DEBATE – QUE RUMO QUEREMOS PARA A DEMOCRACIA EM PORTUGAL? – Dois depoimentos – Fernando Correia da Silva e Vasco de Castro

Fernando Correia da Silva

 


 

 

Nasceu em Lisboa, em 1931.  Estudante de Ciências Económicas e Financeiras, em 1949, apoiou a candidatura de Norton de Matos nas eleições presidenciais Militante do MUD Juvenil, foi preso pela polícia política.

 

Em 1954, perseguido pela PIDE, exilou-se no Brasil. Colaborou na Folha de São Paulo, tendo sido um dos fundadores do jornal antifascista Portugal Democrático. Com Jorge de Sena, Casais Monteiro, Sidónio Muralha, Guilherme Figueiredo Cecília Meireles e outros, fundou em São Paulo a GIROFLÉ, editora infantil. Em 1964 após o golpe militar no Brasil, empregou-se numa indústria em Fortaleza do Ceará. Regressou a Portugal em 1974. Publicou os romances: Mata-Cães (1986), Lord Canibal (1989) Querença, (1996), Maresia, (1998) e Lianor (2000). Querença foi passado ao cinema em 2004, com realização de Edgar Feldman. Desde 1998, Fernando Correia da Silva coordena Vidas Lusófonas, um site na Internet que já quase atingiu os 25 milhões de visitas. O seu depoimento é curto mas incisivo:

 

 

A BUSCA DA DEMOCRACIA

 

Se não promoves e estruturas a IGUALDADE entre os Homens, estás a converter em fumaça não só a FRATERNIDADE mas também a LIBERDADE.

 

 

 

 

Vasco de Castro

 

 

Frequentou o curso de Direito da Universidade de Lisboa, sendo dirigente associativo. Entre 1961 e 1974 esteve exilado em Paris, colaboradondo na imprensa francesa como desenhador satírico, nomeadamente no Le Monde e Le Figaro. Em 1974 fixou-se em Lisboa, onde continuou a sua militância política e foi um dos fundadores do jorna diáriol Página Um. É autor das obras Montparnasse, mon village (1985), Fotomaton (1986), Leal da Câmara (1996) e Montparnasse até ao esgotamento das horas(2008). O depoimento que apresenta corre o risco de ser o mais bem-humorado de todos. 

 

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Comentário de uma visitante ao depoimento de Paulo Ferreira da Cunha e ao comentário de António Gomes Marques

 

 

 Maria Laura Gomes Madeira

 

 

Li com atenção o texto de Paulo Ferreira da Cunha e o comentário de António Gomes Marques. Fui sensível à vossa construtiva inquietação. Tenho para mim que a Democracia está sendo atraiçoada pelos seus detractores contumazes, que mais do que pessoas são os fragmentos das ideias de um tempo vencido. Foi-se apressando a semântica oportunista e a ignorância, a falta de estudo, comparação com outros povos, de diálogo entre actores contemporâneos do mesmo fenómeno. Aqui e apenas aqui, no nosso rectângulo ibérico, sozinhos, não saímos desta conversa de surdos. Estou de acordo convosco, temos de ir pela mansa com a Educação e a Cultura, tão necessitadas de novos programas escolares, a todos os níveis académicos, onde, sem esquecer os factos e as figuras do passado, deixando deles as pistas para futuras pesquisas, se conheçam os factos e as figuras que semearam valores até hoje reconhecidos, mas que passam tão longe do que os jovens precisam de conhecer. Tomar contacto também com os bons autores que desmistificaram na História o que nos foi passado como verdades sacramentadas, seria de importância capital, sem necessitar de ler volumes inteiros ou acrescentar comentários sectariantes. Eles falam claro. Essencial ainda fornecer aos jovens estudantes um «palco» onde possam montar os seus teatros com as peças que escreverão, em tom sério ou jocoso, divertido ou irónico, a que se atribuiria classificação, seria a essencial lufada de ar novo e alguma motivação para os tempos pedagógicos que enformam as áreas do Português, da História, do Inglês, etc., etc. Há um largo espectro de épocas, figuras, até de obras já traduzidas e publicadas, que poderão sempre servir de referência e inspiração para o efeito. Como igualmente os fenómenos do quotidiano, em que se traga para a cena ou para a intervenção um pensamento livre, mas estruturante, de autor ou da autoria dos que o queiram divulgar. Pensadores modernos e contemporâneos em contraponto com os clássicos, contextualizando a condição temporal da sua trajectória também terá interesse. Recriar Gil Vicente, por exemplo…Encenar Pessoa…Dizer Sofia, Camões, António Aleixo…Hitler, porque não, com grandes fotos ou composições sobre a guerra mais devastadora como pano de fundo…Celebrar o Dia D, conhecer e falar dos portugueses mortos em La Lys…Ou da saga de Mário Soares, de tantos mais e de como a paz é difícil… Edições baratas e leves para colóquios e conferências interactivas, formação contínua de professores nestas áreas, com aulas de colocação de voz, presença e aptidões que abririam seguramente novos horizontes na docência …Tanta coisa a fazer. Tantas áreas a dinamizar… Ninguém abre para a política democrática com o atraso que temos, com a indiferença diante do que se passa no mundo global acerca de tudo, desde a ciência política, aos sistemas económicos, passando pela fome, o atroz sofrimento das guerras ditas religiosas, a opressão, a supressão dos direitos humanos, dentro ou fora das famílias, dos países, como a violência do tecido económico em que se inserem. Creio que será por esta via que se formará gente capaz de construir uma opinião, sabendo desde logo que uma opinião tem apenas de ser defendida, e que nem sempre sairá vencedora. Mas uma ideia nova, e para muitos algumas delas o serão, pode mudar a vida para sempre. Estou mais ou menos a citar Einstein… Concordo em absoluto que nada se vislumbrará de novo sem este enorme desafio mobilizador das escolas, das universidades, dos cenários da cultura e do diálogo, em mesas redondas, onde ecumenicamente se possa conversar e traçar um plano, dois ou mais, para o discutir com quem se mobilize, ou seja mobilizável. É enorme a frustração de todos, nada se perde em tentar sair deste marasmo. Também acredito que a Constituição que temos não obstaculiza este tipo de mudança.

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Saudações cordiais

 

1 Comment

  1. Prezada Maria Laura Gomes Madeira:Gostei muito do seu comentário, e de todas as ideias práticas e construtivas que dá.Como professor, sinto bem a necessidade de uma profunda renovação educativa, a todos os niveis. Sem ela, nada será possível.A cultura política, mesmo de jovens que teriam obrigação de a ter, é pouco mais que nula, e por vezes distorcida. Um dia, num exame precisamente de Ciência Política, numa universidade, já desesperado de o estudante nada saber, perguntei:”_ E então o que é a CGTP?”Não sabia. Achou a pergunta muito difícil.”- Bom, e a UGT?”Nada na mesma.Encontrei contudo uma saída, baixando a fasquia ao mais elementar:”- Certamente sabe, ao menos, o que é o MFA…””_ Ah, sim, isso sei (respondeu com um sorriso falso nos lábios): É o Movimento Federalista Alemão”.Dentro de três anos aposto que estava “dr.”… E sabe-se lá se não virá ainda a ser político… desses jovens “turcos” que afinam pelas modas… Temos, cada um no seu posto, que tentar lutar contra a deseducação obrigatória.

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