, o único aberto para além de um outro vendedor, naquele sábado á tarde, na estação da CP, ainda mais longe, portanto.
Vou então longe comprar o jornal. Saio de casa, viro à direita. Junto de uma clínica deparo-me com uma senhora a ouvir com atenção as indicações que lhe estavam a dar. Pela cara de espanto percebia-se de que pouco ou nada percebia do que se lhe estava a ser explicado. Despreocupadamente dirijo-me à senhora.
Pergunto: quer ir para onde? Para Albufeira.
Venha comigo, eu levo-a lá, à paragem das camionetas da carreira para Albufeira pois é exactamente para onde vou.
Acompanhou-me. Era uma senhora elegante, forte, vestida de modo muito simples, de saia escura e blusa branca. Roupa simples, nada cara, mas elegantemente utilizada. Meto conversa e pergunto de que país é.
Nota-se?
Não, mas se não fosse estrangeira tinha percebido a indicação que lhe foi dada.
Criou-se então uma espécie de solidariedade, uma abertura a perguntas que imediatamente não deixei de fazer.
De onde vem, como veio?
Da Rússia, vim como turista, paguei, fiquei. Foi assim que me respondeu, com um português claro, sem erros, com as palavras bem marteladas, bem incisivas.
Olho, com algum espanto, sinto o aspecto frontal da resposta, a frase curta, olho o busto direito, o andar bem seguro, a franqueza espelhada na cara. Uma “generala” pensei. Uma “generala” de outras paradas militares, claramente era o que o seu andar anunciava.
Como turista terá vindo, pagou, Quer dizer que por detrás havia organização, havia gente a ser cobrada à comissão dos rendimentos auferidos por estes emigrantes, os Al Capones da fragmentada ex-União Soviética, com os 10 a 15 por cento mensalmente assim pagos. Sobre isto nada pergunto, como é natural. O espaço de Schengen, a ideia de um mercado livre de trabalho à escala da Europa, ao ser protegido pelos países limítrofes desse espaço com uma peneira que não tinha rede permitiu uma massa brutal de migração clandestina barata, a servir de base de reprodução do capitalismo já neoliberal. Mas passemos ao lado deste problema.
Viro-me e pergunto de modo bem delicado: diga-me, profissionalmente como é que tem sido a sua vida?
A forma como a pergunta foi formulada, o termo profissionalmente, bem enquadrado da na pergunta, deu-lhe confiança. É ela que agora me olha com ternura, digamos com confiança e com a sua resposta deixou-me pregado ao chão. Profissionalmente, fiz de tudo. Estamos num país estrangeiro. Ninguém nos conhece, ninguém nos vê, ninguém que seja das nossas gentes para me ver, para me criticar. Sublinha com mudança de tom a palavra, ninguém!
Fiz de tudo. Muitas escadas terão sido lavadas por esta emigrante, muitas escadas terão sido subidas e descidas, com todo o respeito pelas mulheres de limpeza, muitos horários de trabalho terão sido sistematicamente violados.
Fiz de tudo. Muitas estufas de morangos foram apanhadas, muitas caixas foram carregadas.
Fiz de tudo. Muitos campos de feijão-verde foram apanhados, muitas caixas de tomates por ela apanhados foram encaixotados. Muitas noites de sono de má qualidade, muitas dormidas pelos campos abertos certamente, muitas dormidas, na melhor das hipóteses, em quartos de 8 a 10 pessoas, por quarto com a cama sempre quente já como na China, perto da rotunda do Hospital de Faro passadas ou algures e caladas pelo silêncio de toda a gente, inclusive pela ignorância sistematicamente assumida pelas autoridades oficiais responsáveis pelas condições de trabalho de toda a gente.
Fiz de tudo. Algumas noites também por esses mesmos campos ao luar e enrolada poderá ter andado com quem não sabe quem, no quadro de uma torre de Babel de ucranianos, russos, moldavos, e pasme-se, de chineses e chinesas também, com horários de 12 horas a 16 horas talvez. Sobre esta gente, não quer o governo nada saber, sobre esta gente não se pronuncia o Serviço de Fronteiras, sobre esta gente quer o Ministério do Trabalho tudo ignorar, até porque do ponto de vista neoliberal é gente completamente descartável. Como assinalava o antigo ministro Oliveira Baptista, como é que dormem as romenas, por exemplo, da apanha do morango, ninguém sabe, ninguém quer saber. Gente descartável, a lembrar os textos de Kevin Bales, gente a que a Troika, a Comissão Europeia, o BCE, o FMI, os Passos Coelho andam ainda ao assalto, como verdadeiros ladrões, mas não na calada da noite, a lembrar Zé Afonso, mas sim à luz do dia, munidos de um poder que lhes dá o voto que lhes confiámos, a lembrar Marx também, ele que está cada vez mais actual.
Fiz de tudo, é a sua expressão, e nas condições em que fez de tudo, meu Deus, muita gente não fez nada, porque simplesmente neste tipo de trabalho os trabalhadores nacionais com direitos são excluídos pelos patrões e acusados depois pelo CDS e outros de que os portugueses não querem é trabalhar, porque o subsídio de desemprego é elevado. Deslocalização no local, diriam os economistas: já que os terrenos não podem ir ter com os trabalhadores onde eles estão, então que venham os trabalhadores para onde estão os terrenos mas com os níveis salariais dos seus países de origem ou muito pouco mais. Adicionalmente, estes podem aceitar outras condições de trabalho bem mais gravosas, menos custosas para os patrões, até porque ninguém conhecido os vê.
Fiz de tudo. E com isso foi assim a sua luta pela vida para mais além e mais alguém, a luta pelos seus a tudo exigia. Pela sobrevivência, foi isso, é isso.
Aqui, e de imediato, lembro-me de Sartre, lembro-me de jovens estudantes do meu tempo, muitos deles mais tarde deram líderes políticos, que no café Nova Iorque ou no Tatoo e nos anos sessenta discutiam existencialismo versus marxismo, lembro-me de uma frase que andava na boca de todos nós: o inferno são os outros.

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