(Conclusão)
3. Quarteto com piano.
António aprende. Sabe que está pronto para iniciar a vida. Sabe que a mãe não é a mulher da sua vida. Sabe que o comércio é o que rende. Entende que o comércio da mãe não é para os dois. Sabe que a terra é um investimento que dá pão e dinheiro. Sabe que o trabalho da terra é um investimento possível se há dinheiro para comprar os instrumentos, as sementes, os adubos. Sabe que a Geografia da Escola é boa para aprender que há alternativas, como a Literatura lhe conta nos textos de aventuras ou de conquistas. Trafica entre o saber escolar, o saber do lar e o do bairro. As feridas causadas no trabalho são possíveis de curar porque os tecidos nascem outra vez, que o corpo fadiga-se com a multiplicidade de atividades, que a observação permite a Galileu descobrir que a terra é redonda, que Gutenberg espalha saberes em letra escrita, que a matemática permite calcular esforços e valorar lucros debitados do investimento feito no trabalho: poupar não é ganhar, é apenas uma forma de ter moeda para a usar na economia de bens procurados pelas pessoas. Como o peixe da mãe: ninguém tinha a hierarquia social de mulher digna, limpa e discreta e a força retirada da vida solitária, para se empenhar no cansativo trabalho de andar entre a aldeia e a vila a trazer mensagens ou a comprar alguns produtos solicitados por pessoas, as suas clientes.
Entende que ter clientela é o maior investimento que um ser humano pode fazer. Apenas é preciso reunir dinheiro e aprender a trabalhar no sítio certo. Sítio certo que acontece ser o lugar onde a moeda seja mais forte do que no país onde se nasceu, ou mais abundante do que na aldeia onde lhe calhou viver. E António começa a andar e não para até chegar à Alemanha, depois de passar por Lisboa e Leiria. Com um objetivo claro: organizar a sua própria genealogia com essa mulher da aldeia que tinha amado e lhe tinha garantido um sim para o futuro. Mulher que parte para esse mundo desconhecido, aprende uma outra língua e solicita à sua mãe tomar conta dos filhos que em Vila Ruiva vão crescendo, enquanto eles procuram a moeda com o fito no investimento no comércio. Conceição Videira dá a mão à sua filha Fernanda e cria Anabela e Luís, à distância dos pais. Quarteto de instrumentos, com essa sogra ao piano. Conceição que respeita a Conceição Sardinheira pelo seu empenhamento em trabalhar sem pedir ajuda a ninguém: apenas trabalho e trabalho. Duas Conceições amigam que acabam por fazer do Luís um jovem disciplinado e dedicado ao trabalho, gestor, marido e pai; e de Anabela, uma professora à procura dum mestrado para crescer dentro da vida intelectual escolhida.
Heranças todas de Conceição Sardinheira, teimosa trabalhadora de riso divertido e ironia na ponta de língua. Como essa com que me brindou um dia: Atão, lá vai o Senhor Doutor com papel e lápis a ganhar a vida. Ora diga lá: é com as mãos que o trabalho se faz ou com esse passear folgazão a que o senhor chama trabalho? Sem saber que tinha criado uma escola com discípulos no cálculo, na aritmética, na economia e na gestão dos bens.
4. Coda final.
O comércio prosperou sem violência, sem os temores corretos de José Paulo Serralheiro, com a pesquisa certa de Luiza Cortesão e Steven Stoer, com a escrita certa sobre a vida deles de Filipe Reis. Hoje, António manipula o comércio, tem presidido à Junta de Freguesia, tem feito da aldeia uma pequena vila. Tudo isso aprendeu ao juntar a vida da mãe com o ensino da escola e a relação cordial com os seus vizinhos. História que permite entender que o saber nasce da interação do lar, escola e vizinhos, instituições em contradição enquanto não se saiba que a pedra angular destas três instituições é a gentileza e cortesia de quem tem a capacidade de lucrar com o seu trabalho e a distribuição de mão-de-obra ou objetivos de poupança dentro da família, no tempo certo, quando a sua sociedade abre para a pequena empresa.
Tempo não existente durante a vida de Conceição Sardinheira, mas possível durante a vida de António e Fernanda e com terreno preparado para as vidas de Luís e Anabela. Lição que o professor da criança ou entende, ou não sabe ensinar por falta de informação. Sem a genealogia da criança, coordenada com esse suceder de acontecimentos conjunturais e mutáveis de época em época na História de um País e o seu Continente, não há professor que possa transferir saber doutoral às mentes pragmáticas dos seus investigadores: os seus estudantes. Que, entretanto, recorrem à violência e defendem-se da violência da sociedade e das escolas…com a conivência dos adultos, como disse que diz José Paulo Serralheiro.
Bem-haja, Conceição, pela escola que formou e pela emotividade que acordou entre os seus e entre os vizinhos! Saiba o Ministro da Educação entender qual o livro para aprender, longe do Decreto ou da Lei que herdou, e que ele conhece, porque Santos Silva é o Augusto investigador de trabalho de campo que andou pela vida do país e conheceu milhares de Conceições. Embora, nunca a Sardinheira…
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Bibliografia
•Cortesão, Luiza, 1988: Escola, sociedade, quê relação? Afrontamento, Porto.
•Cortesão, Luiza et al., 1995: E agora tu dizias que…Jogos e brincadeiras como dispositivos pedagógicos, Afrontamento, Porto.
•Iturra, Raúl, 1998: Como era quando não era o que sou. O crescimento das crianças, Profedições, Porto
•1988-2001: Diário de trabalho de campo.
•Notas do debate com Darlinda Moreira, Doutorada em Antropologia da Educação, ISCTE, Lisboa, 16.01.01
•2000: O saber sexual das crianças. Desejo-te, porque te amo, Afrontamento, Porto.
•Reis, Filipe, 1991: Educação, ensino e crescimento, Escher, Lisboa.
•Serralheiro, José Paulo, 2000: Violência nas nossas escolas in Jornal a Página da Educação, Março, Profedições, Porto
•Stoer, Stephen e Costa Araújo, Helena, 1993: Genealogias nas escolas: a capacidade de nos surpreender, Afrontamento, Porto.
•Silva Santos, Augusto, 1994: Tempos cruzados. Um estudo interpretativo da cultura popular, Afrontamento, Porto.
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A seguir: A GREVE VIRADA DO AVESSO
