A propósito da transcrição que fizemos de um artigo de Anselmo Borges, gerou-se uma certa controvérsia. O que entendemos ser saudável (numa dupla acepção do adjectivo – salutar, higiénico, bom para a saúde – e também por ser susceptível de ser saudado, felicitado…).
Anselmo Borges é um sacerdote católico e também professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. É autor de diversas obras, entra elas de um excelente Dicionário de Mitos. Considerado por vezes como que uma consciência crítica da Igreja Católica, habituou-nos à ideia de que pensa pela sua cabeça. As posições oficiais da Igreja nem sempre as aceita – defendeu o uso de preservativo em determinadas circunstâncias, manifestou-se contra a discriminação dos homossexuais, e, questionado sobre a questão da eutanásia, expendeu a ideia de que a vida é um dom e não um fardo, defendeu sempre (antes de ser legislada) a descriminalização do aborto… Não é contra o sacerdócio feminino e quanto ao celibato dos padres, entende que não deve ser imposto coercivamente, mas sim ficar ao critério de cada padre. – Sobre a sexualidade disse – «Foi a igreja que envenenou a sexualidade, aliás a partir dum engano numa exegese feita por Santo Agostinho dum texto bíblico»
Surpreende, pois, no artigo que publicámos um certo conservadorismo relativamente à avaliação que faz sobre a vida espiritual dos ateus. Em todo o caso, não tão acentuado como se pode depreender da reacção que a leitura do artigo suscitou. Note-se que se trata de uma recensão crítica a um livro de Alain de Botton – o título do artigo Religião para Ateus é a tradução de Religion for Atheists. Não é portanto tão provocatório quanto parece. Criticando favoravelmente a obra de um ateu, extrai das reflexões de Botton a conclusão de que a religião responde a uma necessidade universal, comum a ateus e a crentes, a de uma dimensão espiritual para a qual a sociedade profana não terá mostrado uma eficaz capacidade de resposta.
Um ateu diria que a religião corresponde sobretudo à necessidade de explicar o inexplicável e, sobretudo, provém dos resquícios de superstição que sobrevivem nos seres racionais. Mas é natural que um crente, um sacerdote para mais, faça uma interpretação que contemple e justifique a sua opção.
Publicámos o artigo porque constitui uma visão da vida espiritual que, não sendo maioritária entre os elementos que fazem este blogue, é comum a alguns. Há entre nós ateus, agnósticos, católicos, um estudioso do Islão…tal como há militantes do PCP, do BE, do PS e, talvez maioritariamente, independentes de esquerda. Porém uma coisa deve ficar clara – o blogue não é ateu, nem católico, nem islâmico, nem marxista, nem anarquista, nem social-democrata…
O blogue é um espaço onde se debatem livremente as ideias e os integrismos, venham de onde vierem, não são bem-vindos.

