Com o nosso agradecimento ao jornal i
Na segunda-feira é reeditada a discografia dos Ornatos Violeta. O antigo vocalista, agora a preparar o novo disco dos Supernada, desfia memórias
Por Tiago Pereira, publicado em 2 Dez 2011 – 00:00
Primeiro enviámos um SMS a Manel Cruz. “Manel, podemos agendar uma entrevista?” Seguiram-se uns quantos telefonemas para discutir local e hora. No dia certo, o entrevistado só dá sinal de vida duas horas depois do combinado. “Desculpa, estive a ensaiar até às quatro da manhã, adormeci.” O propósito da conversa é a reedição da discografia dos Ornatos Violeta, banda que comemora este ano duas décadas e que terminou em 2002, para deixar fãs deprimidos e futuros músicos com inspiração que dura até hoje. Mas o músico está mais focado nos projectos presentes que em qualquer memória.
Pergunta fácil: os Ornatos vão reunir-se?
Não. Surgiu a hipótese de nos juntarmos a propósito dos 20 anos e ainda chegámos a dar uns toques. Mas chegámos à conclusão que havia muito trabalho a fazer. Estamos melhores músicos, tecnicamente, mas passaram muitos anos para entrar novamente na coisa. A fazê–lo teríamos de meter a cabeça só nisto, porque o dinheiro até justificava o tempo investido. Mas todos têm muitos projectos, a vida de cada um é real. E depois há aquela coisa de achar estranho tocar algumas das canções. Já não é o que era. Decidimos deixar tudo ficar como está.
O dinheiro nunca vos faria voltar?
Fez-nos pensar, claro que sim. Fez-me até ficar deprimido. Mas nunca o faria só por isso. Duas coisas fizeram-me pensar. Primeiro as pessoas, os fãs, ainda que nunca pense muito em fazer as coisas pelos outros. Mas gostava de dar isso às pessoas. E depois o dinheiro. Fazia isto e ficava relaxado durante uns tempos. Não é uma fortuna mas seria uma grande ajuda. E uma grande festarola. Mas comecei a ficar todo baralhado, também por causa das letras. Cantar “quero mijar, agora quero mijar” aos 18 anos e aos 37 não é a mesma coisa. Não são só os acordes que contam.
Os fãs não costumam reclamar por uma reunião?
Não muito, acho que não o fazem porque já sabem qual vai ser a resposta. Não é como o meu pai, quando me chateava para estudar.
Quando se separaram, foi uma questão de “fim natural” ou houve algo mais que motivou a separação?
Bom, foi um pouco dos dois. Quando começámos a banda, eu tinha aí uns 16 anos. No final, tinha 27, 28. É muito tempo e parece ainda mais tempo durante esse período, em que somos novos. Estávamos a despertar para a nossa individualidade mas, ao mesmo tempo, quando tens uma banda em puto, tudo aquilo é uma máfia. Mas chegas a uma altura em que não consegues fazer tudo o que queres. Uns começam a despertar para isto, outros para aquilo. Tivemos que decidir, se fosse para continuar havia que gerir a banda como uma empresa. Mas essa é uma opção que traz muitos compromissos que nós não queríamos assumir.
Houve depressão pós-Ornatos?
Estive um ano e tal, dois anos, em que pensei mesmo deixar a música. Completamente. Sair do mercado de vez. Mas acabei resgatado para os Pluto e para os Supernada, projecto para o qual estou a preparar um disco para o início do ano e uma digressão. De repente já estava enfarilhado outra vez. Isto tudo na mesma semana. Eu que tinha já pensado algo como “mais bandas não, chega”. E depois o projecto do [Foge Foge] Bandido.
Todos esses projectos, foram suficientes para gerar uma satisfação equivalente à que teve com os Ornatos?
São coisas totalmente diferentes, são impossíveis de comparar. Até porque o entusiasmo era diferente, a idade influencia muito a forma como se vivem estas experiências. Noutros tempos tinha que pegar num telefone para mostrar a alguém uma melodia ou uma parte de guitarra. Agora, com a troca de ficheiros, a coisa não funciona exactamente da mesma maneira. E também já não dormimos em casa uns dos outros para tocar e escrever canções, como fazíamos na altura. Mas nunca senti falta daquilo que tive com os Ornatos. Ainda me sinto como um puto, mesmo que já tenha perdido a inocência há muito tempo. Continuo a lutar por fazer o mínimo possível de coisas secantes. Sempre que venho para a sala de ensaios à noite venho depressa, nervoso. Tenho que dizer para mim mesmo “acalma-te, pá”. Mas sempre fui assim com as canções, não há volta a dar.
Quando é que tudo isso começou, essa relação com as canções?
Há aquela imagem habitual da guitarra e da fogueira, não é? Com as miúdas à nossa volta e tal… O problema é que depressa percebi que a coisa, na verdade, não funcionava assim. Comecei no campismo, com uns amigos que agora já nem sequer tocam nada. Um gajo aprende uns acordes e vai por ali fora. As “Dunas”, claro… O Wish You Were Here, dos Pink Ployd, com aquelas notas iniciais, “téum, téum ténénéum”… e fui fazendo umas musiquitas. Mas nunca fui muito interessado em investigar a coisa a fundo, em aprender música. Devia, mas nunca fui.
Isso com quantos anos?
Aí uns 15, acho. E foi no campismo que dei o meu primeiro concerto. Na verdade foram apenas duas músicas, eu mais um amigo, na festa lá do parque. Cantámos algo de Simon & Garfunkel, fazíamos as vozes em harmonia e tudo. Eu ainda nem tocava nada de jeito. Até aí nunca tinha tido ligação à música. A não ser quando era mesmo muito puto e fui aprender piano, numa daquelas investidas que os pais às vezes têm com os filhos. Mas aquilo era tudo uma grande chatice, estar ali e depois pôr a mão direita aqui, a esquerda ali. Odiava música. Gostava muito de ouvir mas não percebia porque razão havia de aprender. Ainda por cima tinha trabalhos de casa para fazer, claro que nunca os fazia. Devia ter uns 7, 8 anos.
Isso ainda em São João da Madeira?
Não, nasci em São João da Madeira mas mudei-me para o Porto muito pequeno, tinha dois anos.
E se a música não era o interesse principal, qual é que era?
A minha cena era o desenho, isso sim, desde pequeno. Como um dos meu filhos, também se entretém com isso. Isto das predisposições é algo que não dá para explicar bem mas que agora vou percebendo melhor. O meu filho, de dois anos e meio, arruma-me os DVD todos sem eu lhe pedir. E se estou a lavar-lhe os dentes, ao pousar a pasta em cima do lavatório ele tem de a arrumar. A sério. A melhor coisa que lhe posso dizer é “anda ajudar-me a descarregar as cervejas”.
Mas essa não é uma predisposição muito artística.
Claro que não. Mas a questão é: porque é que ele é assim? Não sei, mas parece que já nasceu com aquilo. E comigo e o desenho aconteceu o mesmo. Era um gozo danado que tinha com aquilo. E a família achava piada, dizia-me para eu desenhar um macaco, e eu desenhava. Ou os meus colegas, que me pediam para fazer uma mão no rabo de uma mulher. O facto é que começas a perceber que consegues fazer uma coisa bem feita e não queres saber de mais nada.
Nem da escola?
A escola… Gostava dos colegas e tal mas a escola era uma seca tremenda, passava as aulas a desenhar nos cadernos, lá está.
Não era, portanto, um aluno exemplar?
Fui-me safando sempre, com 3 a tudo, claro. Como desenhava bem, os professores compreendiam sempre que tinha ali qualquer coisa e davam-me nota para passar. Eu compreendo isso e agradeço-lhes, se não tinham-me empatado a vida como o caraças. E a matemática sempre fui mau aluno. A minha primeira nota num teste no ciclo, a meio físico e social, foi negativa. Os meus irmãos eram bons alunos e eu, claro, tinha de estragar tudo. Lembro-me bem dessa sensação.
Tem quantos irmãos?
Dois, mais velhos. Nem por isso ligados às coisas das artes.
E os seus pais?
O meu pai é médico mas sempre teve uma sensibilidade artística especial. Ainda assim, só começou a pintar depois dos 30. Ao mesmo tempo, sempre escreveu, sempre fez poesia. Ele e a minha mãe sempre respeitaram as minhas vontades.
Nesse meio, que música é que o movia, o que é que ouvia e o influenciava?
Ouvia a música dos meus pais e dos meus ções, de Sérgio Godinho aos Cure, do Jacques Brel ao Bruce Springsteen, dos Dire Straits aos Simple Minds. Não comprava música, comia era tudo o que havia lá por casa.
E hoje?
Hoje compro alguma, saco alguma, mas passo muito tempo com som à minha volta, às vezes tempo a mais. Ouço muitas vezes a minha cena, as minhas misturas, as minhas melodias que não quero perder. É um bocado egocêntrico, eu sei, mas gosto de analisar tudo ao detalhe. Tenho ouvido mais música desde que fui pai.
Porquê? Isso não parece muito óbvio.
Porque ao mesmo tempo que ponho um disco para ouvir, parece que vou pôr música para alguém, uma espécie de DJ doméstico. Porque já sei que eles vão gostar, gostam de quase tudo, e isso entusiasma-me. Mas longe vão os tempos em que ouvia música com atenção, em que sabia o que se passava. Isso foi mais nos tempos da faculdade.
O que é que estudou?
Bom, estudar estudar… andei por lá, em Belas-Artes. Tenho ideia de ter andado três ou quatro anos. Porque houve anos em que me inscrevi e nem sequer lá apareci. Entrei para Design, depois mudei para Pintura. Até que decidi sair. Fiquei–me pelo segundo ano. Mas a ilustração sempre me acompanhou desde então. Em jornais, livros para putos, revistas. Sempre consegui conciliar com tudo o resto que fui fazendo. E assim continuo.
Entre o desenho e a música, era um miúdo com os tiques de futebolista como outro qualquer ou já tinha manias de artista?
Sempre adorei jogar à bola. Tinha sido futebolista se não tivesse vindo para isto da música. Quero dizer, acho que tinha sido, até era bom jogador. Era o meu plano B. Mas sim, a minha vida sempre foi normal nesse sentido. Tinha um bocado a mania, mas porque passava muito tempo a fazer coisas. Nunca estive muito à vontade com as gajas. Passava muito tempo a desenhar. E quando descobri os acordes, as guitarras, aquilo virou magia. Já sabia que era por ali e concentrei-me muito nisso.
E como aparecem os Ornatos Violeta?
Conhecemo-nos na escola, na Soares dos Reis, virada para as artes. Era comum haver bandas por ali. Um ano depois já éramos os Suores dos Reis, a nossa primeira banda, com montes de guitarristas, queríamos era tocar guitarra. E no início eu nem era o vocalista, esse era o Ricardo. Eu também era guitarrista, aparecia com umas canções… uma vez achei que devíamos ser uma espécie de Beatles, comprei quatro microfones e tudo, todos devíamos cantar. Depois acabei nas vozes.
Começaram em 1991 mas só editaram o primeiro álbum, o “Cão”, em 1997. O que aconteceu entretanto?
Tocámos muito e explorámos muitas ideias. Melhor dizendo, quando saiu o primeiro disco, foi resultado de muita boémia. Era uma espécie de repositório de episódios da noite em canções. O “Punk Moda Funk”, por exemplo, foi, na verdade, uma noite de bebedeira tremenda.
Isso acontecia tudo onde?
Parávamos pelo Aniki Bóbó, o Meia Cave, o Indústria, sempre todos juntos. As conversas de café connosco eram uma seca, ninguém suportava, falávamos sempre do mesmo.
E sempre com muitas mulheres nas canções, nos versos ou mesmo nos títulos.
Porque essa era a minha grande vontade, mas era também aquilo em que me sentia mais fraco. E todas as questões existenciais estão ligadas às paixões, nada a fazer.
Mas era mau de romances?
Nunca fui de grandes noites com montes de gajas e tal, sempre fui de namorar. Sempre fui tímido e sempre cultivei a ideia do respeito. Deve ter um bocado a ver com a educação. Por isso, mais facilmente ia escrever uma canção do que ia ter com uma miúda. Mas também nunca fui um nerd de casa.
E com a banda? Os Ornatos fizeram a vida rock’n’roll?
No início não éramos muito assim, sempre fomos muito cerebrais, queríamos dissecar tudo, ter grandes conversas sobre os grandes assuntos. Essa má vida implicava uma confiança e uma segurança que ainda não tínhamos. Éramos uma grande salgalhada, entre gente que almejava um pouco o espírito do rock mas que também se considerava inteligente e que queria perder tempo com outras coisas. Mas depois as coisas mudaram um pouco.
Quando é que isso aconteceu?
Numa altura que coincidiu com o nosso primeiro contrato com uma editora. Deixámos de controlar tanto as coisas e acabámos por ser mais boémios. Mas não é como se tivéssemos groupies e isso. Muita gente vinha ter connosco depois dos concertos, mas só queriam autógrafos ou fotos. Isso tudo contribuiu para que também fôssemos um pouco ingénuos.
Com a música?
Sim. Porque a partir desse momento passámos a ter um compromisso entre a nossa vontade e a de fora. Não que houvesse pressão directa da editora, mas existe sempre qualquer coisa, as pessoas esperam determinadas coisas, e há conversas e telefonemas. Tudo isso também tem aspectos positivos, mas houve coisas que se perderam, a forma de fazer as coisas sem pensar. No terceiro disco, que começámos a gravar, esse espírito estava a voltar, a reboque de uma coisa menos boa que era a malta andar chateada por dinheiros, por cenas más. Nessa altura já nos estávamos um bocado a cagar para tudo e fazíamos o que nos dava na telha. As músicas que saíam eram mais díspares e isso era bom.
O que aconteceu a esse terceiro álbum?
Desistimos, já numa fase dolorosa. Não cortámos relações porque acabámos a tempo. Houve discussões horríveis, como aquelas que às vezes os namorados têm quando estão para se separar. Mas sobre quem faz o quê, de quem é a autoria desta e daquela canção. Passei parte da digressão do “Monstro…”, a maior que fizemos, com mais de 60 concertos, completamente deprimido. E eles também não estavam bem. Já éramos só trabalhadores e nem nos podíamos olhar bem nos olhos. O mais estranho é que, nessa altura, já tínhamos algum sucesso, tínhamos o nosso público. Se bem que isso aconteceu ainda mais depois de acabarmos. Acho que isso também ajudou ao fenómeno.
De ver e ouvir Ornatos Violeta em tantas bandas e em concursos de televisão?
Sim, nunca percebi muito bem porquê. Mas até é mais bom que mau. Ouvi o Filipe, no “Ídolos”, e acho que ele estava melhor do que aquilo que fiz na gravação do “Ouvi Dizer”.
Ver as próprias canções no “Ídolos” em casa, no sofá. As coisas mudaram.
Depois dos filhos já não voltas a ter a mesma vida. Fui pai pela primeira vez há quatro anos e meio e depois tive gémeos. É um filme do Kusturica. Só tens de organizar o tempo de maneira diferente. É trabalhar o dobro, vir para o estúdio de madrugada e continuar a ter o dia seguinte. Implica muita falta de sono. O momento do galão é de liberdade. E é preciso fazer a coisa ao estilo “vou-me deitar porque amanhã tenho de acordar cedo”. Por acaso, hoje não correu muito bem.


