João Machado
Nasceu em Lisboa, em 1943. É licenciado pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas.
Iniciou a sua vida profissional dando aulas de Geografia. Amitido no Ministério da Obras Públicas e, em 1970, começou a trabalhar no Serviço de Promoção Social do Ministério da Saúde e Assistência Social da altura.Em 1972 esteve quatro meses num estágio profissional nos Estados Unidos, principalmente no Estado do Minnesota. Em 1975, foi colocado, a seu pedido, no serviço de Acção Directa da Amadora, levando-o, a contactar a dramática realidade dos bairros degradados. Nos últimos anos de actividade, exerceu funções de inspecção. Toda a sua carreira profissional decorreu, até à aposentação em 2008, na Função Pública. Para além da sua actividade profissional como sociólogo, manteve alguma actividade literária colaborando em enciclopédias, escrevendo verbetes ou traduzindo-os Desenvolveu também vários trabalhos para o então chamado Centro de Reflexão Cristã, sob a orientação da Professora Manuela Silva. Militante do Bloco de Esquerda, integra a Assembleia Municipal da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira. É um dos coordenadores deste blogue. O seu depoimento diz assim:
A Democracia é um regime exigente. Para que funcione melhor, é necessário que a generalidade das pessoas participe activamente, não só nos vários aspectos propriamente políticos (no sentido estrito da política, que são os aspectos ligados directamente à tomada e à manutenção do poder), como também nos diferentes sectores da vida em que todos estamos presentes. Sem esta participação activa, a democracia torna-se apenas num esqueleto manipulado por indivíduos seleccionados pela oligarquia (um conjunto de privilegiados em lugares dominantes na sociedade, que tecem laços entre si, para defesa das suas posições), e rapidamente degenera numa autocracia. Estamos hoje em dia a passar por uma fase com algumas semelhanças com esta situação. A crise financeira que rebentou em 2008 abriu-lhe o caminho.
A participação requer tempo e esforço dos cidadãos. E coragem, pois existem forças contraditórias na sociedade. Há grandes conflitos de interesses. Resolvê-los requer trabalho e coragem. E acreditar nas virtudes da democracia. Saber e acreditar que a democracia é o melhor dos regimes. Que com ele as pessoas vivem melhor.
Georges Burdeau (1905 – 1988), cientista político e professor de direito, em A Democracia (1964. Tradução de Paulo António dos Anjos. Europa-América. 1969) diz assim, logo no início: A sua definição mais simples, e igualmente a mais válida, o governo do povo pelo povo, só adquire o seu pleno sentido se se considerar que exclui o poder de uma autoridade que de modo algum procederia do povo. Estamos a citar um liberal, um liberal clássico, que defendia a liberdade, por entre os escolhos do poder económico e poder religioso, e que define a democracia como implicando um poder que emana do povo. Os neo-liberais, hoje no poder em Portugal, impõem o primado do poder económico, que equivale à liberdade dos mais ricos explorarem os restantes. E com o poder religioso à espreita.
Após o 25 de Abril, com o fim da guerra e a saída do clube colonial, Portugal pôde ter um governo mais próximo do povo, olhar mais para si e introduzir reformas que mitigaram uma parte das enormes desigualdades existentes. Com vários episódios pelo meio, de diversa natureza (11 de Março, o chamado Verão quente, 25 de Novembro, governo AD, adesão à CEE), os portugueses conseguiram ver melhorada a sua vida, e conseguiram ser um pouco mais iguais. Mas realmente só um pouco. Hoje impera um discurso que nos quer impor a ideia de que temos vivido acima dos meios, da maneira o mais prosaica que possível. Embora um exame mais atento da realidade leve a fundadas dúvidas sobre a veracidade dessa ideia, parece que está a fazer caminho e a impor-se a muita gente. Está a servir de capa ao recrudescimento das desigualdades. Será que estamos perante uma fatalidade histórica? Eduardo Lourenço escreveu assim, falando da nossa história passada, nomeadamente após o período filipino: Cada período de forçado dinamismo tem sido seguido sempre do que, em linguagem freudiana, se chamaria o regresso do recalcado. (Ver O Labirinto da Saudade – Psicanálise Mítica do Destino Português. Dom Quixote. 1978.) Será que estamos perante uma nova edição desse ciclo? E após um ciclo (relativamente) democrático, que continua a fatalidade passada?
Em Portugal a luta pela sobrevivência trava-se, desde há séculos, recorrendo muitas vezes à emigração. Embora os portugueses tenham sentimento pátrio, têm dificuldade em incluir nesse sentimento a nação como lugar a que corresponde um estado, um estado do qual somos todos proprietários e pelo qual somos todos responsáveis. Essa dificuldade é criada, sem dúvida, pela consciência das grandes diferenças entre os portugueses, que os poderes económico e religioso perpetuam. Essas diferenças são consideradas imutáveis por uma grande maioria. Não é fatalismo enunciar este facto concreto. Nem qualquer forma de nacionalismo retrógrado. É o primeiro passo para se conseguir mudá-lo.
Para defender e fazer avançar a democracia em Portugal é necessário conhecer cada vez melhor o nosso país e analisar a sua história. Para mostrar aos portugueses que têm de disputar a condução e a propriedade do seu país aos poderes tradicionais. A entrada na Europa (para usar um expressão estereotipada) agravou ainda mais este problema. A má condução da adesão, feita pelos poderes tradicionais, e que colocou Portugal numa situação de dependência em relação a nações também elas em situação de retrocesso político, social e ideológico (no sentido mais lato) agravou os já graves desequilíbrios anteriores. Por cima disto, a ofensiva neo-liberal colocou-nos perante um processo gravíssimo, que terá de ser detido. É este o grande desafio actualmente, para quem reconhece a democracia como a única forma aceitável de governo.
