Hoje é o Dia Internacional de Recordação do Holocausto. Não somos adeptos destes «dias internacionais» – o Holocausto deve ser recordado todos os dias como um dos mais hediondos crimes da história da humanidade. Hoje é também o Dia Internacional da Lepra. Mas em 27 de Janeiro de outros anos aconteceram coisas notáveis e que merecem ser celebradas: em 1756 nasceu Wolfgang Amadeus Mozart, em 1757 veio ao mundo Gomes Freire de Andrade, em 1775, chegou Friedrich Schelling e em 1832, Lewis Carroll. Estas efemérides e, muitas outras, são recordadas aqui, porque o nosso futuro também se constrói com respeito pelo passado. Mas nem todos pensam assim.
Segundo ontem anunciou Álvaro Santos Pereira, ministro da Economia e do Emprego, após uma reunião de Conselho de Ministros, o Governo vai propor aos parceiros sociais a extinção dos feriados do 5 de Outubro e 1 de Dezembro, bem como a eliminação do mesmo número de feriados religiosos. Sobre o respeito devido à República e à recuperação independência, sem o que estaríamos equiparados a Castilla La Mancha e integrados no reino dos Bourbons, nem é preciso argumentar. São feriados que têm a ver com a nossa identidade nacional. Em contrapartida, os feriados religiosos não fazem qualquer sentido num Estado laico – ainda que a laicidade do Estado não seja objecto de algum artigo da Lei Fundamental. Mas é frisada a separação entre a Igreja e o Estado. Portanto, não é a mesma coisa deixar de comemorar o dia da Nossa Senhora da Conceição e os dias da Proclamação da República ou o da Restauração da Independência.
Descendente em linha recta da União Nacional, o PSD conserva traços de uma prepotência que até neste simulacro de democracia se torna chocante. Substituir em Lisboa a designação de Praça do Areeiro e no Porto o do Aeroporto de Pedras Rubras, pelo nome de um político que não justifica o estatuto de figura nacional, constitui uma falta de respeito pelos cidadão. O PS, quando ocupa o poder, não rectifica estas prepotências. Mexer em toponímias e em comemorações nacionais e patrióticas não devia poder ser decidido por um partido – se pode, porque não usa o PS dessa prerrogativa? No Porto, ao sabor das mudanças de governo uma das principais artérias da Baixa, a Rua Nova de Santo António, foi, quando da proclamação da República crismada e passou a ser a Rua 31 de Janeiro. Com o advento do Estado Novo, voltou a ser de Santo António. Após o 25 de Abril, mudança para 31 de Janeiro… Fingindo-se confundidos, os portuenses chama-lhe por graça a Rua 31 de Santo António.
Mário Soares afirmou ontem em Coimbra, que não faz “sentido nenhum” o Governo acabar com os feriados do 5 de Outubro e 1.º de Dezembro. “Como socialista, laico e republicano dos sete costados, custa-me um bocado a engolir”, sublinhou Mário Soares. Mas parece que vai engolir. Se há coisa de que o PS não possa ser acusado é de ser coerente com os seus princípios. Groucho Marx dizia – «estes são os meus princípios, mas se os senhores não concordam com eles, posso mudá-los». Bom lema para colocar sob o punho fechado.
Ou é uma rosa?

