10 CANÇÕES DE LUÍS DE CAMÕES – V – por Álvaro José Ferreira

 

CANÇÃO V

 

 

 

 

Organização de Álvaro José Ferreira

 

Ilustração: pormenor de um quadro de Dorindo Carvalho

 

CANÇÃO V

 

Poema de Luís de Camões (in “Rimas”, org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; “Rimas”, texto estabelecido e prefaciado por Álvaro Júlio da Costa Pimpão, apresentação de Aníbal Pinto de Castro, Coimbra: Livraria Almedina, 1994)

Dito por Luís Miguel Cintra* (in CD “Luís de Camões: 10 Canções ditas por Luís Miguel Cintra”, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1995) [>> YouTube]

 

 

Se este meu pensamento,

como é, doce e suave,

de alma pudesse vir gritando fora,

mostrando seu tormento

cruel, áspero e grave,

diante de vós só, minha Senhora,

pudera ser que agora

o vosso peito duro

tornara manso e brando.

E eu que sempre ando

pássaro solitário, humilde, escuro,

tornado um cisne puro,

brando e sonoro pelo ar voando,

com canto manifesto,

pintara meu tormento e vosso gesto.

 

Pintara os olhos belos

que trazem nas meninas

o Menino que os seus neles cegou;

e os dourados cabelos

em tranças de ouro finas

a quem o Sol seus raios abaixou;

a testa que ordenou

Natura tão fermosa;

o bem proporcionado

nariz, lindo, afilado,

que a cada parte tem a fresca rosa;

a boca graciosa

— que querê-la louvar é escusado —,

enfim, é um tesouro:

os dentes, perlas; as palavras, ouro.

 

Vira-se claramente,

ó Dama delicada,

que em vós se esmerou a Natureza;

e eu, de gente em gente,

trouxera trasladada

em meu tormento vossa gentileza.

Somente a aspereza

de vossa condição,

Senhora, não dissera,

por que se não soubera

que em vós podia haver algum senão.

E se alguém, com razão,

«Porque morres?» dissera, respondera:

«Mouro porque é tão bela

que inda não sou pera morrer por ela».

 

E se pola ventura,

Dama, vos ofendesse,

escrevendo de vós o que não sento,

e vossa fermosura

tão baixo não descesse

que a alcançasse um baixo entendimento,

seria o fundamento

daquilo que cantasse

todo de puro amor,

por que vosso louvor

em figura de mágoas se mostrasse.

E onde se julgasse

a causa pelo efeito, minha dor

diria ali sem medo:

«quem me sentir verá de quem procedo».

 

Então amostraria

os olhos saudosos,

o suspirar que a alma traz consigo,

a fingida alegria,

os passos vagarosos,

o falar, o esquecer-me do que digo;

um pelejar comigo,

e logo desculpar-me;

um recear, ousando;

andar meu bem buscando,

e de poder achá-lo acovardar-me;

enfim, averiguar-me

que o fim de tudo quanto estou falando

são lágrimas e amores;

são vossas isenções e minhas dores.

 

Mas quem terá, Senhora,

palavras com que iguale

com vossa fermosura minha pena;

que em doce voz de fora

aquela glória fale

que dentro na minha alma Amor ordena?

Não pode tão pequena

força de engenho humano

com carga tão pesada,

se não for ajudada

dum piadoso olhar, dum doce engano

que, fazendo-me o dano

tão deleitoso e a dor tão moderada,

que enfim se convertesse

nos gostos dos louvores que escrevesse.

 

Canção, não digas mais;

e se teus versos à pena vêm pequenos,

não queiram de ti mais,

que dirás menos.

 

 

* Gravado no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, Lisboa, por Vasco Pimentel

Pós-produzido nos Estúdios Grande Som, Lisboa

URL: http://www.teatro-cornucopia.pt/htmls/conteudos/EEuEZkluuuTLFwLByT.shtml

http://pt.wikipedia.org/wiki/Lu%C3%ADs_Miguel_Cintra

http://www.infopedia.pt/$luis-miguel-cintra

 

 

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