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CARTA DE VENEZA – por Sílvio Castro

 

“Cientista e escritor português recebe prêmio em Veneza”

 

 

O neuro-biólogo e escritor Antonio Damásio, de grande fama internacional pelos seus estudos sobre a fisiologia das emoções e sobre a doença de Alzheimer, nascido em Lisboa e atualmente residente em Los Angeles, onde ensina na Universidade da California do Sul, ao mesmo tempo que dirige o Brain and Creativity Institute, recebeu o prêmio internacional “Bauer Ca’ Foscari-2012”no ato de inauguração do Congresso Internacional Incroci di Civiltà (Ponto de encontro de Civilizações) – Encontros internacionais de literatura em Veneza, sessão inaugural que teve como sede a belíssima Scuola Grande de San Rocco, morada estável das principais obras-primas de Tintoretto.

 

O Encontro veneziano – que vai de18 a21 de abril deste 2012 – congrega na oportunidade 24 autores originários de 17 países diversos. Estes escritores são: Antonio Damásio, Ghada Abdel Aal, Ariane Ascaride, Roberto Calasso, Andrea Cavazzuti, William Emmerik, Per Olov Enquist, Alícia Giménes-Bartlett, Robert Guédiguian, Howard Jacobson, Alain Mabanckou, Hisham Matar, Maaza Mengiste, Giselle Meyer, Malika Mokeddem, Andrea Molesini, Cees Nooteboom, Steven Sem-Sanderberg, Alawiya Sobh, Vladimir Sorokin, Santino Alexian Spinelli, Juan Villoro, Xu Xing.

 

Ao inaugurar o Congresso e receber das mãos do Reitor da Universidade veneziana o Prêmio do Grupo Bauer e de Ca’ Foscari (esta é a segunda maneira usada para dizer a Universidade de Veneza), Antonio Damásio pronunciou uma conferência sobre o fenônemo da tomada de consciência do próprio ser e a mente. Para o famoso neuro-fisiólogo português, a mente é o centro revelador de toda a consciência do homem. Através da ação do cérebro, a mente registra e “corporifica” toda e qualquer forma de emoção: “Toda nossa ação é modelada pelo cérebro. A sua fusão com o corpo é constante”. A mente, então, cria muitos “mapas” que nos permitem de conscientizar a nossa complexidade emotiva. Assim, o cientista português considera a biologia como a ciência humana maior: “Os sistemas morais e religiosos, as leis e as artes não são outra coisa senão projeções da biologia”.

 

O cientista Antonio Damásio que se manifesta igualmente como um escritor de grandes recursos expressivos e criatividade de escritura nos recorda uma das linhas tradicionais das culturas portuguesa e brasileira que sempre tiveram presentes em seus quadros  exemplos de cientistas igualmente magnífcos literatos. A cultura literária de Damásio se mostra ampla e universal. Partindo de grandes exemplos da literatura portuguesa,em particular FernandoPessoa, ele se avizinha às mensagens de muitas outras expressões nacionais. Aquela estadunidense é uma das sua prediletas, e nela a figura muito particular do romancista Francis Scott Fitzgerald.

                  

Para a criação das sínteses de seu pensamento científico, António Damásio naturalmente aproxima a ciência à filosofia. Nessa, depois do ponto de partida dialético com o pensamento doutrinário de Descartes, o cientista português demonstra particular atenção pelas doutrinas de Spinoza. Com um tão amplo espaço de pensamento, ele vem construindo uma obra que se projeta em muitas partes do mundo. Na Itália, dele já foram publicadas edições dos seguintes seus estudos, todos aoresentados pela editora milanesa Adelphi: L’errore di Cartesio, 1995; Emozione e coscienza, 2000; Alla ricerca di Spinoza, 2005; Il sé viene alla mente, 2012. Esta última edição, de cujo título também se serviu a conferência que permitiu ao númeroso público que lotava o belíssimo salão da Scola Grande de San Rocco o conhecimento pessoal do cientista e escritor português, foi lançado justamente na oportunidade do Encontro de Veneza. Damásio principia este seu estudo com citações de Pessoa, nas quais o Poeta define a alma como uma “misteriosa orquestra”, e a consciência, “como uma sinfonia”.

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