Diário de Bordo – 15 de Setembro de 2011

 

 

As mudanças na sociedade moderna.

 

 

Nos últimos cem anos (ou cento e tal anos, se preferirem), a sociedade dos países chamados desenvolvidos (hoje vou falar só desses) tem conhecido grandes mudanças. Algumas para melhor, sem dúvida. Veja-se a situação da mulher. Embora ainda haja muito caminho a percorrer, a mudança é colossal. A melhor prova é ouvir os reaccionários a proporem a revalorização da família. Essa revalorização resume-se ao seguinte: as mulheres largam os empregos, voltam para casa, os empregos que vagarem são ocupados pelos homens, e assim resolve-se o problema do desemprego, e ocupam-se da educação dos filhos, poupando-se assim em creches, jardins de infância, etc. que deixam de ser necessários. Noutra linha, parece que há quem defenda, nas escolas acabar com as turmas mistas. Se calhar querem um ensino para os homens e outro, diferente, para as mulheres.

 

A defesa da família como instituição é um campo armadilhado por estes ideólogos beatos (é verdade que também há reaccionários que não são religiosos, mas na hora H juntam-se todos). A família, é um facto, tem sido insubstituível na sociedade humana, pelo menos até á data. Mas é do conhecimento geral que a família nuclear substituiu a família extensa como célula básica. Por razões da própria evolução da sociedade. As pessoas hoje em dia vivem mais na família nuclear, do que na extensa. E a família nuclear sem a equiparação dos direitos das mulheres aos dos homens é inviável. Isto mesmo sem entrar na parte ética da questão. E do ponto de vista da sociedade em geral o acesso generalizado das mulheres à educação é um dos principais esteios do grande desenvolvimento cultural e económico ocorrido durante o século XX.  Só as grandes instituições religiosas (creio que nem todas por igual) têm resistido à equiparação dos sexos. Surgem novos problemas de vida sem dúvida. A educação das crianças, a relação homem-mulher, a vida profissional, o próprio problema habitacional, tudo tem de ser visto a outra luz. Mas é inequívoco o progresso havido, resultante do progresso na equiparação dos direitos entre os homens e as mulheres.

 

A baixa de natalidade pode ter sido favorecida pela emancipação das mulheres. Contudo, nos EUA, onde os direitos das mulheres avançaram mais depressa que na Europa (esperemos que não comecem a recuar naqueles, pois os outros querem logo ir atrás), a taxa de natalidade é bem mais alta que na Europa. A baixa de natalidade na Europa (há cerca de quarenta anos ainda era tida como uma necessidade no nosso país) não foi causada pela emancipação feminina. É na ultrapassagem da crise económica e no crescimento da consciência cívica e social que se deve procurar a resolução do problema.

 

Um outro problema mais complicado é o das relações entre o mundo do trabalho e o cidadão individual ao longo da sua vida. Também durante o século XX assentou-se em praticamente todos os países modernos a ideia do direito à reforma. Foram montados grandes sistemas administrativos para gerir a aplicação e concretização deste direito. Muita gente, a maior parte dos nacionais dos países avançados, a partir de certa idade, conseguiram beneficiar dele de algum modo. Hoje em dia põem-se dúvidas sobre a vantagem do sistema.

 

Creio que ninguém defende abertamente que se acabe com o sistema de reformas. Contudo faz-se pior: com um ar de “lamento muito, mas tem de ser”, põe-se em dúvida a sustentabilidade (mais um novo palavrão!) do sistema, portanto a sua capacidade de sobrevivência. E imputam-se as razões ao número excessivo de reformados, à facilidade excessiva em obter pensões, etc. Sobre os dinheiros dos fundos que foram encaminhados para a especulação financeira, sobre o dinheiro da antiga Previdência que foi desviado para a guerra colonial, o excesso de administradores, de mordomias, sobre isso sabemos pouco. Mas fala-se muito em que as pessoas vivem cada mais, e portanto vão receber pensão/reforma/aposentação durante mais anos. Pois, eu até sou um deles.

 

Andei a coligir uns números sobre este assunto, que é dos tais que as pessoas, os directamente interessados, e não só, deviam acompanhar mais de perto. Vejam o seguinte, e por favor, digam o que acham: em Portugal, hoje em dia, a reforma é aos 65 anos. A esperança média de vida à nascença é de 78,7 anos (homens – 75,5; mulheres 81,7). É verdade que os dois valores não são directamente relacionados (a esperança de vida é para quem nasceu agora. Mas não será errado pensar que, para quem  hoje se está a reformar, quando nasceu tinha uma esperança de vida inferior. Bastante inferior até. Quando foi o 25 de Abril a esperança média de vida era ligeiramente inferior a 70 anos.

 

A segurança social calcula actualmente a esperança de vida aos 65 anos em 19 anos, não sei com que bases. Assim as pessoas morrerão, em média, (irra, que esta matemática provoca-me náuseas!) cerca dos 84 anos. Será assim? É com estas contas (não com as minhas, claro) que nos vão cortar nas reformas, e põem agora os jovens contra a segurança social.

 

Entretanto em Inglaterra (Reino Unido) a esperança média de vida é de 79,4 anos (homens 77,2 anos; mulheres 81,6 anos; curioso parece que por lá os homens resistem mais, as mulheres nem por isso). A idade da reforma, ao que julgo saber, ainda está abaixo dos 65 anos em Inglaterra. 

 

Sem dúvida que é necessário prolongar a idade activa. Mas não é com certeza só para haver dinheiro para pagar as reformas. Nem fundamentalmente por causa disso.

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