3 – A Epistemologia da Infância: Ensaio de Antropologia da Educação – por Raúl Iturra

Desta forma, falar em epistemologia passa por um debate de centenas de anos, até chegarmos às formas actuais, denominadas positivas ou de lógica do inquérito ou da observação. Através delas, procuramos perceber a tensão da lógica da criança e a omnipotente sabedoria que o adulto pretende ter sobre o saber infantil. Este é um processo complexo e no caso das crianças, um trabalho delicado.

Não há grupo social em que não exista uma interacção entre os adultos do grupo e as novas gerações que começam a aparecer. Normalmente, é dito que a transferência do saber é feita de forma institucional através da escola. De facto, a partir dos textos de Pierre Bourdieu, o sistema de ensino parece passar a ser o centro da análise para entender a epistemologia da criança[1]. Pierre Bourdieu desloca depois o entendimento da criança, para as genealogias e o já referido sistema de ensino. Este tipo da análise leva o investigador a inquirir o processo educativo tal e qual existe na escola. No entanto, na minha opinião e como tive oportunidade de debater com este autor, o saber da criança passa pela sua forma de interagir com o mundo. Do conjunto de observadores e investigadores do laboratório que dirigiu até há pouco tempo, apenas um dos membros tem estudado as crianças com o intuito de entender a sua forma de perceber.

 

De facto, François Bonvin escreveu em 1990: “Quels sont les enjeux pour ces catégories de familles et d’enfants ? Qu’ont –elles à perdre  de spécifique à l’échec scolaire et qu’ont-elles à demander à une institutions de secours ? »[2] O problema que Bonvin procura investigar é a análise da realidade feita pelos filhos de emigrantes que vivem em França. Análise feita por uma segunda geração de seres humanos que saíram da sua terra para morar numa cultura alheia, cuja língua desconhecem e cujos símbolos não são de identidade, quer para os mais novos, quer para os seus progenitores, isto é, a autoridade. A análise do conceito epistemologia passa a ser mais complexa, por causa do que se poderia chamar de “uma identidade roubada[3]. Como analisa Gomes da Silva, os símbolos e hierarquias passam a ser outros. Os dos ancestrais não têm cabimento numa outra cultura; isto parece ser uma recusa de si próprio bem como uma recusa do outro, que é um estranho para quem passa a viver num país alheio. É a análise que faz Bonvin ao estudar crianças de origem africana residentes em Paris.

 

A transferência de saberes e entendimentos é parte central do conceito em análise. Esses saberes são apenas passíveis de serem transmitidos dentro do meio para o qual factos e palavras, símbolos e hierarquias foram emergindo da memória social colectiva. Se não há uma materialidade que corresponda aos símbolos que moram na consciência e no inconsciente da criança, esses saberes acabam por ser apenas uma metáfora que divide o entendimento, até uma parte dominar a outra. Tal como analisa Melanie Klein nos seus textos: “Transferência opera ao longo da vida e influencia todas as relações humanas…até as ansiedades de natureza persecutória…e incitam o medo de retaliação” · Klein analisa aqui a transferência do paciente para o analista, mas penso que a analogia é útil para entender a dificuldade que aparece na vida social vivida fora do lar ou da cultura da qual os símbolos e saberes são recolhidos.

 

Como tenho defendido em outros textos, todo e qualquer grupo social procura a sua continuidade. Essa continuidade não deseja a subordinação que a infância vive nos casos analisados por Bonvin, ou por mim, quando estudo crianças transferidas para outros países pela emigração dos seus pais, ou deixadas em casa, enquanto os pais moram em outros sítios[4].

 

É um tipo de transferência de emotividade e conhecimento impossível, a não ser que se trate de uma transferência de conceitos julgados úteis para  a criança por um adulto que saiba agir dentro de contextos diferentes daqueles em que agora está a viver. Acaba por ser uma memória social diferida, transposta, que pertence a um outro sítio para o qual o saber original não é válido. Transferência que também  não acontece quando as gerações que interagem têm diferentes referentes de onde retiram os seus conceitos, os seus símbolos bem e muitas vezes, a língua na qual falam.

 


[1] Especialmente Les héritiers, Minuit, Pris, 1964 e La reproduction, Minuit, Paris, 1970, ambos textos  com a colaboração de  Jean-Claude Passeron.

[2] Bonvin, François, 1990 : Le soutien a l’enfant: les cycles d’animation periscolaire, Fondation pour la recherche sociale, Paris.

[3] Gomes da Silva, José Carlos, 1989: L’Identité volée. Essais d’Anthropologie sociale, Éditions de l’Université de Bruxelles, Bélgica.

[4] Iturra, Raúl, 1998: Como era quando não era o que sou. O crescimento das crianças, Profedições, Porto.

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