(Continuação)
De uma ou outra maneira, entre um ou outro processo, todos vivemos atados a uma mesma estrutura. Este processo, designo-o de hierarquia parental, esse que faz de nós ascendentes e descendentes, onde, normalmente, os adultos têm a autoridade, as crianças a obediência. Tem-me sido muito simples dizer, na maior parte do meu discurso, que o mundo está dividido em dois grupos, o do adulto e o das crianças. Tudo isso é verdade, tudo acontece, há os que têm uma epistemologia desenvolvida nas opções da mais-valia, há os que têm a epistemologia desenvolvida nos investimentos emotivos de quem confia, porque toma conta, alimenta, agasalha, faz carícias, ouve, cala e responde apenas se é perguntado.
Sim, estamos divididos em duas culturas que procuram formas diferentes de encantar o real e ser feliz dentro da dor de viver. Essa dor que Bion tão claramente define na sua obra, essa dor ao invés da felicidade que segundo Freud o nosso inconsciente procura num Id esquecido pela consciência do dia de hoje, do dia de ontem, da fadiga do trabalho, do desejo insatisfeito, da alegria que não encontramos. Um dia sonhamos em sermos pais, passado um curto espaço de tempo, quando ainda fica muito de nós para viver dentro de um corpo que vai ficando pequeno, como Úrsula Iguarán de García Márquez em Cem Anos de Solidão, até ao ponto dos tetranetos a tratarem como se fosse um anjo de brinquedo a servir os seus ideais e imaginários.
Esse nosso corpo que pensa, mas que a matéria faz tolhido e dentro dessa tolha, a criançada que me importa, vai, enquanto desenvolve a sua epistemologia da afectividade e a subordinação que ajuda à aprendizagem e à reprodução de outros e do saber – continuidade da História como desde Flávio Josefo[4] temos ficado a saber, ou Heródoto de Halicarnasso – à epistemologia da opção do lucro e, por lei da vida encontra uma outra alternativa para a sua reprodução, nós, os adultos que fomos pais, passamos a adultos que perturbamos a nova filiação e devemo-nos desabituar do facto e da ideia de sermos pais. Passarmos do amor paterno, ao abandono celibatário, porque nem para seduzir somos capazes de existir, menos ainda para termos companhia, porque a História passa dentro de contextos diferenciados, com conceitos e comportamentos concebidos pelos que foram crianças para fazer do tolhido, um adulto que entende, aceita, cala e não repreende, definição que dou dessa idade do ser humano.
Os habitantes da Melanésia têm a sua casa para celibatários[5] como acontece com os chineses e as suas casas para morrer, os lares da terceira idade entre nós, como os Picunche têm os grupos do Centro de Tecido, o Tear, para entreter os que já não vendem produtos agrícolas por lhes faltar força para transformar a terra em mercadoria, proibido para o consumo da casa ou valor de uso e transferidos com prazer aos conchenchos (intermediário em Mapudungun)[6] pelo dinheiro de mais valia que dá o mercado. É o dia que a criança passa de pequeno que aprende, a adulto que grita, zanga-se, repreende, pede para ficar isolado para não ter que ver de quem aprendeu, uma solidão desprezível e desagradável….excepto se é o proprietário, o monarca ou o Cardeal Patriarca de Veneza, Constantinopla ou Lisboa. A criança, agora adulto, manda. Não ouve, nem vê, nem cala e responde ainda que não perguntado. O adulto, se cresce à Bion, desenvolve as suas capacidades para procurar seu finito no infinito do prazer freudiano da verdade Bioniana, acaba por aceitar o sofrimento que permite a aprendizagem da verdade da vida,[7] que é o fazer.
Adultos pecadores, reprodutores de pequenos pecadores. Todo o ser humano procura a sua liberdade e responsabilidade. É assim que o diz o texto que define o nosso comportamento, e que começa por uma imensa verdade: “A dignidade da pessoa humana se fundamenta em sua criação à imagem e semelhança de Deus (artigo 1); realiza-se em sua vocação à bem-aventurança divina (artigo 2). Cabe ao ser humano a livre iniciativa de sua realização (artigo 3). Por seus actos deliberados (artigo 4), a pessoa humana se conforma ou não ao bem prometido por Deus e atestado por sua consciência moral (artigo 5). As pessoas humanas se edificam e crescem interiormente: fazem de toda sua vida sensível e espiritual matéria de crescimento (artigo 6). Com a ajuda da graça, crescem na virtude (artigo 7), evitam o pecado e, se o tiverem cometido, voltam como o filho pródigo (a 35), para a misericórdia de nosso Pai do Céu (artigo 8). Chegam, assim, à perfeição da caridade.
Esta frase é uma verdade para os que lêem o texto, aprendem-no, praticam-no e sentem a emotividade da fé como um sentimento de caridade, como a base da relação com outros seres humanos ou da interacção social, como gosto de dizer. Aliás, é a introdução para uma outra verdade de vida em grupo: a liberdade do homem: “Deus [§80]criou o homem dotado de razão e lhe conferiu dignidade de uma pessoa agraciada com a iniciativa e o domínio de seus actos. “Deus deixou o homem nas mãos de sua própria decisão” (Eclo 15,14), para que pudesse ele mesmo procurar seu Criador e, aderindo livremente a Ele, chegar à plena e feliz perfeição[a81].
O homem é dotado de razão e por isso é semelhante a Deus: foi criado livre e senhor de seus actos [a82].
I. Liberdade e responsabilidade
1691 1731 A [§83] liberdade é o poder, baseado na razão e na vontade, de agir ou não agir, de fazer isto ou aquilo, portanto, de praticar actos deliberados. Pelo livre – arbítrio, cada qual dispõe sobre si mesmo. A liberdade é, no homem, uma força de crescimento e amadurecimento na verdade e na bondade. A liberdade alcança sua perfeição quando está ordenada para Deus, nossa bem-aventurança.
1692 1732 Enquanto [§84] não se tiver fixado definitivamente em seu bem último, que é Deus, a liberdade comporta a possibilidade de escolher entre o bem e o mal, portanto, de crescer em perfeição ou de definhar e pecar. Ela caracteriza os actos propriamente humanos. Toma-se fonte de louvor ou repreensão, de mérito ou demérito.
1693 1733 Quanto [§85] mais pratica o bem, mais a pessoa se toma livre. Não há verdadeira liberdade a não ser a serviço do bem e da justiça. A escolha da desobediência e do mal é um abuso de liberdade e conduz à “escravidão do pecado [a86]“.
1694 1734 A [§87] liberdade torna o homem responsável por seus actos, na medida em que forem voluntários. O progresso na virtude, o conhecimento do bem e a ascese aumentam o domínio da vontade sobre seus actos.
1695 1735 A [§88] imputabilidade e a responsabilidade de uma acção podem ficar diminuídas ou suprimidas pela ignorância, inadvertência, violência, medo, hábitos, afeições imoderadas e outros factores psíquicos ou sociais.
1696 1736 Todo [§89]acto directamente querido é imputável a seu autor:
Assim, o Senhor pergunta a Adão, após o pecado no jardim: “O que fizeste?” (Gn 3,13). O mesmo pergunta a Caim [a90]. A mesma pergunta faz o profeta Natã ao rei David, após o adultério com a mulher de Urias e o assassinato deste [a91].
Uma acção pode ser indirectamente voluntária quando resulta de uma negligência quanto a alguma coisa que deveríamos saber ou fazer, por exemplo, um acidente ocorrido por ignorância do código de trânsito.
1697 1737 Um [§92] efeito pode ser tolerado sem ser querido pelo agente, por exemplo, o esgotamento da mãe à cabeceira de seu filho doente. O efeito ruim não é imputável se não foi querido nem como fim nem como meio de acção, como poderia ser o caso de morte sofrida por alguém quando tentava socorrer uma pessoaem perigo. Para que o efeito ruim seja imputável, é preciso que seja previsível e que o agente tenha a possibilidade de evitá-lo, como, por exemplo, no caso de um homicídio cometido por motorista embriagado.
1738 A [§93] liberdade se exerce no relacionamento entre os seres humanos. Toda pessoa humana, criada à imagem de Deus, tem o direito natural de ser reconhecida como ser livre e responsável. Todos devem a cada um esta obrigação de respeito. O direito ao exercício da liberdade é uma exigência inseparável da dignidade da pessoa humana, sobretudo em matéria moral e religiosa [a94]. Este direito deve ser reconhecido civilmente e protegido nos limites do bem comum e da ordem pública [a95].[8]
[4] FlavioJosefo: Jerusalén, 37 d JC-?, c. 100) Historiador judío. Fez parte do partido dos judeus, de forma especial. Quando explode o conflito com Roma, em 66 d.C., Josefo aceita, talvez por ambição, quem sabe por vaidade, o comando da Galileia. Traiu Roma para defender o seu povo a sua maneira. Desenvolveu as suas capacidades de sofrimento e criou uma História que até hoje nos domina. Website com texto: http://www.airtonjo.com/flavio_josefo02.htm ou website para debate:
[5] Malinowski, obra citada, volume 1, páginas 58 e seguintes. Ver nota 210.
[6] Iturra, Raúl, 1972, “El Paro de los conchenchos” Revista do Centro de Estúdios Agrários e Campesinos: CEAC, Pontifícia Universidad Católica do Chile, Santiago, sede de Talca. Conchencho, palavra Mapudungun que em castelhano significa intermediário que aumenta os preços sem mando.
[7] Heródoto 484-425 a C: o mais importante dos historiadores gregos mais antigos. Website
http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=Her%C3%B3doto&btnG=Pesquisar&meta=
[8] Mesmo texto, mesmo autor, páginas386 a 387.
