(Continuação)
2. Minueto de cordas.
Como dançava a trabalhar Conceição Sardinheira nas suas terras de Vila Ruiva! Respeitável mulher casada, como a divindade dos católicos manda e a vida social exige, ficou sem o marido nesse Portugal que mandava emigrar, o da ditadura. De chicote na mão foi ensinando o filho herdado do marido ausente. E com carinho na outra, foi-o educando através das conversas ao pé da lareira após jornadas de trabalho duro nas terras de outrem. Aritmética na cabeça, fazia as contas na conversa com o filho até entender se era suficiente o dinheiro ganho para se vestirem, alimentarem, pagarem a renda, comprar os livros para a escola, pagar a lenha. Deduzidos os gastos do que ganhava, Conceição fez-se Sardinheira e trazia, de manhã cedo, o peixe para a aldeia. Todas as Quintas feiras ia andando, ainda noite, para a vila de Nelas, e regressava à hora a que as senhoras das casas preparavam o seu almoço. E percorria a aldeia os bairros do Portugal de hoje apregoando a sua mercadoria. Com palavras doces e sedutoras convencia os vizinhos da qualidade do produto, da sua frescura, do bem que fazia aos ossos, aos olhos, à pele, à força necessária para usar a enxada. Um suplemento alimentar alternativo à permanente carne de porco, o substituto do bacalhau que ninguém podia pagar. Lareira quente, mais contas feitas, repara que faltam tostões precisos para investir numa pequena terra própria útil para batatas e cereais, para alimentar o filho.
Maria da Conceição Sardinheira, de enxada em mão, vai aos trabalhos à jorna e junta tostões que perfazem escudos. Lareira quente, sopa comida, diz ao seu filho António que deve trabalhar para a ajudar. O puto, com apenas sete anos, aprende. E colhe forças para tratar da rega das parcelas, da semeadura das batatas e do partir lenha. E também para fugir da casa para brincar com os amigos, quando a fadiga aperta. Esperta, Conceição percebe que as sardinhas não são futuras para o pequeno António e manda-o para a Escola. António lê e escreve e passa a ser o contabilista da pequena firma doméstica. E aprende que há mais sítios na geografia do mundo: a Argentina, onde mora o pai, Leiria, o lar da prima que tem loja de comércio, Lisboa, a cidade dos comerciantes.
Enquanto o professor fala e explica, ele viaja. Viaja pela aldeia a pensar nas armadilhas para caçar pássaros e coelhos, no pião que sabe ganhar, nos berlindes retirados duma garrafa de sumo, nos botões que gosta de surripiar dos estendais onde as roupas secam e que servem para brincar com os amigos que, mais abonados, os podem trazer de casa. Sonha e lembra na surra certa que o espera em casa por via dos botões tirados das roupas de outrem. E sabe distinguir entre o meu e o teu. Entre o bom e o mau. Entre o permitido e o proibido, entre a luta por si e a luta dos outros que dão à mãe meio tostão pelo dia de jorna para lucrarem com ela.
Dos quilómetros que a mãe faz, descalça para poupar as solas dos sapatos, e parecer melhor no dia das vendas de peixe, limpa para mostrar que o peixe é de confiança, sorridente e silenciosa para que os vizinhos a tratem com uma senhora respeitável, por acaso com um marido longe. Sem se queixar, sem dizer mal, sem levar o que sabe de um, para dizer a outro. Uma senhora. Uma senhora que aprende a tratar dos doentes terminais e a vesti-los, a lava-los e a penteá-los para uma última exibição pública, na Missa ritual ou no velório. António aprende a entender o que é trabalhar, que toda atividade é trabalho, que todo o trabalho é legítimo, que folgar é pecado, e que pecar é um castigo social.
Castigo social passível de ser esquecido se a pessoa sabe manipular a informação dos factos. Como no dia em que Maria da Conceição dá a luz uma filha e a inscreve no Registo Civil: pergunta o Oficial, E quem é o pai? E ela responde: E quem é o meu marido? Convicto do facto, o oficial lavra a ata de nascimento e, sem comentários, faz do marido pai outra vez.
(Continua)
