Ensaio de etnopsicologia da infância
Por causa de um problema informático, falei para ajuda com o jovem técnico Fernando. Enquanto falávamos, entendi a sua falta de amores ou seus experimentos com paixões novas, de uma hora, de meio-dia, de um mês, mas sem nenhum compromisso. É a liberdade dos mais novos de hoje que primeiro espreitam, vem a pessoa que gostam e sem falar mais, começam o jogo amoroso que hoje em dia denomina-se curtir-palavra do calão luso europeu que devo definir como divertimento, passar bem, namorar, usufruir do orgasmo com quem for. Na minha juventude, largamente passada, curtir não era palavra usada. Havia dois tipos de pessoas, melhor dizendo, de mulheres: as para casar, castas e virgens; e as para satisfazer a libido que nos estraga os 20 anos. As primeiras, recebiam flores, joias, ir à ópera ou aos concertos, compromisso e amor profundo. Eram um mimo. As segundas, meia hora, uma tarde ou uma noite, vestirmos as cuecas e, se um dia te vi, não me lembro. Nos meus 20 anos apenas havia apenas um tipo de casamento: de gametas diferenciadas e para toda a vida, ainda que, passados os anos, houvessem aventuras esporádicas com outras pessoas. Hoje em dia, curte-se com quem se gosta mais, do mesmo ou diferente sexo. A conversa prolongava-se e prometi ideias por escrito. São as que seguem.
Amar, aos meus 20 anos, era um mimo, que defino a seguir de forma cumprida no dia do aniversário da nossa filha mais velha, esse 26 de Junho que nunca esqueço, nem a sua mãe, que a teve com muito trabalho.
O mimo, é uma adição. Sabe-se dele, pratica-se e sente-se que não se pode abandonar. O mimo apodera-se da pessoa e, o que não se diz en palavras, passa a ser gestos bem balançados, elegantes, esguios. Esta frase não é minha, é referida por Paul Curtis, director e fundador do American Mime Theater. O mimo é o que pensamos entregar às nossas crianças, como as define um dos meus Santos Padroeiros nestas temáticas, Wilfred Bion em 1966, no seu texto Learning from experience: todo ser humano desde o terceiro mês da concepção até mais ou menos aos 5 anos e meio, entende que o mundo não é apenas dele, o mundo é partilhado, como já referi num livro e em alguns textos da Página da Educação, Revista na que colaboro fazem já vinte anos. Ideia que aprende ao desenvolver o entendimento da existência da História e da interacção com outros seres humanos. Essa adição, é a procura de carinho, de emotividade, de palavras, de companhia, de simpatia, acrescentaríamos ao definidor do conceito, bem como na forma de nos aproximarmos das pessoas que mais amamos, com as que temos maior intimidade e procuramos, até em adultos, falar como crianças. Porque o mimo, não é apenas o de um ser de cinco anos, é também desse denominado adulto que vive e mora na concorrência, na competência, no acumular e no lucrar. Normalmente, a criança adulta procura a camaradagem, a amizade, o entendimento, o apoio e a compreensão. Adjectivos que a vida da mais-valia não permite realizar entre a maior parte das pessoas. Muitos de nós, queremos mimo, procuramos ser mimados. Adoro entrar numa sala de aula e falar dos meus Padroeiros, sentar-me nas mesas dos meus discípulos, ser lembrado por eles, ser procurado e ser ouvido com atenção e carinho. Adoro que a minha Secretária aqueça o meu gabinete ou lhe ponha flores. Ou ainda, um telefonema de um antigo discípulo/a, um trocar de novas ideias, um minuto apenas para bater à minha porta e dizer: T’a bom?..
Passou bem…? Andar pelo corredor enquanto falamos de crianças, das nossas, como é evidente.
O mimo apoderou-se de mim e dou-o aos meus em textos, em livros, em pesquisa, numa explicação do que as palavras da nossa cultura não permitem dizer. Sim, é verdade que a criança procura o mimo numa bolacha oferecida pelos pais, bem como é verdade que o mimo obriga o adulto a dizer: bolacha? Ainda não, só a seguir ao almoço, para não perderes o apetite: é tão pervertido o assuntos das bolachas, como comer rebuçados que ferem os dentes… O melhor mimo é a disciplina do corpo, a simpatia, o sorriso, não ameaçar nem punir, mas explicar o porquê. Brincar, acolher o pequeno corpo que soluça, abraçá-lo em silêncio e dizer as palavras adequadas à situação. Porque se o mais novo nos confidencia os seus problemas, não os devemos repetir a outros, pois ao sabê-lo, passariam de mimo a solidão. Se o pequeno ser aprende a desconfiar, vai crescer dentro da ideia da traição. O mimo afinal, é a companhia, o estar perto da pessoa, sem interferir todos os dias, apenas uma visita adequada e combinada, um convite, uma conversa. Especialmente se a outra pessoa foi um dia o nosso descendente e hoje já tem os seus. Porque os nossos, nunca foram nossos, foram apenas cuidados por nós durante um tempo. A casa, é já a deles, para aceitar, eventualmente, uma refeição. Factos que provam a existência do mimo e não a aborrecida solidão. Como acima referido, o mimo toma conta da situação, esse afazer social positivo, processo de ensino e disciplinador da interacção. Com o mimo nos sentimentos, nunca estamos sós e aprendemos a falar com confiança dentro das situações adequadas.
Mimar, é ser responsável pelo outro. Mimar, é nunca esquecer o outro e muito menos procurá-lo por interesse. Em suma, mimar é entender o outro sem compaixão mas com fraternidade solidária! Mimar, é nunca abandonar a quem queremos, procurando a sua companhia para nunca estar só. Essa solidão que mata o mimo e faz de nós palhaços, como a imagem do texto.
Mimar é companhia, amar, se entregar ao outro/a, ate o ponto de fazer de nós pessoas calmas e disfarçadas para divertir os que adoramos…como costumava fazer o meu primo Pablo, falecido faz dois anos, esta semana, como fará o meu neto Weñe denominado Javier Salvador Raúl por todos os que não entregam carícias procuradas para se ser feliz.
Mimo é este texto para Pablo e mi Weñe e as suas famílias. Amor é mimo, ideia que ninguém me retira dos meus sentimentos nem me convence do contrário…
