Indignados, sem líder e sem fronteiras. Por Sylvie Kauffmann, Le Monde, 16 de Outubro de 2011. Selecção e tradução por Júlio Marques Mota.


Em espanhol, o termo cai bem , indignados, diz-se “indignado”. “Los indignados “, soa-nos ao ouvido como um filme de culto de cinemateca, um pouco como Buñuel revisto por Almodovar, com Che Guevara no papel principal. E, precisamente, é de Madrid que partiu o movimento, a 15 de Maio, quando cerca de uma centena de jovens se reuniu na capital espanhola, Puerta del Sol, para gritar a sua frustração perante um sistema social completamente avariado.


Rebaptizado “15-M”, à espanhola, o movimento propagou-se a outras cidades da península, seguidamente a outros países europeus, à Grécia, a Portugal. Com as mesmas características: sem líderes nem reivindicações precisas. E os mesmos alvos: a classe política que não faz o seu trabalho, a elite da finança que se enriqueceu durante a crise ( e com a crise)  enquanto que a crise arruinava as classes médias.


.Sábado 15 de Outubro, “os 15-M” reinventam-se sob forma de uma indignação mundializada. Os “Indignados” são esperados, prometem-nos e nada menos que 860 cidades.


Entretanto, consagração suprema, a vaga atingiu as margens de Nova Iorque. Para o dizermos de uma forma mais correcta e mais autêntica, os americanos pensam que descobriram a indignação, mesmo se levaram muito tempo para disso se aperceberem. A indignação por conseguinte aí nasceu exactamente a 17 de Setembro ao Sul de Manhattan,em Liberty Street,. Um grupo de manifestantes, jovens na sua maior parte, dirigiu-se para Wall Street, o templo da finança, com a intenção de ocuparem a rua.


Impedidos de aí acederem pela polícia que protegia a Bolsa, voltaram-se para uma pequena praça vizinha, o parque Zuccotti. Depois, aí acamparam e aí se organizaram em mini sociedade civil como o fizeram os Espanhóis antes deles, sabendo cada um o que há a fazer.: cozinha, finanças, enfermaria, comunicação. Com o génio do marketing tão característico dos americanos, o movimento assumiu um nome, Occupy Wall Street, uma sigla (OWS), uma expressão : “ Somos os 99% “, um sítio de transmissão televisiva emitida em directo na Internet (Global Revolution Live Stream) e um blog colectivo (http://wearethe99percent.tumblr.com).

 

Os 99% são uma referência ao facto de 1% de americanos totalizam por si só cerca de 23,5% dos rendimentos do país; esta proporção mais do que duplicou em relação ao final dos anos 1970, quando 1% de Americanos totalizavam 10% dos rendimentos do país. Os 99%, são os outros. Também não apenas um sub-proletariado negro ou hispânico dos quais os media sempre têm falado, mas americanos médios, brancos, citadinos, membros destas gloriosas classes médias que fazem a força dos Estados Unidos, onde se sabe que a vida é melhor que a dos seus pais e pior do que a terão os seus filhos. A isto chama-se progresso!

 

Se não vive perto do parque Zuccotti, vá então visitar o blog dos 99%. Leiam as histórias que contam e terá a impressão que este progresso parou, bloqueou-se, tantos são os jovens diplomados sub-empregados incapazes de reembolsarem os empréstimos contraídos para pagarem os seus estudos, ou tantos são os pacientes que se privam de medicamentos para pagar as suas facturas.


 “Indignado” não se traduz como o termo indignado em inglês, mas Stéphane Hessel não teve nenhum mal em explicar aos Americanos o sentido do seu apelo. Reconhecido mundialmente, o nosso resistente de 94 anos, vendendo cerca de 3,5 milhões de exemplares d‘Indignez-vous! em todas as línguas, foi convidado, no final de Setembro, a pregar o “ insulto “ à Universidade de Colúmbia, em Nova Iorque, onde foi necessário encontrar um auditório muito maior do que o previsto para o acolher. Os estudantes fizeram-lhe uma ovation de pé e, inevitavelmente, um representante de OWS pediu-lhe conselho sobre a sequência a dar ao movimento. “Encontrem formas bastante fortes para atingir aqueles contra os quais protestam “, respondeu Hessel.


Estes métodos, os “indignados” americanos e os seus equivalentes europeus parecem tê-los encontrado. Gilda Zweman, professora de Sociologia na universidade de Estado de Nova Iorque e especialista em movimentos de contestação, foi ver. “ No início, estava muito céptica, diz. Agora, estou convencida que estamos na presença de uma nova forma de protesto. “ Nos Estados Unidos, a referência em matéria de modelo de protesto é a luta pelos direitos cívicos dos anos 1960: um movimento organizado, com objectivos claramente definidos, uma estratégia estruturada e líderes visíveis. OWS não responde a nenhum destes critérios, razão pela qual, sem dúvida, os especialistas e os media ignoraram largamente a sua existência durante as duas primeiras semanas. Para Gilda Zweman, a força deste movimento reside na sua abertura. “99 %, isto quer dizer que do ponto de vista ideológico cobre todo o espectro, explica. A partir do momento que queira reivindicações específicas, perde pessoas. A mensagem é claramente anticapitalista, mas é muito aberta. A táctica mobilizadora é a de não dividir, o que vai permitir ao movimento desenvolver-se ainda mais e por conseguinte aumentar a pressão sobre as elites.”

Contrariamente aos “indignados”  espanhóis, que acusam os seus eleitos de não os “ representarem “ e reclamam “ uma verdadeira democracia “, os “indignados” americanos não se colocam no plano político. Eles falam sobre a finança, a dívida, a corrupção, o resgate financeiro dos bancos feito sobre as costas dos contribuintes. O seu alvo, de momento, é New York, não é Washington. Alguns procuram situar o movimento na  mobilização altermundista de Seattle, em 1999, que seria a origem do movimento de hoje. Outros preferem vê-lo na  inspiração “da primavera árabe”, com algumas escapadas a Israel e para a contestação estudantil que dura desde há cinco meses no Chile. A indignação não é também estrangeira aos Chineses, que protestam muito mais do que aquilo que se crê.


Polimorfa, esta indignação sem fronteiras pode variar nos seus objectivos, mas os seus actores têm o mesmo perfil – jovens, de 20 aos 30 anos, geralmente diplomados, em princípio os melhores armados no mundo novo -, eles utilizam as mesmas tecnologias e compartilham as mesmas frustrações. Não rejeitam a mundialização, cujos benefícios prevêem, mas recusam pagar a deslocação económica e social que esta gera, e recusam a incapacidade dos nossos sistemas políticos em a saber gerir.


 Sylvie Kauffmann, Indignés, sans tête et sans frontières, Le Monde, 16 de Outubro de 2011.

 

 

 

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