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DIÁRIO DE BORDO, 26 de Abril de 2012

 

 

Morreu anteontem Miguel Portas. Quem o conhecia, sabia que era um político apaixonado, mas sabia também que as suas características pessoais eram o oposto das que normalmente se atribuem aos políticos: esperteza, egoísmo, frivolidade, memória curta no que respeita ao cumprimento de promessas, falta de carácter, desprezo pela cultura, comprazimento na tacanhez e na sabujice. As homenagens que lhe estão a prestar, vindas dos quadrantes mais diversos, demonstram bem o respeito que a maioria das pessoas lhe tinha. Respeito que a sua enorme honestidade e, se possível, ainda maior generosidade granjearam nos locais, nas horas e junto das pessoas mais diversas. Quem o conheceu, acompanhou a sua carreira, e vislumbrou, mesmo ao de leve, a grande quantidade de interesses que o Miguel prosseguia, sabia que entroncavam num grande objectivo, a defesa e o aprofundamento da liberdade e da democracia, e, concomitantemente, a promoção dos direitos dos oprimidos e dos desfavorecidos. Se ele tivesse querido seguir um caminho na vida mais cómodo, podia tê-lo feito com toda a facilidade. Não quis.


Fazer comparações com outros políticos, não é um exercício fácil, muito menos simpático. O respeito que se deve a todas as pessoas em geral recomenda contenção nesse exercício. Mas às vezes faz falta, pelo menos, comparar certas ideias ou opiniões. Nomeadamente quando são apresentadas a público.


Ontem, na Assembleia da República, na cerimónia de comemoração do 25 de Abril, o Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, referiu a necessidade dos portugueses darem no exterior uma boa opinião de si próprios. Dizendo que se escrevem lá fora coisas sobre o nosso país que não correspondem à realidade, afirmou que essa percepção negativa tem quem a veicule cá dentro. Afirmou ainda que todos os portugueses têm de contribuir para combater essa percepção negativa, para mostrar ao mundo qual é a verdadeira imagem de Portugal, e atrair o turismo e o investimento estrangeiro. Teceu também elogios ao recente acordo atingido na concertação social, que declarou ser essencial para a imagem no exterior, para mostrar haver coesão nacional. Pelo meio enumerou uma série de realizações alcançadas pelos portugueses nos vários sectores da ciência, da técnica e das artes (nas quais, curiosamente, não incluiu o Nobel de Saramago), dizendo ser necessário dá-las a conhecer lá fora, para além da tal imagem de coesão. Também procurou dar uma imagem positiva da adesão à União Europeia (então CEE). Até referiu como positivo haver um tratado europeu intitulado Tratado de Lisboa.


Evidentemente que o discurso de Cavaco Silva tem como objectivo apoiar o governo, calar a oposição e convencer os portugueses a não protestar contra as duras medidas que lhes estão a impor. Andam por aí uns estrangeiros a dizer mal de nós, e têm uns instigadores cá dentro, é a mensagem que quer fazer passar. Nós até somos bons, dobramos o Bojador, e vamos pagar o défice, mesmo que este seja mais fantasioso e difícil de encarar que o Adamastor. O que é preciso é portarmo-nos bem e fazer o que nos mandam.


Miguel Portas em Janeiro passado deu uma entrevista a António José Teixeira, que ontem foi passada novamente na SIC Notícias. Falaram de muitos assuntos, mas houve um aspecto que interessa referir, para confrontar com as ideias que Cavaco Silva nos quis fazer aceitar. Miguel Portas, a certa altura, referiu que uma das dificuldades que temos de enfrentar é a visão negativa que nos países do norte se tem dos países do sul. Lá dizem que enquanto eles trabalham, nós preguiçamos. Que se trata de uma autêntica ideologia, perfeitamente assimilada pelos governos daqueles países. Essa ideologia é invocada para justificar a severidade com que se trata o problema dos chamados défices. Não nos adianta mostrar que não tem qualquer fundamento concreto, que os trabalhadores portugueses são muito apreciados na França e na Alemanha (e em Portugal,  na Auto-Europa) e que a história portuguesa inclui muitos aspectos que mostram a capacidade de trabalho e de iniciativa dos portugueses.


Miguel Portas, generoso, altruísta, defensor de causas, europeísta não por oportunismo, mas por convicção, deixou-nos uma mensagem muito mais adequada que a de Cavaco Silva, político pragmático e primeiro-ministro quando Portugal aderiu à então CEE. Para nos endireitarmos é melhor não confiarmos nas elites europeias, que nos tratam de alto para baixo, e nos querem a pagar juros incomportáveis. É o que os move… Querem lá saber dos nossos feitos… Querem é o nosso dinheirinho. O Miguel, que era uma pessoa educada, não dizia bem assim, mas deixou bem claro o que Diário de Bordo se permite dizer desta maneira, para desabafar.


Até sempre, Miguel. Devia haver um Paraíso para os políticos como tu. Ele era ateu, nós também, mas compreenderão este desejo. 

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