O Papa alemão na Alemanha, por Anselmo Borges

Publicamos este texto do Anselmo Borges sobre a visita do Papa à Alemanha, por considerarmos que contem um comentário muito bem feito, e informação útil, por parte de alguém ligado à igreja católica. Não nos identificamos com a ideologia subjacente ao texto, nem concordamos com várias das ideias que se procura transmitir. Não aceitamos por exemplo que um líder político como a chanceler Angela Merkel faça um apelo contra o abandono da religião nos termos referidos, pois consideramos que a separação da religião e do estado é uma pedra fundamental da democracia e da liberdade. Mas consideramos que a leitura do texto do padre Anselmo Borges ajudará os nossos leitores a compreenderem muito do que se passa na Europa e no Mundo. De qualquer modo, continuamos a procurar que A Viagem dos Argonautas inclua diferentes opiniões, e que ajude a um debate equilibrado sobre estas matérias e outras que os nossos colaboradores e os nossos leitores achem importantes. O nosso obrigado ao Anselmo Borges e ao Diário de Notícias.

 


A relação com a religião na Alemanha é diferente. Por exemplo, nas universidades públicas, há Faculdades de Teologia (católica e protestante), com o mesmo estatuto das outras faculdades, e é natural a religião e o seu debate estarem no espaço público.


Percebe-se, assim, por exemplo, o apelo de Angela Merkel à união dos cristãos frente ao abandono da religião: “A religião é a base sobre a qual eu e muitos outros contemporâneos contemplamos a dignidade sagrada do ser humano. Vemo-nos como a criação de Deus, e isso guia as nossas acções políticas.” A visita do Papa fará lembrar as raízes cristãs da Alemanha e da Europa. E, filha de um pastor protestante, rezou e cantou na missa celebrada pelo Papa em Berlim.


Também houve protestos por causa do carácter oficial da visita, ainda que com menos participantes do que o previsto. Apoiada por vários deputados que boicotaram o discurso do Papa no Bundestag (uns cem em 620), a manifestação juntou pouco mais de 5000 pessoas, e foi pacífica e com algum humor. O Papa declarou que todos têm o direito de se manifestar: “Tomo nota e não há nada a dizer quando a manifestação se exprime de modo civilizado.”


Mesmo que a sua atitude fosse apenas no sentido de fazer da necessidade virtude, é bom que Bento XVI reconheça a pluralidade de posições e o direito à crítica. Neste sentido, foi, mais uma vez, contundente quanto à condenação da pedofilia: “É um crime” e de tal modo grave que afirmou: “Posso compreender que sobretudo quem está próximo de pessoas atingidas diga: ‘Já não é a minha Igreja, a Igreja era para mim a humanização do amor. Se os representantes da Igreja fazem o contrário, não quero estar mais nesta Igreja.”


No Parlamento, afirmou que “servir o direito e combater o domínio da injustiça é e continua a ser o dever fundamental dos políticos”, advertindo que precisamente a aplicação do direito distingue o Estado de “uma grande quadrilha de bandidos” que pode ameaçar o mundo inteiro e empurrá-lo para a beira do abismo, como aconteceu na Alemanha nazi. Assegurou que o cristianismo, “ao contrário de outras grandes religiões”, nunca impôs ao Estado e à sociedade um direito revelado. Defendeu fortemente a ecologia e os movimentos ecologistas, afirmando que é urgente escutar a mensagem da natureza e o respeito por ela, pois “a terra tem em si mesma a sua dignidade e devemos seguir as suas indicações”. Assegurou que a cultura da Europa nasceu do encontro entre Jerusalém, Atenas e Roma, “do encontro entre a fé no Deus de Israel, a razão filosófica dos gregos e o pensamento jurídico de Roma” e que esse encontro configura a identidade da Europa e fixou os critérios do direito, “sendo nosso dever neste momento histórico defendê-los”.


Com o Holocausto e Ratisbona em fundo, assegurou que a amizade entre católicos e judeus é “irrevogável”, e, num encontro com líderes islâmicos, pediu aos políticos que “reconheçam a dimensão pública da religião” e exortou cristãos e muçulmanos a conhecerem-se melhor para melhor se entenderem, numa “colaboração fecunda”.


“Quando o Papa visita a Alemanha, visita também o país da Reforma”, declarou a chanceler Merkel. Bento XVI visitou em Erfurt o mosteiro onde Lutero viveu e a quem prestou homenagem, sublinhando a sua “paixão profunda” pela questão de Deus: “O pensamento de Lutero e a sua profunda espiritualidade estavam totalmente centrados em Cristo” e a grande pergunta de toda a sua investigação teológica e de toda a sua luta interior foi “como ter um Deus misericordioso”.


Mas a grande frustração desta viagem foi precisamente a falta de um gesto concreto. Podia, por exemplo, levantar a excomunhão a Lutero, declarar a possibilidade da intercomunhão entre católicos e protestantes, proclamar a celebração em conjunto dos 500 anos da Reforma, em 2012. Também não pode ser indiferente à pergunta do Presidente Christian Wulff, católico praticante, divorciado e recasado: “Até que ponto a Igreja deve ser misericordiosa a lidar com os falhanços nas vidas privadas das pessoas?”

 

ANSELMO BORGES

 

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