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Diário de bordo de 24 de Abril de 2012

 

 

Estamos a comemorar o 25 de Abril.  Conforme já dissemos ontem, comemoramo-lo numa perspectiva de luta e não com o sentimento nostálgico de quem olha o amarelecido retrato de alguém que perdemos.

 

Nós, povo (eleitores, na perspectiva dos políticos), devemos assumir as nossas culpas – culpá-los sempre «a eles», não nos ajuda. Essa entidade obscura – «eles» – que vai dos dirigentes dos partidos do Poder aos rostos conhecidos do grande capital, passando pelo Governo, Presidente e AR, constitui uma espécie de Manitu maligno que nos isenta de todas as culpas, Nós queremos que tudo vá pelo melhor, mas «eles» não deixam.

 

Ora, acontece que «eles» têm objectivos diferentes dos nossos. Eles cumprem os seus objectivos – nós não. Deixamos que nos manipulem, votamos em quem querem que votemos, compramos o que nos dizem para comprar… O único poder que temos, o de votar, usamo-lo sempre contra nós. Somos nós que enchemos o Parlamento de gente inútil e que faz tudo menos cumprir o mandato que lhes conferimos; somos nós quem elege o Presidente da República. Peguemos nesse exemplo.

 

Seria difícil, na classe política portuguesa, cuja qualidade média é baixíssima, encontrar alguém menos capacitado para o cargo. Alguém que, pelo seu percurso político, fosse menos indicado para exercer a mais alta magistratura da Nação. O seu currículo político é bem conhecido – desde que em 1980 ocupou o cargo de Ministro das Finanças e do Plano, no Governo da AD (PSD, CDS e PPM), sendo Sá-Carneiro o primeiro-ministro, Cavaco Silva nunca mais deixou de ocupar cargos de governação, nomeadamente como primeiro-ministro (desde 1985 a 1995) e de presidente da República desde  2006. 32 anos! Está bem lançado para ultrapassar o recorde de Salazar…

 

Tudo o que se tem passado de negativo teve o seu aval ou, no mínimo, a sua responsabilidade – desde os milhões de euros de fundos comunitários desperdiçados em falsas acções de formação (e que foram parar a contas pessoais de barões do PSD e do PS) à destruição do aparelho produtivo do País, aceitando imposições que outros países da EU não aceitaram, passando pela gestão que fez das relações entre PSD e PS, pondo os dois partidos ao serviço dos interesses dos grupos financeiros dominantes.

 

Cavaco Silva, um poço de ignorância, mas um homem inteligente. Inteligência que está ao serviço daquilo que ele considera ser os superiores interesses da Nação. Interesses que nada têm a ver com os nossos. Não tem condições para ser presidente da República. O eleitorado português parece pensar o contrário. O eleitorado português parece não pensar. O único poder que temos, o de votar, usamo-lo contra nós. Bem sabemos que se o usássemos a nosso favor, «eles» mudavam as regras do jogo. Até agora, não precisaram de o fazer.

 

Comemoramos um 25 de Abril em que as regras criadas por um ex-seminarista manhoso foram postas de parte. Recusamos o 25 de Abril que abriu portas á corrupção e à mediocridade. Os cravos que vemos nas lapelas, não festejam todos o mesmo 25 de Abril.

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