Se me importo por escrever sobre a ética do amor, é porque amar tem as suas regras para respeitar. Amar tem uma ética. Há vários tipos de amor, que passa pela capacidade de entrega a outro sem condições nem solicitações ou o amor à Pátria, pela que se dá a vida, o amor à terra em que se nasceu, o respeitar a família, amigos e vizinhos. O amor dos filhos pelos seus pais, amor recíproco: em criança, os pais tomam conta do seus pequenos; em adulto, os filhos cuidam aos seus pais, especialmente dos mais incapacitados e aprendem deles o amor filiai para o dia em que os descendentes, já pais e mães, serão cuidados pelos seus hoje pequenos, mais tarde adultos que consideram ao adulto maior com respeito, o que o adulto maior agradece e espera como dádiva. Como as filhas com o solitário pai. Como eu e as minhas pequenas, hoje mães que se esmeram em dar todo aos seus adultos.
Todas estas variedades da palavra e acção de amar, têm um conjunto de regras de conduta. Especialmente, se o objecto das nossas quimeras é outro ser humano. Sentimento que se exprime no respeito às suas formas de ser, na aceitação das suas raivas e das suas palavras de consolo e de explicar o que aconteceu, quando a tormenta passa.
Nós, seres humanos, aceitamos todos estes tipos de amor e pelo tempo que possam durar. Bem sabemos que na juventude o amor é uma paixão incontrolável, que procura a satisfação da libido. Após essa satisfação, se a paixão continua, passa de imediato à definição de amor. O amor que perdura, o amor que se rende, o amor que tudo vê, ouve e cala se não for conveniente.
Não falo de mim, falo de quem me apoia e entende com paciência as dores da minha vida, as ausências, os caprichos, as doenças que matam, as doenças curadas em meia hora.
Ela sabe quem é. Mais nada digo, porém: leva-me de carro, fixa a minha forma de escrita, leva-me praticamente nos seus braços, corresponde à minha paixão sem ofensa nenhuma.
Porquê a Pietá de Miguel Ângelo? Porquê a de Roma não a de Florença? Pela sua capacidade de fixar em pedra que nunca parte, nem se desmorona, nem se desfaz os sentimentos que tenho referido.
Conheci-a loura, de olhos azuis esverdeados, companheira e, mais ainda, amiga.
É para ela este texto de poucas e suaves palavras, ditas já tarde na vida.
Ela é o mármore que segura a minha vida, aceita a minha ética, ainda que pareça que mais nada tem para fazer.
Ama em silêncio, não faz escândalos nem barulhos. O ideal que sempre procurei…
