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Desindustrialização, Globalização, 3ª Série, 4ª Parte – Crescimento e produtividade

Um texto para Álvaro Santos Pereira ler a Passos Coelho – um relatório da McKinsey – V. Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

 

(Continuação)

 

 

5. A indústria transformadora

Os sectores da indústria transformadora tais como o da produção de veículos, de tecidos e vestuário, produtos alimentares, bebidas, tabacos assentam em bens que são negociáveis ​​internacionalmente e, por essa razão, concorrem em termos de custos e de capacidade até à procura de se diferenciarem em termos de qualidade e de marca. Nestes sectores, a competitividade depende de um amplo conjunto de factores que, todos juntos, determinam o “value for money” obtido. Devido ao facto de que a importância dos diferentes factores varia de acordo com a actividade específica de cada um deles, a competitividade dos países deve ser avaliada em termos de produtos específicos e / ou de etapas na cadeia de valor. Por exemplo, o domínio global e técnico, a logística e os custos de trabalho variam de forma diferente entre os componentes para automóveis ou para computadores.


Porque são produzidos por sectores que são uma importante fonte de empregos atraentes e uma importante base de receitas de exportação, os governos têm frequentemente utilizado a política económica para promover a emergente produção local destes sectores ou então para apoiar as unidades fabris já existentes. Os instrumentos de política utilizados têm variado amplamente, indo desde estarem a proteger a produção local da concorrência global (normalmente através de barreiras comerciais ou da regulamentação do mercado local) até à oferta de incentivos para as exportações (por meio de financiamento favoráveis ​​a empresas locais ou de incentivos para os investidores estrangeiros) ou fornecendo apoios financeiros aos operadores locais em dificuldade.


Em certos sectores tais como o do automóvel a política económica não só tem moldado o comércio global e as estruturas produtivas como tem também contribuído para expandir a capacidade produtiva a nível mundial através de incentivos ao investimento, modificando a própria economia do sector em termos globais. Os nossos trabalhos mostram que não há uma medida que sirva para aplicar em todos os casos, em todas as situações, pois há uma grande variedade de abordagens que têm ajudado a estabelecer uma indústria de fabricação local em diferentes regiões. A capacidade de um governo para impulsionar o crescimento depende do facto de os seus objectivos da política incidirem ou não sobre actividades com potencial real para ganharem vantagem comparativa, bem como da forma como estas políticas são executadas.


6. Indústrias intensivas em recursos


As indústrias intensivas em recursos como o petróleo, carvão e metais básicos, bem como a agricultura e a silvicultura, são tipicamente actividades de bens negociáveis internacionalmente cujas empresas necessitam logo à partida de grandes volumes de capital como investimento. O custo na aquisição do direito de exploração é determinante e portanto medir a competitividade nestes sectores baseia-se na compreensão da posição de custos em relação aos outros fornecedores[1]. As regiões competitivas em termos de custos têm habitualmemte acesso aos recursos naturais, a uma escala suficiente e com uma eficiência operacional e de rede logística para poder aceder aos grandes e principais mercados. No entanto, os elevados custos globais e o tempo que é necessário para ajustarem a capacidade à procura faz com que estes sectores sejam susceptíveis de grandes oscilações nos preços e na utilização da capacidade quando mudam as tendências da procura.


O papel do governo nesses sectores é tipicamente muito mais amplo do que aquele de apenas criar um ambiente de mercado eficiente. Primeiro, os decisores da política que se quer prosseguir têm de decidir quem é que tem acesso aos recursos naturais e em que termos é que o pode fazer, determinando os incentivos da indústria e a capacidade para o crescimento e para ganhar eficiência[2]. Segundo, muitas destas indústrias passam por um ciclo de desenvolvimento na forma de U invertido. Os Governos ajudam a moldar a evolução da estrutura da indústria que, por causa dos grandes custos fixos, normalmente, leva mais tempo a ajustar-se às variações dos mercados do que no caso dos serviços. No início do arranque do desenvolvimento de um sector, os governos têm ajudado a financiar o aumento de novas capacidades quer seja directamente através de empresas estatais ou indirectamente fornecendo proteção comercial ou de financiamento favorável ​​a investidores privados. Na fase madura, os governos tendem a concentrar-se em coordenar o downsizing, a redução dos níveis de actividade, e na reestruturação destes mesmos sectores, ou seja, em reduzir também o excesso de capacidade verificada.


Uma análise detalhada sobre a competitividade em cada sector, que é mais do que simplesmente olhar para o agregado, o nível macroeconómico, revela então detalhes importantes. O nosso trabalho de investigação identificou três elementos estruturais chave que acreditamos deve dar corpo aos esforços para aumentar a competitividade:


1. A competitividade dos sectores é mais importante do que o mix de sectores. Alguns governos preocupam-se com o “mix” das suas economias, mas a nossa investigação leva-nos a concluír que os países que ultrapassam os seus concorrentes não têm um mix mais favorável de sectores que leve ao aparecimento de taxas de crescimento mais elevadas. Antes pelo contrário, os seus sectores é que individualmente são mais competitivos do que as suas contrapartes noutros lugares.


2. Para gerar empregos, a competitividade do sector de serviços é a chave. Nas economias como um todo, aumentar a produtividade é essencial para o crescimento do PIB global. Mas os padrões de crescimento diferem entre os sectores. O crescimento de um sector, definido como sendo a sua contribuição para o crescimento do PIB agregado pode vir quer da expansão do emprego, quer do aumento da produtividade. As melhorias de produtividade são um factor chave em todos os sectores, mas os serviços foram responsáveis ​​por todo o crescimento líquido de emprego nas economias desenvolvidas e foram responsáveis por 85 por cento do crescimento líquido dos empregos nos países de rendimento médio.


A competitividade em novos sectores inovadores não é suficiente para impulsionar a economia como um todo em termos de emprego e de crescimento. Embora as inovações nos sectores de nicho possam permitir melhorias nos processos produtivos de outros sectores, o crescimento da “vanguarda” dos sectores emergentes, como por exemplo a tecnologia limpa por si só não vão dinamizar a competitividade em toda a economia. Estes sectores são muito pequenos.


Como ponto de partida para qualquer esforço para impulsionar o crescimento e a competitividade, os governos precisam ter em conta o estágio de desenvolvimento da sua economia, o que importa para o papel que os diferentes sectores desempenham no crescimento do PIB global. Um bom domínio durante a fase de desenvolvimento industrial é susceptível de se revelar inadequada quando uma economia entrou na sua fase madura e o desafio é então o de aumentar a competitividade dos sectores de serviços.


A evolução das contribuições sectoriais para o valor acrescentado quando as economias se desenvolvem é um dos factos económicos mais consistentes que têm sido observados. Essencialmente, a participação da agricultura tende a diminuir nas fases iniciais do desenvolvimento económico. Então, na fase de rendimentos médios uma forma em U invertido é típica quando os sectores estão em fase de pico e começam a decrescer. Os serviços crescem continuamente em proporção do PIB à medida que avançamos ao longo da curva de rendimento e do desenvolvimento económico (Esquema 3)[3].


Esquema 3

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

Devido a estes comportamentos ou evoluções de estruturas produtivas, o nível de desenvolvimento de uma economia é importante para definir o papel que os diferentes sectores desempenham no crescimento do PIB global. Nas economias de rendimentos baixos e médios, o desempenho dos sectores em expansão industrial é fundamental. Não temos conhecimento de que tenha havido em qualquer das economias emergentes um crescimento rápido e sustentado sem que tenha havido também uma contribuição substancial do seu sector industrial [4].


Embora haja um interesse crescente em conseguir uma maior taxa de crescimento em produtos menos utilizadores de carvão nas economias emergentes para “saltarem ” sobre a sua fase industrial, o passado não nos fornece nenhum modelo para o conseguir. Entre as economias de rendimentos médios, a indústria terá contribuido com um pouco menos da metade para a taxa de crescimento global (46 por cento), enquanto que a contribuição dos serviços tem sido de um pouco mais de metade (54 por cento). Em média, estes dados reflectem claramente a taxa desses dois sectores na economia (Esquema 4).

 

 Esquema 4

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nas economias de elevados rendimentos, os serviços representam cerca de três quartos do valor agregado e têm contribuído em cerca de 87 por cento de crescimento do PIB desde 1985, uma tendência que nós esperamos que vá continuar a verificar-se. (Esquema 5).

 

Esquema 5

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nesta fase de desenvolvimento, a da maturidade, o maior desafio é o de se saber como efectuar a renovação industrial de modo a ser menos capital intensivo, mais utilizadora de mão-de-obra mas em que esta seja de mais elevada formação, como o é também a necessidade de substituir postos de trabalho perdidos em actividades utilizadoras de pessoal altamente qualificado e do sector de serviços. Neste último caso, o bom funcionamento dos mercados nacionais torna-se o factor cada vez mais importante a determinar o desempenho global de uma economia[5] . Como estas economias se movem através desse ciclo de destruição criadora os decisores das políticas económicas precisam de conhecer novos conjuntos de competências técnicas e profissionais. A experiência ganha no apoio directo à indústria não é apropriada para os sectores de serviços onde os governos podem ser mais eficazes quando aí desempenham um papel mais indirecto tornando possível que seja o sector privado a determinar o seu próprio crescimento.

 

 (Continua)


[1] Para uma descrição da metodologia da análise de McKinsey’s para compreender os mecanismos subjacentes á evolução da competitividade de diferentes fornecedores, ver Carter F. Bales et al., “The microeconomics of industry supply,” McKinsey Quarterly, Junho 2000.

[2] Veja-se Unlocking economic growth in Russia: Oil sector , McKinsey Global Institute, Outubro de 1999 (www.mckinsey.com/mgi); e Productivity-led growth for Korea: Steel sector , McKinsey Global Institute, Março 1998 (www.mckinsey.com/mgi).

[3] Desde há muito tempo que os economistas reconheceram estes comportamentos, incluindo A. G. B. Fisher em The Clash of Progress and Security, London: MacMillan, 1935; C. Clark, The Conditions of Economic Progress, London: MacMillan, 1940, edição revista e reimpressa em 1951; Simon Kuznets, Modern Economic Growth: Rate, Structure and Spread, New Haven e Londres: Yale University Press, 1966; P. Kongsamut, S. Rebelo, and D. Xie, “Beyond balanced growth,” Review of Economic Studies, 2001, 68, 869–82; and V. R. Fuchs, The Service Economy, New York and London: Columbia University Press, 1968.

[4] Ver também Dani Rodrik, “Industrial development: Some stylized facts and policy directions,” Em Industrial Development for the 21st Century: Sustainable Development Perspectives, Department of Economic and Social Affairs, United Nations, 2007 (http://www.un.org/esa/sustdev/publications/industrial_development/full_report.pdf); e também John Weiss, Export Growth and Industrial Policy: Lessons from the East Asian Miracle Experience, ADB Institute Discussion Paper No. 26, February 2005 (http://www.adbi.org/files/2005.02.dp26.eastasia.govt.policy.pdf).

[5] A Coreia do Sul e a República da Irlanda são ambos exemplos de países que têm tido um fenomenal sucesso na sua indústria transformadora mas à custa da competitividade da produção de serviços locais. Isto pode ser a próxima fronteira para ambos. Para mais detalhes sobre a República da Irlanda ver Diana Farrell, Jana Remes, and Conor Kehoe, “Service sector productivity: The tiger’s next challenge,” capítulo 2 de Perspectives on Irish Productivity, Forfas, Março de 2007, disponível em : (http://www.forfas.ie/media/productivity_chapter2.pdf). Ver também Productivity-led growth for Korea, McKinsey Global Institute, March 1998 (www.mckinsey.com/mgi).

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