A OPINIÃO DE DANIEL AARÃO REIS

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A Biografia de Luís Carlos Prestes, que o argonauta Daniel Aarão Reis lançou recentemente, conforme anunciámos, está está entre os cinco livros de não ficção escolhidos pelo O Glo. Com a devida vénia, transcrevemos a en trevista de  Josélia Aguiar para a revista Valor.

 

1-Fazer a biografia

– Minhas primeiras perguntas se referem à decisão de escrever este livro e todo o processo de pesquisa e escrita.  Como surgiu a idéia? Quanto tempo levou? Quais entrevistas/pesquisas foram mais difíceis? O que foi surpreendente?

O projeto nasceu de um convite da Lili Schwarcz, da Companhia das Letras. Uma sintética biografia do Prestes se integraria na coleção Perfis Biográficos, que reúne biografias em torno de 200-230 páginas. Acontece que o projeto cresceu e a Lili sempre me encorajou, de sorte que, afinal, o livro saiu da coleção e ganhou uma edição solo. Fiquei cerca de 5 anos e meio no batente, embora, claro, fazendo outras coisas, mas me dedicando quase obsessivamente ao Prestes. Pesquisei arquivos no Rio (Arquivo Público do Estado), Sampa (Arquivo Público do Estado e Arquivo da UNICAMP), Brasília (Arquivo Nacional), corri o Brasil para ver monumentos e museus do Prestes (Paraná, RGS, Tocantins, Ceará) e ainda pesquisei nos arquivos da Rússia (Moscou, arquivo da Internacional Comunista) e de Washington (National Archives). Além disso, fiz inúmeras entrevistas (relacionadas no livro) e consultei uma bibliografia imensa reportada a momentos importantes da vida do personagem. Deu trabalho, mas acho que valeu, pois penso ter conseguido elaborar uma visão equilibrada do homem, sem demonização e sem hagiografia, como era típico do havia sido publicado a respeito de Prestes. Não houve entrevistas difíceis, todos os que resolveram contribuir foram muito amáveis e proativos. Agora, infelizmente, houve gente que não contribuiu, como a Anita Prestes, uma lástima, mas deu para compensar, pois tudo o que ela pensa a respeito do Velho está plasmado em livros que escreveu e no site do Instituto Luiz Carlos Prestes que ela organiza.

Surpreenderam-me muitas coisas nesta pesquisa ( ai do pesquisador que não se deixa surpreender por suas fontes, não fará boa obra de história): as contradições enfrentadas pela Coluna (eu tinha do assunto uma imagem muito “épica”); a evolução zigzagueante do PC nos anos 1930; o amadorismo dos revolucionários na aventura de 1935; as batalhas surdas entre Prestes e os homens do aparelho partidário; as posições esquerdistas do Velho nos anos 1980, isolando-se na sociedade brasileira quase que deliberadamente; e, finalmente, mas não menos importante, as relações pessoais e familiares, tratadas com muito cuidado no livro, sem espírito sensacionalista, mas que revelam uma história folhetinesca, a merecer uma novela.

2-Prestes, o militar

– Reclama-se que há um protagonismo de Miguel Costa que foi ofuscado para beneficiar Prestes. No entanto, pelo seu relato, está claro que não há exagero em atribuir a Prestes papel central. Correto? Outra questão interessante é quanto ao “entalhamento militar” que permaneceria para sempre em Prestes, em sua conformação pessoal/política. De algum modo ele não deixaria nunca de ser um tenente?

Formou-se um consenso na memória e na historiografia, quase toda controlada pelos comunistas, ou pelos oficiais do Exército, a respeito do lugar central de Prestes na Coluna, obscurecendo-se o papel de Miguel Costa. No livro, propus uma reconsideração do assunto, intitulando a coluna Miguel Costa-Prestes. Aliás, diga-se a seu favor, que Prestes sempre insistiu nisto, sempre resgatou o papel da chefia de Miguel Costa. O problema é que Miguel Costa não era oficial do exército (era da força pública paulista, o equivalente à PM), nem se tornou comunista (aderiu, finalmente, ao PSB). Ficaria, assim, sem “padrinhos” e caiu na obscuridade. A biografia que escrevi resgata sua importância.

Minha pesquisa também questiona um certo exagero em se atribuir a rigidez de Prestes à sua formação militar. A meu ver, não procede esta avaliação. Ressalvada uma certa empolgação juvenil, Prestes desgostou-se muito cedo do Exército, de sua burocracia, de sua incapacidade, de sua monotonia. A rigidez do meu personagem tem outras duas origens: a formação familiar e a formação comunista dos anos 1920 e 1930.

3- Prestes, o político

– Diz-se de certa falta de visão, e mesmo ingenuidade de Prestes. A sua inabilidade e “vacilos” costumam ser lembrados e relembrados. A minha pergunta é na direção contrária. A despeito dos equívocos, o que tornou Prestes o líder que ele foi? Quais características o tornaram essa figura política/pública de tão grande peso na história do século 20 brasileiro?

É fácil fazer história retrospectiva e apontar erros dos outros. O drama da vida de Prestes, e de todos os revolucionários de sua época, é que lutaram por uma revolução social que não teve lugar. É duro ser revolucionário numa sociedade que não vive um processo revolucionário. A revolução é um processo social, não depende, ou depende muito pouco, das “orientações” das soi-disant “vanguardas”. Em não havendo processos revolucionários objetivos, é muito fácil fazer o inventário dos “erros” e das “insuficiências”, como se nas revoluções vitoriosas não houvessem “erros” ou “insuficiências”. Prestes pagou um tributo alto pelas opções que fez, quase sempre na contra-corrente e, como sabemos, não é fácil nadar na contra-corrente, é preciso largo peito, peito de remador, como dizia o Poeta.

A despeito dos equívocos, e das derrotas, Prestes teve momentos de grande prestígio: na época da Coluna, em fins dos anos 1920; quando libertado de uma longa prisão, em 1945, quando se elegeu senador pelo Rio de Janeiro; em fins dos anos 50 e na conjuntura crítica que precedeu o golpe de 1964. Certo, da derrota catastrófica de 1964, ele e o PCB não se recuperaram, mas isto aconteceu menos por uma consequência inevitável da derrota, e mais pelo fato de que ele e o PCB não souberam “ler” o processo histórico que passou a existir no Brasil depoisda instauração da ditadura. Depois, nos anos 1980, Prestes resolveu assumir uma perspectiva claramente revolucionária, em contraste com a dinâmica real da sociedade. Como disse, isolou-se. Mas conservou, ainda assim, o respeito e a consideração das gentes. Pelo seu passado, pela sua integridade.

4- Prestes, o homem

–  Parece-me uma figura idiossincrática, desde a virgindade tardia à adoção de filhos que não eram seus de sua segunda mulher. Pode-se dizer que Prestes era um sensível, um sentimental? Se sim, que dor ele carregava por ocasião da extradição e morte (tal como foi) de Olga?

Em virtude de uma rígida formação familiar e também em função das características dos comunistas dos anos 1920-1930, Prestes sempre separou muito rigorosamente a vida pessoal da vida pública. Sempre muito reservado e silente sobre aspectos, preferências e desgostos pessoais. Entretanto, sua correspondência pessoal dos anos de cadeia, publicadas por Anita e Lygia Prestes, depoimentos de companheiros e de familiares, evidenciam um homem de sentimentos. Por outro lado, sua vida pessoal, cheia de altos e baixos, têm ressonâncias folhetinescas, o que muito me surpreendeu, podendo resultar em grande novela.

5- Gostaria de ter seus comentários sobre os seguintes episódios.

Coluna – Dentre os que viveram a época (como Jorge Amado), o impacto da Coluna parece te sido extremo nos corações e mentes da juventude da época, essa mesma juventude que engrossará os quadros do partido. Foi um evento que, hoje, chamaríamos de midiático?

A Coluna foi um grande evento. Embora não tenha conseguido seus objetivos imediatos – suscitar revoltas urbanas que fossem capazes de derrubar o governo Bernardes – despertou imensa simpatia, sobretudo depois de sua derrota, o que é simbólico. Criou-se em torno dos revolucionários, e, em particular de Prestes, uma aura romântica, de grande apelo, sobretudo nas grandes cidades do país. É interessante observar, contudo, que no campo, onde operou, e onde vivia a imensa maioria da população brasileira, a Coluna não conseguiu, nem definiu isto como objetivo, em momento algum, provocar ou suscitar revoltas ou descontentamento diante da Ordem vigente. Quase todos os chefes e soldados da Coluna iriam, mais tarde, incorporar-se ao movimento de 1930 (mal chamado de “revolução” de 1930) e jogariam aí papel decisivo na derrubada da Ordem detestada pelos líderes da Coluna. Prestes foi, aí, como se sabe, uma exceção, pois se converteu o comunismo e passou a analisar criticamente os limites das lutas intra-oligárquicas e as transformações de caráter parcial.

Intentona Comunista –

Por que não era claro para ele a impossibilidade de fazer, àquela altura, um levante comunista bem-sucedido? A falta de visão se repetiria em outros momentos. Faltava conhecer mais o Brasil (os brasileiros)?

A expressão Intentona Comunista deve ser criticada. Foi uma expressão usada –e abusada – pela polícia política da época e conservada, ao longo do tempo, pelas direitas brasileiras. Intentona quer dizer conjuração traiçoeira. Ora, em 1935, houve no Brasil um movimento revolucionário. Derrotado. Fracassado, sem dúvida, mas que mobilizou muitas energias, muita coragem e decisão. O que motivou os comunistas a empreendê-la foi uma avaliação completamente equivocada do quadro social geral do país. Imaginava-se uma sociedade pronta para a revolução, “nos cascos”, disposta a travar grandes batalhas. Entretanto, tais referências só existiam nas imaginações dos revolucionários. Prestes compartilhou estas análises equivocadas, pois estava muito decidido a partir para a luta. Este tipo de avaliação – imaginar a sociedade como um barril de pólvora, o povo nos “cascos”, voltaria a prevalecer nos anos 1960, depois do golpe que instaurou a ditadura em 1964. Também aí muitos, mas não Prestes, imaginaram a situação “madura” para a luta armada. Pagaram com a vida seus equívocos.

Aproximação com Getúlio

– Em 1945, o partido garantiu a legalidade, mas por pouco tempo. A aliança com Getúlio não teria sido mais desfavorável que favorável?

É um equívoco imaginar que o Partido “trocou” a legalidade pela aliança com Getulio. Não há evidências que comprovem isto. O apoio a Getulio fundamentava-se numa perspectiva de ordem geral, de construir amplas frentes, em escala mundial, contra os resquícios do nazismo em todo o mundo. Tratava-se manter a frente anti-nazista, construída desde junho de 1941, quando começou a invasão da URSS pelo nazismo. Por outro lado, os comunistas não ignoravam a popularidade do ditador entre as camadas populares, cujas simpatias passaram imediatamente a disputar com os trabalhistas do PTB. Na aliança com Getulio, apesar de ter sido um ditador que massacrou oposicionistas e comunistas, em particular, o que se tinha em vista eram os getulistas (os trabalhadores) e não propriamente a figura pessoal de Getulio Vargas. Se esta aliança pudesse ter tido tempo histórico para se consolidar, seriam, talvez, lançados fundamentos para uma frente popular duradoura, o que, aliás, acabou acontecendo depois da morte de Vargas, em 1954.

Prestes sempre desprezou Vargas. Para além da política, tinha razões pessoais, bem conhecidas, para isto. Entretando, como disse na época, o Partido deveria reger-se por critérios políticos e não por inclinações pessoais, por mais que estas fossem fundamentadas.

Denúncias contra Stalin, 1956

– Houve resistência à divulgação e debate do ocorrido dentro do partido. Esse foi o maior erro de Prestes? Se não este, qual teria sido o maior erro?

Quando souberam das denúncias, e as confirmaram, os dirigentes comunistas, sem exceção, foram tomados de estupor. Prestes não foi exceção à regra. Houve gente grande chorando, vomitando, pensando em se suicidar. Stalin era um deus para aquela gente, é difícil, hoje, estimar o quanto era admirado, venerado e amado. O debate que se instaurou, então, levou a reboque a direção. Prestes assumiu aí um papel de árbitro. No centro. E saiu vitorioso, derrotando os críticos radicais do stalinismo e os stalinistas radicais. Teve o prestígio arranhado mas, entre os comunistas, conservou sua capacidade de liderança praticamente intacta.

Ostracismo/ Ditadura/Reabertura

–  O senhor trata do ostracismo de Prestes e, depois, de uma ainda que tímida recuperação de sua imagem. Por que a esquerda lidava tão mal com sua figura. Quanto ao seu legado, hoje, de que modo podemos vê-lo na história da esquerda brasileira, 25 anos após sua morte?

O fato é que Prestes, tendo sido o grande líder do PCB por tantos anos, concentrou nele as críticas ao Partido , num fenômeno conhecido, de “personalização da política”. Duas poderiam ser destacadas:

. numa ordem mais geral, as críticas à estrutura fechada, vertical, hierárquica, anti-democrática do PCB. Na época stalinista tais características eram muito fortes, típicas. Contudo, mesmo depois, permaneciam como heranças, incontornáveis

. numa ordem mais específica, a derrota catastrófica de 1964. Prestes e Jango, líderes do PCB e do PTB, viraram os bodes expiatórios da derrota. O fato de não terem conseguido lidar com ela, aprofundou seu desgaste e isolamento, uma espécie de marca – responsáveis pela derrota.

Embora haja aí um grão de verdade, o que prevalece é uma simplificação rasa de complexos fenômenos históricos. Infelizmente, porém, é assim que a maioria das pessoas se move, quando pensam em política.

Ressalte-se, porém, que, mesmo isolado politica e socialmente, nos anos 1980, Prestes conservou um certo prestígio e uma certo respeito por parte das forças de esquerda.

Vinte e cinco anos depois, Prestes parece pertencer a um passado que passou. Não podemos esquecer, contudo, as reviravoltas da História. Numa eventual atmosfera de radicalização das contradições sociais e polítias, o personagem, as questões que tentou resolver, as lutas que travou, as esperanças que cultivou, quem sabe, poderiam novamente se reatualizar?

Daniel Aarão Reis Filho

Professor de História Contemporânea/UFF

Novembro, 2014

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