Nos últimos dias sucederam-se processos eleitorais em vários países, que permitem ver claramente o desejo de mudança que vai pela Europa, e não só. Alguns pensarão que na Europa será possível acontecerem algumas mudanças, mas muitos duvidam. No resto do mundo, as dúvidas são maiores ainda. Apenas na América do Sul parece haver alguma razão para esperança. E talvez nem ali.
Diário de Bordo hoje centra a sua atenção na Europa. Não é só porque Portugal fica na Europa. Numa ponta da Europa, com fronteiras apenas com a Espanha. É porque ainda há muita gente a pensar que a Europa é diferente. Na realidade está cada vez menos diferente. A vontade de mudar da população é amordaçada (Diário de Bordo tem a impressão que este termo já foi aplicado a Portugal noutra altura…)por considerandos disseminados maciçamente através da comunicação social, e por ameaças feitas de modo sub-reptício, ou mesmo às claras. Quem quiser ter um exemplo significativo, é olhar com atenção para o que se passa na Grécia, nomeadamente nos últimos dias. Desde suspensão dos empréstimos e expulsão do Euro, até vaticínios mirabolantes sobre o futuro do país, chovem as ameaças. Entretanto os bancos sobem os spreads bancários (vejam o Eurointelligence) e apertam a torneira (para não dizer o pescoço). É óbvia a mensagem aos gregos: vocês votaram mal, têm de votar outra vez, e desta vez portem-se com mais juízo. A televisão dá-nos mensagens de pessoas assustadas com a situação. É claro o que pretendem os chamados mercados. Samaras, o líder da Nova Democracia, nem perdeu tempo a tentar formar governo, apesar de ser o partido mais votado. Espera por outras eleições, e toca de fazer que lhe corram melhor. Ao Syriza de nada vale ser a favor da continuação da Grécia na União Europeia e na Zona Euro; está classificado como antieuropeu. Quem o mandou pedir a nacionalização dos bancos, a reposição da legislação laboral, etc. Não se pode entravar a concentração capitalista.
Toda esta campanha assenta nalgumas ideias, que formam uma ideologia e se procuram impor por todos os meios. A primeira é precisamente a que a ideologia capitalista, ou neo-liberal, não existe. Já se ouviu esta mentira colossal na boca de uma série de comentadores da nossa comunicação social, e do próprio ministro Álvaro da economia. Ela existe, e pur si muove!, de que maneira. Por sua vez inclui princípios como O Estado é mau administrador, A gestão privada é mais eficiente que a pública, etc. que não resistem a nenhum exame sério, e que servem para justificar jogadas tremendas, como as privatizações (agora até o nome vai ter de ser mudado cá no nosso, já que os serviços públicos do nosso país estão a ser liquidados na sua maioria a favor de companhias estatais de outros países. Outra mentira pesada é a de que a liberdade de despedir vai contribuir para diminuir o desemprego.
A classe dominante não está interessada em criar emprego. Está sim interessada em ganhar dinheiro. A Alemanha não está interessada na construção europeia, pelo contrário. O pacto fiscal ou orçamental caiu às mil maravilhas, porque corta as perspectivas de crescimento dos outros países, e permite que a Alemanha conserve o seu avanço industrial. A Alemanha quer é países com menos competitividade (olha o palavrão!) para poder continuar a vender os seus produtos. Entretanto, nos EUA, Obama/Romney não perdem de vista estes aspectos. Há que procurar outras vias. Dentro e fora da Europa.

