*Militante político, licenciado em Filosofia pela FLUL
Programa Mínimo para a Democracia, de Paulo Ferreira da Cunha, é o texto que tentarei comentar, comentário esse que poderia resumir-se a três simples palavras: «Estou de acordo» e ponto final. No entanto, vou procurar dizer algo mais.
Para além da minha concordância com o que nele se diz, devo acrescentar que não se pode ser mais pragmático no que se propõe e no que se resume em três itens de análise das crises que até aqui nos trouxeram.
Há muito tempo defendo, o que estou disposto a fazer até à exaustão e que voltarei a abordar no texto que estou a elaborar para o debate, que há três pilares fundamentais no desenvolvimento de qualquer sociedade: educação, ciência (que inclui tecnologia) e cultura. Não desenvolver estes três pilares dá como resultado o que Paulo Ferreira da Cunha caracteriza como as «3 crises». Que nos vale ter tido a Constituição mais progressista se nos divorciarmos de a fazer cumprir no dia a dia? Aprovada a Constituição, hoje já quase uma sombra do que foi pelas sucessivas revisões, descansámos: está feito, o socialismo está aí ao virar da esquina, é só estender a mão, o Homem nasce para ser feliz e a Felicidade só não a tem quem não a quer! Esquecemo-nos que a Felicidade tem de ser merecida pelo trabalho em prol do futuro, pela demonstração de solidariedade com o outro, solidariedade que só existe quando soubermos construir a igualdade de oportunidades para todos, independentemente do estrato social em que se nasceu.
Paulo Ferreira da Cunha, consciente das causas das crises que aponta, que só os três pilares de que eu falo poderiam evitar, julgo, põe os pés bem assentes na terra, tem consciência dos poderes que forçaram as várias revisões da Constituição de 76, apelidando o actual texto de «modelo moderado», e propõe um programa mínimo, ou seja, «que defendamos a Constituição» (a que vigora, claro!), «que esgotemos as suas possibilidades, e depois voltemos a conversar». Não terei dúvidas em com ele defender este programa, embora continue a preferir um mais radical e talvez mais facilmente derrotado, admito. No entanto, os que detêm realmente o poder, para o qual não foram eleitos à luz da Constituição, estão avisados e colocam em campo os seus assalariados, que dão a cara no Governo e nas muitas e variadas Instituições e que, curiosamente, terão sido eleitos por muitos de nós, mesmo que neles não tenhamos votado, de modo a aproveitar a onda, a instituir o medo e apresentar as suas soluções como as únicas que nos salvarão. É a estes assalariados que compete calar as minoritárias vozes esclarecidas, as vozes dos que são possuidores de educação, de conhecimentos científico/tecnológicos e também de uma formação cultural que lhes permite sonhar com um Mundo melhor para todos, utilizando todos os meios que alienam as maiorias, onde os media – rádio, cinema, televisão, imprensa – propriedade dos tais detentores de poder, têm um papel fundamental na construção de uma sociedade cada vez mais individualista, inimiga do trabalho colectivo necessário à construção de uma sociedade outra, propiciadora da tal solidariedade de que falo atrás.
O programa proposto por Paulo Ferreira da Cunha, que me parece exigir um mínimo de reivindicações, talvez seja o mais adequado no contexto actual. Passo a passo, sem grande ruído, talvez seja o que mais pode contribuir para que, um dia, o tal Mundo propiciador de Felicidade venha a ser possível e, talvez, aquele que possa atrair uma maioria capaz de ajudar a transformar a vida que hoje temos.
Foi o que, como comentário, se me ofereceu dizer.
Recebam todos o abraço solidário do
António Gomes Marques”
