NINGUÉM, FICOU PARA SEMPRE por Luísa Lobão Moniz

olhem para  mim

Veio-me à memória um menino que vivia num bairro de barracas e que frequentava uma escola sem recursos humanos, sem recursos materiais, mas com muito afecto para dar.

O menino já tinha 8 anos e não sabia ler, fugia da escola, insultava as professoras, olhava para todos com ar de troça e desafiador.

A turma tinha 21 alunos, todos com mais de 7 anos e que não sabiam ler. Tinha meninos e meninas de várias origens culturais. Todos os meninas e todas as meninas eram muito pobres, todos tinham carências afectivas que me faziam engolir em seco…

Este menino não tinha pasta nem nada para meter nela. Não levava os livros para casa porque os irmãos iam estragá-los, não levava os lápis porque eles podiam parti-los.

O menino era rebelde, mas não queria estragar “as coisas” da Escola.

O pai estava muito longe, bebia e batia em todos lá em casa. A mãe aproveitou a ausência do pai para mudar a fechadura de casa.

“Fez bem, não fez, professora?”

“Posso levar um pacote de leite para a pequenina? É aquela que tem 4 anos mas é como se tivesse 2 e quando for como eu parece ter 5 anos.

O meu irmão, sabe? aquele que anda no 4º ano? vai com a professora a Fátima. Vai pedir por nós, pela família”

“Eu, eu não vou. Para quê? Para andar a pé e de joelhos, não?”

O menino de seu nome Diogo (nome fictício) tinha o cabelo todo encaracolado com caracóis grandes e soltos, tinha lábios grossos que tomavam um trejeito quando dizia ” que é? nunca viste?”

O Diogo começou aos poucos a gostar de ficar na escola até a campainha tocar para sair.

Aos poucos foi-se concentrando e fazendo alguns trabalhos.

O Diogo já andava no 1º ano há 3 anos, por isso já sabia como tinha que fazer para aprender e então um dia….

” Um bê, um bê, um bê e um a, ba. Um ba, um ba e um r bar, um bar e um c… um bar e um c… um bar e um co, BARCO. Ficou feliz.

O trabalho que o Diogo tinha para ler uma só palavra era desmotivador de qualquer aprendizagem… mas era o trabalho que conhecia…

Foi muito difícil ensiná-lo a ler porque pensava que só assim conseguia ler.

A vida do Diogo era feita de gritos, de  ameaças e de pancada.

Era essa a vida que levava consigo para a Escola…

Em casa a mãe vendia droga. A mãe tinha uma balança em que ninguém podia mexer. Mas o fruto proibido é o mais apetecido e, quando a mãe deu por isso, o Diogo estava a consumir droga até morrer na rua com overdose, depois de ter fugido do “colégio”, ou seja, da instituição que o tinha acolhido ou melhor prendido.

Não é com ” prisão” que se ensina os Diogos a viver, é com afecto, é com a atenção dos mais velhos, é com uma boa auto-estima.

Antes de chegar à escola já o Diogo tinha agarrada na pele a violência, o insulto, o roubo, o estar só.

Entrava a correr na sala, era quase o último a sair, mas foi o primeiro que caiu no chão de um bairro de barracas marginalizado. Foi o primeiro que caiu e não se levantou mais, caiu no chão, sem ninguém. E para a história da cidade, Ninguém, ficou para sempre.

A cidade é um chão de palavras

A cidade é um chão de palavras pisadas
a palavra criança a palavra segredo.
A cidade é um céu de palavras paradas
a palavra distância e a palavra medo.

(José Carlos Ary dos Santos)

Leave a Reply