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LIÇÕES DE ETNOPSICOLOGIA DA INFÂNCIA – 46 -, por Raúl Iturra

 

(Continuação)

 

Este texto não precisa de comentários, excepto dizer que é retirado da realidade social, que segue as águas do moinho da procura da liberdade do homem. Mas, como já comentei, essa liberdade é a subordinação à lei que nos governa e define cada passo que damos na nossa vida e dá nomes às pessoas conforme o seu comportamento. A capacidade de raciocinar, de pensar e decidir, é o que traz a liberdade ao ser humano. O problema é que liberdade… O texto, como todos os outros denominados sagrados que referi, remete a actividade humana para uma metáfora que não vive entre nós, que radica na mente do ser humano e que dita leis por meio de pessoas como Moisés, Elias, Jesus, hierarquias pontifícias, formas de acreditar e que, no fim dos finais, é parte da cultura ou formas de comportamento adequadas às conveniências da nossa individualidade. O que é adequado à nossa pessoa, é viver sem pecado, quer dizer, sermos capazes de fixar um último bem, uma auto-estima que, em metáfora, está definida como a procura de Deus, muito embora a divindade não esteja definida em parte nenhuma. É aí que Freud e os seus seguidores foram capazes de ver as dificuldades da vida, para além da metáfora e entrar dentro de cronologias e contextos genealógicos, orientados por uma libido erótica que leva à reprodução. Ideia que o texto que comento não refere, antes pelo contrário, retira da materialidade da vida o que a ilusão de sermos pais tinha colocado: factos históricos, com provas complementares para demonstrar a sua verdade.

 Este texto define já a criança como uma entidade que, como diz o artigo 1739, página 387, livremente soube rejeitar o amor, ou seja, pecou. O pecado, conceito que defini noutro texto, é a forma de organizar as relações entre os seres humanos: nenhum ser humano publicamente rejeita a empatia simpática a outro. No entanto, a metáfora do texto começa por dizer que nascemos todos já na situação de estarmos preparados para não amar, para rejeitar o outro ou procurar no outro o que convém à minha felicidade. É a definição que dou de pecado original no fim do Capítulo II:

 

 1691 O pecado está presente na história do homem: seria inútil tentar ignorá-lo ou dar a esta realidade obscura outros nomes. Para tentarmos compreender o que é o pecado, é preciso antes de tudo reconhecer a ligação profunda do homem com Deus, pois fora desta relação o mal do pecado não é desmascarado em sua verdadeira identidade de recusa e de oposição a Deus, embora continue a pesar sobre a vida do homem e sobre a história.

(Parágrafos relacionados: 1848,1739)

1692 387 A realidade do pecado, e mais particularmente a do pecado das origens, só se entende à luz da Revelação divina. Sem o conhecimento de Deus que ela nos dá não se pode reconhecer com clareza o pecado, e somos tentados a explicá-lo unicamente como uma falta de crescimento, como uma fraqueza psicológica, um erro a consequência necessária de uma estrutura social inadequada etc. Somente à luz do desígnio de Deus sobre o homem compreende-se que o pecado é um abuso da liberdade que Deus dá às pessoas criadas para que possam amá-lo e amar-se mutuamente.

 

(Parágrafo relacionado: 1847)


O PECADO ORIGINAL UMA VERDADE ESSENCIAL DA FÉ

 

 

 

1693 388 Com o progresso da Revelação, é esclarecida também a realidade do pecado. Embora o Povo de Deus do Antigo Testamento tenha conhecido a dor da condição humana à luz da história da queda narrada no Génesis, não era capaz de entender o significado último desta história, que só se manifesta plenamente à luz da Morte e Ressurreição de Jesus Cristo [a5]. É preciso conhecer a Cristo como fonte da graça para conhecer Adão como fonte do pecado. É ó Espírito – Paráclito, enviado por Cristo ressuscitado que veio estabelecer “a culpabilidade do mundo a respeito do pecado” (Job 16,8), ao revelar Aquele que é o Redentor do mundo.

 

(Continua)

 

 

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