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Subscrevi o Manifesto do Movimento Sem Emprego.

(continuação)

 

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

Indignação do que é feito o teu nome

 

Indignação do que é feito o teu nome? A questão é hoje posta quase por todo o lado no mundo, de Túnis à Madrid, de Nova Iorque a Lisboa, do Cairo a Atenas, a ponto de termos de voltar à definição de Spinoza: «a indignação é a raiva que sentimos por aquele que faz mal a seres semelhantes a nós». Ou ainda a definição de Vitor Hugo bem complementar da de Spinoza: «Está-se profundamente indignado quando se tem a razão por toda a parte” quando se tem razão qualquer que seja o ângulo de análise da realidade em que estamos colocados.

 

Quando o povo se revolta


O povo, que palavrão. A acreditar naqueles que decidem por nós e naqueles que nos informam, o povo, é um termo muito mal utilizado, deveria ser a última coisa de que se precisa de falar neste louco ano de 2011. O povo, a multidão ignorante, a multidão irresponsável: nunca aqueles que escolhem em seu nome tiveram na ponta dos lábios os lábios os eternos temores das multidões. O povo é o populismo do referendo: significa deixar a rua grega ameaçar a Europa unida. O povo é a intolerância gregária: por fim, se este vota livremente, é para colocar os islamitas tunisinos à frente nas eleições. Ou então o povo é apenas a indignação folclórica: a contra cimeira de Nice impotente influenciar o G20 em Cannes.


O povo, se entendermos por este termo as classes médias e de menores rendimentos ter-se-ia hoje por missão e por definição, o sacrifício: apertar bem o cinto, participar no esforço de recuperação das contas, comportar-se exemplarmente como o deve fazer um bom devedor, cortar nos seus privilégios, como a situação o exigir. E além Atlântico, onde o povo  da Declaração de independência  como o dos direitos civis  parece  ter sido anulado desde há muito  tempo pelo entertainment , pelos fundos de pensão e de entretenimento, o povo não pode ser senão obtuso, milícia de brancos a virarem racistas do centro-o este, a base de apoio do comércio do Tea Party e dos grupos de luta contra o aborto. Em suma, o povo, é bem conhecido, se lhes deixam fazer as  escolhas á a escolha, o povo fabrica um Hitler ou, na melhor das hipóteses, promove ao sabor da moda uma Marine Le Pen e uma Sarah Palin. O povo, o suporte  do líder populista, referência  questionável de  historiador duvidoso ou de intelectual demagogo. E. contudo.


Contudo, enquanto uma tal desconfiança para com a democracia anima tão manifestamente os decisores actuais, nunca, desde há muito tempo, talvez há mais de meio século que  algo que nunca tinha aparecido em tão pouco tempo que se assemelha e de que maneira  neste momento a um mundo de pessoas em luta. Um povo cujo movimento norte- americano de “Ocupem”, nascido há apenas algumas semanas numa calçada de Wall Street, constitui para o “primeiro mundo” uma vanguarda improvável – pois que desde há alguns meses, e para enorme espanto dos nossos especialistas, esse povo mundial tinha feito ouvir a sua voz no norte de África ou na América Latina mais do sob o nosso céu. Uma vanguarda improvável, porque daí é que não seria esperada, é o espanto de que no país de Steven Spielberg e de  Bernie Madoff, estamos perante o surgimento de um movimento social global, mesmo que a revolta dos guetos britânico no centro do  Verão e a dois passos da City  deveria ter-nos levado a pensar na questão, devia ter-nos colocado no seu caminho.


 

É pouco provável, também, porque se tinha feito um pouco rápido de mais a América o túmulo do social e da contestação, o lugar pioneiro onde a energia libertária dos anos 60 tinha dado à luz o novo capitalismo, informal e amigável, e onde os ventos de oposição à dominação só souberam desembocar sobre as políticas identitárias. Improvável, numa palavra, porque tendo iniciado em Túnis e no Cairo e, em seguida, ter  continuado com o mesmo ar de insubordinação de Madrid para Tel-Aviv, só se  poderia conceber que um ano de contestação tão decisivo se concluísse sobre as margens do Rio Hudson e sobre as praias da Califórnia. Não, não é lá longe, não é nas margens deste império em declínio, inchado de arrogância e de egoísmos terminais. Mas foi contudo lá longe que se reinventaram estes dias de contestação até ao ponto de relegarem na sombra, à escala mundial, os tumultos de Atenas, e o coro dos “indignados” europeus – com quem, naturalmente, estes americanos, decididamente mais internacionalistas do que o que deles se pensava, não deixam, dia após dia de proclamar a sua solidariedade.


Deve ser dito que este movimento paradoxal, imóvel nas praças, deliberadamente indefinido – sob a promessa vaga de uma revolta “global” e o slogan “Somos os 99 %” – só tenha tido o direito em França que a uma cobertura dos media exígua ou até mesmo enganosa. Movimento americano subestimado, caricaturado, repintado com as cores da “diversidade” yankee e do folclore à moda dos escuteiros do interior. Movimento criticado pela sua indefinição artística, quando o não é, pelo menos por certos meios de comunicação americanos – criticado por violações e pela droga com que noite após noite sujavam e estragavam as intenções piedosas. Movimento, sobretudo, que foi reduzido às mesmas imagens do pequeno Zuccotti  Park de Nova Iorque, face aos estaleiros do  Ground Zero, com seus turistas mais numerosos que os que tinham ar de camponeses e do que a manifestação de suas personalidades como sendo uma ode ao espírito livre – Michael Moore, Naomi Klein, Judith Butler, vinham contudo para aqui dialogar, fazer palestras e não para pregar sermões. Ao mesmo tempo. Longe das câmaras em Manhattan, agora são mais de 500 cidades nos Estados Unidos e no Canadá. Que se orgulham em reclamar-se de serem movimento do ocupação do espaço público, ou do que deste ainda resta: um grupo de manifestantes solitários que se manifestam nos cruzamentos mais chics da Califórnia, em Venice Beach ou no Condado de Orange (onde os visitantes de passagem não podem deixar de pensar que se isto está assim por aqui então de certeza vai estar assim por todo o lado.), grupos outrora numerosos nas cidades de desempregados e de passado operário, de Pittsburgh a Filadélfia, ocupantes os mais determinados onde a polícia já desencadeou a repressão, de Oakland a Chicago ou as ocupações pacíficas e tenazes das principais cidades canadianas, de Vancouver a Toronto.


Não foi até agora a velha teoria do clima que serviria para tranquilizar os cépticos: o vento gelado e o inverno de neve dariam razão a este movimento anacrónico. É é suficiente para acabar com o argumento, ver os campistas de Nova Iorque estóicos sob a neve de Halloween, a fornecerem sopas quentes servidas em qualquer altura nas cidades da região dos grandes lagos, ou apenas estas grossas camisolas estilo de feitas em casa e estes chapéus de pompons como imitação dos índios de Altiplano. Estes que dizem que não querem ser mortos-vivos ou espectadores passivos de televisão não vão parar ao primeiro disparar de frio. Ingénuos, talvez, mas sempre disponíveis. Os media podem preocupar-se muito com a falta de mulheres aqui ou negros do outro lado, bem longe daqui, e os ideólogos tentam desenterrar o machado de guerra identitário que representa primeiro a unidade de quem bate, a unidade de tom e de acção entre étnicas minoritárias, sexuais, culturais e associações de assistência social.


Porque o outro argumento dos cépticos é a inocência de que faria prova essa multidão colorida, pobre em capacidade organizativa de manifestações de grandes porte e de experiência militante afrouxada pela cultura americana do consenso e os novos reflexos New Age: mais preparados, numa só palavra, para os bons sentimentos do que para actividades perenes. No entanto, não só o radicalismo expresso pelos “Ocupem” é mais eficaz do que a retórica – quer se trate de ocupar o hall de entrada de um banco, uma meia hora que seja ou para organizar a sobrevivência do grupo e a recolha de fundos de apoio – mas, especialmente, numa lição que vale para todos nós, as famosas guerras culturais dos anos de 1980-1990 parecem ter sido finalmente saldadas, a favor de uma guerra comum contra a loucura financeira e contra a injustiça social. Os meios de comunicação bem podem debruçar-se sobre a falta de mulheres aqui ou dos negros ali, e os ideólogos bem tentam desenterrar o machado de guerra identitária, é a unidade que nos espanta, a unidade de tom e de acção entre minorias étnicas, sexuais, culturais e associações de ajuda social.


Naturalmente, a relutância em estabelecer reivindicações específicas também é explicada por este bric-á-braque de palavras de ordens ecológicas, culturais, sociais e fiscais. Ela assume-se como assentando a sua origem na irredutível diversidade dos acampamentos, em que se encontram situados os activistas anticapitalistas, os estudantes, os veteranos da guerra do Iraque, os reformados das lutas pelos direitos cívicos, os pais dos alunos, as activistas lésbicas ou punk sem abrigo. Mas não impede, antes pelo contrário, estimula, promove, a constituição de um ethos comum. No sentido de uma disposição de ética geral expressa aqui pela recusa das hierarquias e pela crítica da representação democrática (daí a falta de microfones nas assembleias gerais, em que as propostas circulam, repetidas por todos, como num grande concerto de espirituais negros). E no sentido de um acordo de fundo sobre modos de se estar a operar, de politicamente trabalhar: ocupar a rua, apropriar-se da cidade, equipar-se, comunicar, compreender, fornecer aos mais desprotegidos o que os serviços sociais já definitivamente deixaram de lhes fornecer.


Se este movimento nascido de uma iniciativa de Nova York e da associação canadiana  Adbusters (o equivalente dos nossos antipubs franceses) tomaram consciência tão rapidamente, isto é, para além da recessão económica, este facto deve-se então aos modelos fornecidos alguns meses antes pela  “primavera árabe” e pelos “indignados” do sul da Europa: modelos que eram suficientes para fazer voar em estilhaços o mito de impotência popular e o fatum económico e fazerem recordar o poder de desestabilização que poderá sair de um movimento popular transversal. A exigência de regulação dos mercados financeiros e do crédito ao consumidor, as odes nostálgicas à revolução mundial ou então a “viver sem tempos mortos”, a defesa de uma espécie marítima ameaçada ou de uma floresta em extinção, ocupações pontuais e improvisados diante das prefeituras e dos bancos ou de teleconferências em directo com Chiapas: nada disso aqui indica o rascunho de um discurso coerente, o esboço de um programa construtivo, mas, pelas formas de vida que se foi inventando e ausência de prazos por todos martelada, há aqui qualquer coisa que nos indica que nas nossas latitudes também, não só sob os chicotes de Gaddafi e Ben Ali, muitos são aqueles para quem desde há muito tempo que já se ultrapassou o limite do que pode ser tomado como suportável. E é o fim da anomia, colectivamente decidido. Não, não é uma solução para os nossos impasses de contabilidade e para a nossa gestão discordante da crise. Mas é um princípio de solução ao velho défice de democracia que não tinha esperado pela recessão para desmobilizar os cidadãos do mundo “rico”.


Okioupaille Brongniart” (Ocupai a Bolsa) será um termo bárbaro e  impronunciável. Mas já é tempo, deste lado do Atlântico, de se tirar a lição americana, depois da aula de árabe neste enorme ano de 2011. E que nós, todos nós, retomemos a medida do que pode fazer um povo.

 

François Cusset, Quand le peuple se rebelle, Le Monde,  05.11.11

 

François Cusset.  Historiador das ideias. É autor  de “La Décennie : le grand cauchemar des années 1980” (La Découverte, 2003 et 2006) e, em 2008, de “Contre-discours de Mai : ce qu’embaumeurs et fossoyeurs de 68 ne disent pas à ses héritiers” (Actes Sud)

 

 

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