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10 -A Epistemologia da Infância: Ensaio de Antropologia da Educação – por Raúl Iturra

5. Conclusão.

 

Tinha já advertido no começo deste ensaio, que o repto não era simples. Pelo menos, para mim. Dediquei todo um texto para discutir que a economia deriva da religião e para provar que a epistemologia da infância advém dessa teoria, num texto que espera ver a luz do dia em breve. De facto, o grave problema de nós, cientistas, é ignorar os textos básicos da nossa cultura. Hoje em dia sabemos, e com muita dor, que há seres humanos que orientam as suas vidas tal e qual nós fizemos em Séculos passados. O texto Al-Corão orienta a vida de milhares de seres, dentro e fora dos seus países e têm toda a razão de nos designar infiéis. Não por não sermos muçulmanos, mas por orientarmos a nossa vida pela mais valia e o lucro e não pelos princípios éticos que marcam a nossa existência. Esses textos são ensinados, de forma oral e escrita, às nossas crianças, por meio de um sistema ou processo cultural cuja base é maximizar recursos raros e caros, para podermos viver de forma condigna. É a base da epistemologia da infância.

 

 

 Optar, é o segredo desse agir. A nossa vida mede-se pela opção entre o investimento lucrativo e o investimento que leva à falência, conceitos que substituem ao bem e ao mal. Para podermos entender esses conceitos, fazemos da criança uma entidade subordinada ao adulto que diz dizer que tudo sabe e que tudo decide. A criança cresce com essa ideia até reparar que o seu adulto se engana tanto como ele. Foi o que procurei ilustrar com a análise da vida de dois ditadores. Infelizmente, há mais ditadores e não apenas esses dois. E há imensas crianças que estão a olhar, a “bisbilhotar” o que acontece na interacção adulta para saber o que não fazer para não errar. Esta é para mim a base da epistemologia da infância, substantivada pelos meus 20 anos de trabalho de campo a observar as crianças e os seus adultos, a sua interacção. Vinte, dos 35 que tenho de observação participante. Idade de cientista que me tem permitido observar que essas crianças com as quais vivi na sua infância, passam a ser adultos. Adultos esses que, ou optam por maximizar, ou vão à falência económica, isto é ética, como lembra Weber citando Lutero .

 

A prova fica na minha tetralogia da infância, à qual acrescentei mais um livro que deve aparecer em breve. A tetralogia fica para trás e a análise progride enquanto tenciono organizar essa maravilha que é, para mim, a Antropologia da Educação, uma lógica analítica que descrevo com cuidado num dos meus livros . A criança nasce com conhecimentos, sabemos agora. Não é um indivíduo, é a síntese de ancestrais, assim como mais tarde será, também, dos seus descendentes, tal como analiso num outro texto meu de que muito gosto. O que a crianças não tem é palavras para explicitar o que entende à sua medida, em pequeno. Mas sabe aplicar esse conhecimento, primeiro nas suas brincadeiras e, em um dia mais tarde, no trabalho que vai necessitar para sustentar o seu lar, para poder, ou procurar, melhorar a sua economia.

 

Economia tal e qual definiu Aristóteles: o trabalho em conjunto de todos os membros do lar, de cada um conforme a sua possibilidade, para cada um conforme a sua necessidade. A única idade socialista da vida de um ser humano, é o seu tempo de criança, como tenho defendido noutros textos. Manuela Ferreira tem analisado esta mesma ideia nos seus textos e nos preciosos comentários que faz aos meus, à laia de recensão. Também eu, à laia de ensaio, escrevo para ela, com todo prazer e ao ritmo de Bach.

 

Bibliografia.

 

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