Completa-se hoje um ano sobre a tomada de posse do actul governo. Mesmo dando desconto ao facto de a memória nos poder atraiçoar e de se saber que as dores que sentimos num dado momento são subjectivamente mais fortes do que outras dores pretéritas, não nos lembramos desde 1974 de um executivo tão incompetente e tão indiferente aos problemas dos cidadãos. Preocupado em agradar aos poderes externos, esta gente assemelha-se a um cãozinho que recebe os elogios do dono, língua de fora, pondo-se de pé apoiado nas patas traseiras e arfando de satisfação. Não interessa que o número de desempregados suba em flecha ou que haja pensionistas idosos obrigados a escolher entre medicação e alimentação – importante é a senhora dona Angela ter dito que o esforço feito por Portugal «é impressionante».
Nós também estamos impressionados. Impressionados com a arrogante insensibilidade de Passos Coelho e da sua troupe; impressionados com a passividade com que nós estamos a aceitar todas as arbitrariedades que estão a ser cometidas para pagar uma dívida que, em grande parte, foi contraída para enriquecer barões dos dois partidos do poder. A primeira coisa a fazer, até para credibilizar medidas de austeridade posteriores e mais abrangentes, seria congelar todas as contas de quem tenha feito parte dos governos anteriores.
O PS vai abster-se na votação da moção de censura apresentada pelo Partido Comunista. Compreende-se que assim seja – um partido não é obrigado a aceitar formulações feitas por outro partido. O que não se compreende é que o PS não apresente (não tenha apresentado já) a sua moção de censura. Diz que também é um partido da Oposição. Claro que é, quem o contesta? Os motivos por que se opõe é que podem ser postos em causa. E a velha rábula de que é um partido responsável, não colhe na actual situação. Como se pode querer manter a estabilidade governativa quando o equilíbrio social minimamente exigível a um estado democrático, está a ser posto em causa por medidas repressivas, pela iminente ruptura das estruturas de solidariedade, já de si precárias?
Referindo-se à grave situação que o País vive, o ex-presidente da República Mário Soares disse ontem, no Porto, no Congresso Português de Sociologia, que “o que a ‘troika’ faz é ganhar o seu dinheirinho” e acrescentou que “os mercados continuam a mandar nos Estados”, transformando-nos numa “espécie de protectorados”. Dizer estas banalidades não é o melhor contributo que Soares pode dar à democracia. Reivindicando a sua condição de fundador do Partido Socialista, deveria refundar o PS, expulsando toda esta corja de oportunistas que actualmente o domina e que faz oposição ao bando do PSD, apenas porque o quer substituir na função de manipular a torneira de onde jorram tachos, prebendas, benefícios e privilégios – a torneira da corrupção.
“Como é possível, que haja uns tecnocratas que decidem sobre o nosso futuro e as pessoas não se sentem, patrioticamente, vexadas por nós estarmos a ser um protetorado da ‘troika’?”. “Temos que mudar rapidamente, porque, se não, vamos para uma situação gravíssima”, disse também Mário Soares. E acrescentou “ter esperança» no vento democrático” que sopra desde que o socialista François Hollande foi eleito Presidente da República francesa, e espera que “o vento” seja “a favor do crescimento e contra a austeridade, contra o flagelo do desemprego e possa dominar a Europa”. Um ano depois de ter tomado posse o governo que substituiu o do insustentável Sócrates, há quem tenha esperança no novo executivo de França. Sempre o atávico sebastianismo. Esperamos o futuro como quem espera um autocarro numa paragem desactivada.
A Oposição (PCP, BE, esquerda do PS, apartidários) tem de criar uma estratégia conjunta e derrubar este governo sem ser para entregar o poder à concorrência – à gente inqualificável que domina actualmente o Partido dito Socialista.

