Diário de bordo de 21 de Junho de 2012

 

Completa-se hoje um ano sobre a tomada de posse do actul governo. Mesmo dando desconto ao facto de a memória nos poder atraiçoar e de se saber que as dores que sentimos num dado momento são subjectivamente mais fortes do que outras dores pretéritas, não nos lembramos desde 1974 de um executivo tão incompetente e tão indiferente aos problemas dos cidadãos. Preocupado em agradar aos poderes externos, esta gente assemelha-se a um cãozinho que recebe os elogios do dono, língua de fora, pondo-se de pé apoiado nas patas traseiras e arfando de satisfação. Não interessa que o número de desempregados suba em flecha ou que haja pensionistas idosos obrigados a escolher entre medicação e alimentação – importante é a senhora dona Angela ter dito que o esforço feito por Portugal «é impressionante».

 

Nós também estamos impressionados. Impressionados com a arrogante insensibilidade de Passos Coelho e da sua troupe; impressionados com a passividade com que nós estamos a aceitar todas as arbitrariedades que estão a ser cometidas para pagar uma dívida que, em grande parte, foi contraída para enriquecer barões dos dois partidos do poder. A primeira coisa a fazer, até para credibilizar medidas de austeridade posteriores e mais abrangentes, seria congelar todas as contas de quem tenha feito parte dos governos anteriores.  

 

O PS vai abster-se na votação da moção de censura apresentada pelo Partido Comunista. Compreende-se que assim seja – um partido não é obrigado a aceitar formulações feitas por outro partido. O que não se compreende é que o PS não apresente (não tenha apresentado já) a sua moção de censura. Diz que também é um partido da Oposição. Claro que é, quem o contesta? Os motivos por que se opõe é que podem ser postos em causa. E a velha rábula de que é um partido responsável, não colhe na actual situação. Como se pode querer manter a estabilidade governativa quando o equilíbrio social minimamente exigível a um estado democrático, está a ser posto em causa por medidas repressivas, pela iminente ruptura das estruturas de solidariedade, já de si precárias?

 

Referindo-se à grave situação que o País vive, o ex-presidente da República Mário Soares disse ontem, no Porto, no Congresso Português de Sociologia, que “o que a ‘troika’ faz é ganhar o seu dinheirinho” e acrescentou que “os mercados continuam a mandar nos Estados”, transformando-nos numa “espécie de protectorados”. Dizer estas banalidades não é o melhor contributo que Soares pode dar à democracia. Reivindicando a sua condição de fundador do Partido Socialista, deveria refundar o PS, expulsando toda esta corja de oportunistas que actualmente o domina e que faz oposição ao bando do PSD, apenas porque o quer substituir na função de manipular a torneira de onde jorram tachos, prebendas, benefícios e privilégios – a torneira da corrupção. 

 

“Como é possível, que haja uns tecnocratas que decidem sobre o nosso futuro e as pessoas não se sentem, patrioticamente, vexadas por nós estarmos a ser um protetorado da ‘troika’?”. “Temos que mudar rapidamente, porque, se não, vamos para uma situação gravíssima”, disse também Mário Soares. E acrescentou “ter esperança» no vento democrático” que sopra desde que o socialista François Hollande foi eleito Presidente da República francesa, e espera que “o vento” seja “a favor do crescimento e contra a austeridade, contra o flagelo do desemprego e possa dominar a Europa”. Um ano depois de ter tomado posse o governo que substituiu o do insustentável Sócrates, há quem tenha esperança no novo executivo de França. Sempre o atávico sebastianismo. Esperamos o futuro como quem espera um autocarro numa paragem desactivada.

 

A Oposição (PCP, BE, esquerda do PS, apartidários) tem de criar uma estratégia conjunta e derrubar este governo sem ser para entregar o poder à concorrência – à gente inqualificável que domina actualmente o Partido dito Socialista.

 

 

4 Comments

  1. Esta estratégia conjunta acontecerá em Portugal no dia em que as galinhas tiverem dentes!Seria bom que acontecesse mas…, basta olhar para o nosso passado recente para concluir que a direita é muito mais inteligente que a esquerda – aquela, sempre que precisa, alia-se e lá vai levando a água ao seu moinho.Já à esquerda tudo é muito complicado! A “minha” esquerda é muito melhor que qualquer outra e toda a estratégia visa demonstrar isso mesmo. Mais, os “meus” maiores inimigos são (parecem ser) todas as outras “pretensas” esquerdas!Lamento dizer isto assim mas, de facto, é a isto que assisto desde o 25 de Abril.

  2. Exactamente, tem toda a razão. As esquerdas não são capazes de se entender. O que será preciso que aconteça para que isso se verifique? Ainda agora vi, com muita tristeza porque é a prova do que estamos a dizer, a maneira como o Partido Comunista grego se referido ao Syriza em termos que deveria guardar para a direita e privilegiar, antes, uma ligação com as outras forças de esquerda. Todas as áreas de esquerda, com mais ou menos evidência, têm cometido erros semelhantes. Ou nos dispomos, de uma vez por todas a limar arestas, a deixar para trás os sectarismos, a focarmo-nos no que é prioritário e que, neste momento, infelizmente já é muito, ou, como se costuma dizer “não vamos lá” Ou vamos, mas um lugar onde, de certeza, não gostaríamos de chegar. Outra coisa que os dirigentes dos partidos de esquerda têm que aceitar é que há cidadãos sem filiação partidária – ninguém é obrigado a isso – que têm que contar, que querem contar como intervenientes nas tomadas de decisão estratégica tal como contam em tantos outros níveis da vida do país.

  3. so os comunistas dizem a verdade nos nao aprovamos a nacionalizaçao do roubo do bpn como o be nem o plano de genocidio a grecia como o be.nos os verdadeiros comunistas nao quermos salvar o capitalismo mas destruilo e ao euro e a ue instrumentos do capitalismo tal como os comunistas gregos nao queremos lugares mas a revoluçao socialista

  4. Meu caro amigo, eu não falei nos comunistas, falei numa atitude concreta do Partido Comunista grego. Essa já não é do nosso tempo: dizer que quem não está de acordo com uma atitude, é porque é contra um grupo. Quem é que, de entre nós, quer salvar o capitalismo? Pondo um pouco de humor nesta desgraçada situação, é caso para perguntar se até não haverá capitalistas que já estejam arrependidos de o serem.

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