CARTA DE VENEZA – VENEZA NA ENCRUZILHADA DE CULTURAS E LITERATURAS – por Vanessa Castagna

carta de veneza

 

De uns anos para cá o começo da primavera é animado pelo Festival Internacional de literatura, um projeto promovido pela Universidade Ca’ Foscari e o Município de Veneza. O nome, Incroci di Civiltà, remete para o relevante papel de Veneza enquanto “encruzilhada de culturas, pessoas, línguas e tradições” durante toda a sua história plurissecular.

O Festival estreou-se em 2008 e acaba de celebrar a sua nona edição (de 30 de março a 2 de abril), confirmando-se como oportunidade privilegiada de encontro e diálogo entre escritores e leitores à volta de temas prementes da nossa atualidade, possibilitando também a descoberta de autores de literaturas menos conhecidas.

Os países representados nesta edição foram África do Sul, Alemanha, Austrália, Áustria, Azerbaijão, Bósnia, Canadá, China, Coreia, Estónia, EUA, Finlândia, França, Grã-Bretanha, Holanda, Iraque, Israel, Itália, Líbano, Lituânia, México, Nigéria, Palestina, Polónia, República Checa, Roménia, Síria, Vietname. Sem prejuízo dos demais escritores, refere-se por exemplo a participação de Paco Ignacio Taibo II e de Khaled Khalifa.

Em edições anteriores, já se contou com a presença de autores de língua portuguesa, nomeadamente Gonçalo M. Tavares e Tatiana Salem Levy, para além do caso excecional de António Damásio, entrevistado em inglês pela sua filiação profissional. No panorama internacional, destacaram-se também os nomes de Yves Bonnefoy, Salman Rushdie, Orhan Pamuk, Javier Marías, Antonia Byatt, Amélie Nothomb, ente outros.

Nesta edição o nome mais comentado terá sido o do escritor azeri Akram Aylisli (78 anos), autor de um marcante romance sobre a delicada situação dos arménios intitulado Daş yuxular (Sonhos de pedra), que, desde 2012, lhe tem valido ameaças e perseguições. Akram Aylisli foi detido pela polícia no aeroporto de Baku antes de embarcar para Veneza, com um pretexto execrável que o vê acusado de vandalismo.

A imprensa internacional não deixou de dar destaque ao sucedido e os outros escritores convidados de Incroci di Civiltà não deixaram de assinar e enviar uma mensagem de solidariedade. Por vivermos em países onde a literatura sofreu uma decadente mercantilização, um dos méritos do Festival veneziano é o de valorar literaturas e contextos culturais em que ser-se escritor ainda tem um valor cívico e político que nos pode alertar a todos, onde a escrita literária ainda faz todo o sentido.

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