DIÁRIO DE BORDO, 16 de Junho de 2012

 

Informa-nos o Jornal de Negócios que, ontem, o Financial Times Deutschland (FTD), num editorial escrito em alemão e em grego, fez um apelo a que, amanhã domingo, dia 17 de Junho, os eleitores gregos votem no partido conservador Nova Democracia. Alerta contra o que chama de demagogia de Alexis Tsipras, o líder da coligação Syriza, classificada pela maioria dos opinadores, comentadores, etc. como de esquerda radical, apela a que “Votem com coragem nas reformas, em vez de votarem com raiva contra mudanças estruturais dolorosas mas necessárias” e diz abertamente que só aceitando as condições dos credores internacionais é que a Grécia será capaz de permanecer no euro. Entretanto, dois dias antes, o mesmo FTD tinha noticiado que os países da zona euro estariam disponíveis para negociar uma flexibilização das condições impostas pelo acordo com a troika. O Financial Times (não o FTD) anteontem noticiava que, ao nível da UE se estava a estudar a hipótese de incrementar as ajudas à Grécia através do Banco Europeu de Investimento e de um alívio nas condições dos empréstimos, mas que tais ajudas só seriam postas em prática se a Nova Democracia vencesse as eleições.


Estas notícias constituem obviamente uma tentativa de influenciar o sentido de voto nas eleições gregas. Os jornais acima citados estão muito próximos dos comandos da alta finança europeia e mundial, que também têm grande peso nas orientações da União Europeia. E estes pretendem que a Europa se mantenha na trajectória dos lucros altos e salários baixos, com os impostos a serem um problema das classes médias e baixas (Diário de Bordo agradece ao saudoso Saldanha Sanches), grande peso de trabalho precário e de desemprego e uma concentração de poder e de riqueza apreciável. Organizações como o Syriza, que eventualmente poderão pôr em causa essa trajectória, são um escolho, e têm de ser tratadas como tal.


Não se duvide que estamos perante o conflito de diferentes projectos políticos. E que o projecto neoliberal está vivo e muito actuante. Os políticos e comentadores/opinadores de direita (alguns até se dizem de esquerda) esforçam-se por negar a existência desse projecto. Mas o seu peso, desde o golpe de Pinochet e de Margaret Thatcher e Ronald Reagan, tem sido sentido por todo o mundo. Defende aquilo a chamam a globalização, com uma economia assente no crédito, impõem um espírito de concorrência que só permite sucesso aos detentores do grande capital, e talvez, a algumas equipas de futebol profissional (também elas cada vez mais nas mãos daqueles). O sucesso do grande capital assenta fatalmente nas grandes diferenciações sociais, e numa grande agitação e insegurança, com excepção, claro, da grande propriedade.


Foi o neo-liberalismo que colocou a Grécia à beira do abismo. Assim como Portugal (embora Passos Coelho diga que já não estamos à beira doabismo, e os humoristas acrescentem: porque já demos um passo em frente). Não é com mais do mesmo que lhe vai virar costas. Nem a Grécia, nem ninguém.

 

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