PROCRIARÁS, PARA SERES FILHO – por Raúl Iturra

À minha geração

 

1. O problema.

 

Sabemos que os Mandamentos, cristãos romanos, presbiterianos, ortodoxos, calvinistas; judaicos, ortodoxos, rabínicos, outros; muçulmanos de diversos clãs; teístas, ateus, agnósticos, monárquicos ou republicanos, são apenas Dez. Leis para o comportamento da interação entre seres humanos e os bens. Daí, os Dez Mandamentos. Peça fundamental da nossa cultura ou formas de pensar para materializar as nossas ideias em pessoas, emoções, ideias, recursos. (…) Amarmos e sermos amados. É a síntese final dos Dez Mandamentos. (…) Amar e honrar os pais, é um antigo ditado correlacionado com as posses, as curtas vidas, a vida em família, e vizinhança certa. Épocas certas com relações certas em tempos certos. (…) O certo é apenas que a pirâmide das relações sociais virou do avesso. Aí onde sempre soubemos que a pater -maternidade era uma forma de amar e sermos amados. Tenho-o assim observado, ao analisar as interações entre ancestrais e descendentes: esses que nunca mais morrem, esses que nunca mais crescem. E os Dez Mandamentos ficaram curtos demais para definir atividades autónomas, individuais e segredos, que a cultura da época de Moisés não pensou.

 

2. Ser filho.

 

Dentro de cultura de que falo, um ser dependente que não sabe colocar-se no mercado para trocar a sua força de trabalho por um salário ou outros bens de proveito para a família. Como tenho definido mil vezes, ser filho é uma conjuntura que passa rápido, é um voo entre o nascimento e a independência que dá o saber fazer. A criança é um pestanejo na história da vida familiar, parental e vizinha. Um isco que traz todas as correções implícitas no saber cultural do adulto, esse ser suposto de possuir os pequenos para os acabar de fazer. A feitura dos mais novos começa na sua gestação e continua pela vida dentro, na transferência de habilidades que permitam entender as palavras, os conceitos, as relações adequadas e necessárias de evitar ou alimentar. Ser descendente, é a escola de sociologia e antropologia do quotidiano. (…) Ser filho, é parte extrauterina da procriação. Até ao dia em que o mais novo opta, devagar, pelo seu estilo de vida e define atividades não pensadas dentro do grupo doméstico. E, a usar a sua gentileza e a sua emotividade, manipulando os mais velhos para dentro das suas ideias ou impondo o seu sentir e pensar. Com sucesso ou não. O nascimento acaba no dia dessa liberação das definições familiares. Começa, só e separado dos seus ancestrais, lentamente a ser adulto também.

 

3. Adultos de duas gerações.

 

 

Coabitação difícil de viver. Causa da minha meditação de hoje. A fatia mais difícil de engolir da minha interrogada interação social. Mal comece o descendente a aprender a optar, a amar e ser amado fora do lar, a casa passa a ser um sítio de passagem e as opiniões dos adultos, Cantigas de Amores de Santa Maria… O amor do mais novo não é comparável ao do adulto ainda jovem. O mais novo tem a paixão que os seus adultos um dia tiveram. O mais novo ama com o corpo: sente, não pensa. Avança sem reparar nas consequências. Jura lealdade que nem sabe se pode ou deve manter. Até passar para outra relação. E experimentar outras: ou de paixão, ou de trabalho, ou de aprendizagem, ou de desafiar a realidade com ideais que pode denominar anarquistas: a sociedade não presta, deveria ser de outra maneira.

 

Lentamente, com a sua inteligência, estrategiza formas de agir para converter o seu mundo numa atividade que convém aos seus objetivos. O agir jovem é atrevido e define o que os mais velhos “deveriam” fazer. “Deveriam”. Especialmente, para não ficar tenso pelos dissentimentos acumulados no anos de vida dos seus mais velhos, esses que eles não querem ouvir nem saber: têm os seus, aprendidos com a sua própria sabedoria e o saber do maiores, é um saber obsoleto, precisa de ser evitado (…).

 

4. Conclusão.

 

Se o nascimento dos filhos acaba no dia da sua emancipação, a infância do adulto começa nesse dia. É hábito dos mais antigos dar lições aos descendentes, crescidos ou não. Especialmente, na criação da nova descendência. Tenho observado no meu trabalho de campo a atitude dos mais novos, um desentendimento total com os mais velhos. Ou, uma aceitação parcial, com dia e hora taxados, para continuar a agir com liberdade dentro do seu novo grupo familiar. Toca ao adulto saber ver, ouvir e calar. Passa-se a ser filho dos filhos. A aceitar as suas recomendações e os seus interditos, especialmente no que diz respeito à sua privacidade e à criação dos seus rebentos. À nossa frente há uma outra família que, ainda que feitos por nós, os seus membros, é um grupo diferente, para os quais as experiências dos pais, não fazem sentido nenhum, especialmente na comunicação com a terceira geração.

 

Porém, o mandamento, objeto das minhas meditações pascalinas no dia de hoje, é o novo modo de agir com a juventude: amar, observar e responder apenas se formos perguntados. E responder dentro da forma de pensar e de agir que, penso, os adultos maiores devem saber para “permitir” a liberdade procurada dos nossos descendentes. Eis que somos filhos, na observação da linguagem, objetivos e comportamentos, dos seres que criamos e, que, natural e culturalmente, um dia também são adultos e pais como nós.

 

Daí o Mandamento, virado do avesso: Honra teus filhos e sê submisso a eles para ter uma longa vida na terra e cumprir as responsabilidades primordiais da família, como diz o Catecismo Cristão Católico Romano de 1992, no seu Capítulo 4, artigos 2197 e seguintes. Transmudado por mim para esta redação, por causa do neoliberalismo que governa as nossas vidas, haveres e, porém, as emoções não transladas de pais a filhos e muito desenvolvidas e mudadas de filhos para pais. (…) É suficiente ler a História, para entender a dificuldade do convívio entre Séculos diferentes, tal e qual o é entre a nossa geração e a seguinte.

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