O estado do país não podia ser definido melhor do que como o fez Passos Coelho, ao sugerir aos professores sem colocação que emigrem. É de crer que tenha feito esta sugestão convicto que é a melhor solução para aqueles professores saírem do desemprego. Obviamente que não mede as consequências para o país, que são de dois grandes tipos.
O primeiro tipo de consequências agrupa todos os resultados da saída do país de um grande número de gente nova, com um grau elevado de preparação. Será sem dúvida um grande contributo para o tal empobrecimento sobre o qual Passos Coelho também já disse ser inevitável. Uma juventude bem preparada é indispensável ao crescimento de um país. Se ela falta, o país (e o resto da sua população) sofrerão de falta de iniciativa, daquela capacidade que resulta do vigor físico e da frescura intelectual, e até do encanto e da alegria que resultam do contacto com os mais novos. É uma autêntica quebra. Até o funcionamento dos serviços públicos (incluindo as escolas) e das empresas privadas é afectado pela dificuldade de renovação dos respectivos quadros.
O segundo tipo de consequências inclui as que derivam do agravar da desmoralização e da descrença que reina no país. Desmoralização e descrença que não são novas, são aliás seculares. Contudo parece que agora estão a crescer fortemente. Não é preciso ser um nacionalista fervoroso para compreender que um país só pode sobreviver se os seus nacionais lhe tiverem apego, e quiserem dar o seu contributo para o seu progresso. Normalmente não se pensa, quando se vai tirar um curso, que o objectivo é ajudar o país emigrando, para mandar para a pátria as economias.
A emigração causa sempre um corte com o passado, sobretudo quando houve alguma rejeição. E estar longe da pátria, para a maioria dos emigrantes, significa um afastamento dos seus problemas, mesmo quando se aspira ao regresso. Pensa-se mais em mudar o país, quando se vive nele, e, claro, pensa-se mais em mudar o governo, quando este mostra a sua incapacidade. Passos Coelho mostrou-a claramente.
A oligarquia que nos governa vê com alívio a emigração. Sabe que os jovens são reivindicativos, o que constitui sempre um risco potencial para a sua estabilidade. E nem todos o são como um jovem social-democrata (ele apresentou-se como tal), numa conferência, há já uns quinze anos, que durante três quartos de hora procurou convencer a plateia, de que os jovens têm de procurar correr riscos. Quando lhe perguntaram quais os riscos a que se referia, ele não esclareceu. Por não saber, por não querer dizer? Era claramente um antecessor dos que agora aconselham os portugueses a saírem da sua “zona de conforto” e emigrarem. Ou a jogarem na bolsa.

