(Continuação)
Há já quase há 20 anos observei um caso na Beira Alta, caso que sobre o qual já escrevi noutros textos[1]: uma família estava a passar as suas férias na sua terra. Moravam na Alemanha durante o ano de trabalho, os pais a trabalhavam e os filhos a estudavam. Como é culturalmente natural, as crianças desta família aprenderam mais facilmente a língua da terra na qual viviam habitualmente: tinham amigos na sua rua, tinham colegas de escola, tinham outros adultos ao pé deles, isto é, tinham uma fonte mais heterogénea de informação, quer linguística, quer histórica, quer de contexto social. Os pais, presos pelo trabalho, estavam ligados aos seus pares com os quais falavam sobre o mesmo assunto: o trabalho. É importante perceber que a heterogeneidade da informação dá um entendimento maior da sociedade na qual se vive e que limita a visão do futuro, quando fica enredada apenas numa actividade. Estas foram as ideias chave debatidas com Pierre Bourdieu e Henri Bonvin no seu Seminário de Paris, assim como no nosso em Lisboa e no Porto.
Não é em vão que Alice Miller[2] analisa a vida de várias pessoas que influenciaram o curso de história de uma ou de outra maneira. O caso mais delicado, é de Adolf Hitler, nascido de uma relação ilegítima, da sua mãe com um comerciante judeu. A história é estudada e contada de forma extensa[3], para concluir que o ódio pelos ancestrais e pelas suas condições de vida, permite desenvolver uma personalidade, um entendimento do real que, se há poder político de por pelo meio, a pessoa “faz” uma epistemologia omnipotente. Esta epistemologia procura transformar o mundo: as formas, processos e estruturas que são esperadas pelo conjunto do social ou, como Miller denomina, passar do horror escondido ao horror manifesto. Como criança, ouviu a história pessoal da sua família, e mais tarde foi criando uma história da sua vida que desenvolve no texto por todos conhecido, Mein Kampf, no qual diz, “I had to some extent been able to keep my private opinions to myself; I did not always have to contradict him inmediatly. My own firm determination never to become a civil servant sufficed to give me complete inner peace”[4]
Esta citação de Miller serve para entendermos como o contexto social vai criando uma maneira de ser, um pensamento de baixa auto estima e de desejo de mudar o mundo para a fantasia que ele próprio tece sobre a sua história de vida de futuro. É a luta de uma criança que não é brilhante nos seus estudos, tem poucas notas positivas e é apático na interacção com os outros. Uma criança que sofre um duplo tipo de recalcamento dos seus sentimentos: o de ser marginal por ser filho de judeu, e o de ter nascido fora do laço do matrimónio. Com este duplo recalcamento, endereça as suas ideias para o mundo e constrói uma fantasia social, perigosa e perversa.[5]
O debate com os seus pais é duro, especialmente com o pai, que é um adulto cruel com o seu filho, que descarrega nele a sua própria dor de não ser o fruto de uma família normal,definida pelo contexto social no qual vivia. Esse pai tinha passado a ser um ser social “correcto” na interacção com os outros, mas era duro com o seu filho, batia e punia por tudo e por nada. “For many people it is very difficult to accept the sad truth that cruelty is usually inflicted upon the innocent. Don’t we learn as small children that all the cruelty shown us in our upbringing is a punishment for our wrongdoing?”[6]
Isto é o que acaba por ser o testamento para a aprendizagem do ditador. Acaba por descarregar a sua epistemologia apreendida na interacção familiar, dentro de um contexto social de desconfiança: da política social comunista nascida nesses tempos (ou desenvolvida nesses tempos); e dos membros da raça semita, ou judeus, por serem um grupo social com formas de comportamento diferentes da maior parte dos austríacos e prussianos deste tempo em que se desenvolve a ideia de uma raça superior, aristocrata, sem mistura, etc.
[1] (Iturra, Raúl, 1990 b): A construção social do insucesso escolar. Memória e aprendizagem em Vila Ruiva, Escher, Lisboa
[2] Miller, Alice, (1980) 1983: For your own good. The roots of violence in child-rearing, Virago, Reading, U.K.
[3] Miller, obra citada, páginas 142-195
[4] Citado por Alice Miller, página 158, da obra mencionada.
[5] Analisado no nosso Seminário, especialmente com o Mestre José Manuel Filipe.
