Enquanto dei aulas circulei muito por Paris e toda a região periférica, não só por, na maior parte dos anos letivos, ser professora em mais de uma escola, chegando mesmo a trabalhar em seis, mas também por, em época de exames, isto é, de princípios de Abril a fins de Junho, ser enviada para orais ou correções em centros de exame muito variados que, passado algum tempo, constituíam na minha memória um emaranhado de espaços associados a linhas de metro ou comboio, mais ou menos concretos, mais ou menos vastos, alguns reduzidos à imagem de um edifício ou apenas uma sala… Um arquipélago a flutuar no vazio: do metro não se vê nada e, mesmo do comboio, pouco se avista, por isso leio ou escrevo nos transportes coletivos. Consciente destas lacunas, esforçava-me por levar uma sandes, um iogurte, um fruto que comia à hora do almoço percorrendo os arredores da escola onde, naquele dia ou semana, fazia orais, em vez de almoçar na cantina com colegas, simpáticos, certo, mas conhecidos, repisando as questiúnculas do Português língua estrangeira… Eu não me definia como professora, embora o fosse, pois vendia o meu tempo à “Education Nationale” e, depois de trocar vida por dinheiro, pouco sobrava para ser eu, logo partia à descoberta das redondezas e, quando as orais ocorriam dentro de Paris, visitava um museu (ou parte dele), Carnavalet, Vítor Hugo, Cognac-Jay, por exemplo, regressando plena de benevolência e boa disposição.
Nos últimos três anos vivi em Lisboa e, se as estadias em Paris têm sido curtas, disponho em contrapartida de liberdade (mental e temporal) para me apropriar do espaço. O que me fascina numa cidade é a diversidão de vidas, de trocas, de tempos, de códigos… A espessura inesgotável do espaço urbano. Durante as passagens por Paris tenho, com a minha amiga Maryvonne, seguido diversos códigos que a maioria das pessoas não veem, meros traços num poste, na beira do passeio, num tronco de árvore, a sinalização vermelha e branca do GR1, Grande Rota 1, setecentos quilómetros de caminhada à volta de Paris e nunca à beira da estrada; ou a sinalização amarela de vários PR, Pequena Rota, no distrito Hauts-de-Seine. Percorremos a primeira etapa do GR1 no outono.
Partindo de Porte Maillot, atravessámos o bosque de Boulogne, uma paisagem púrpura, chocolate, amarelo canário, passámos pelo interior da Grande Cascata, percorremos o parque de Saint-Cloud, sua harmonia de tons, formas e proporções, vários bosques, Sèvres, Ville d’Avray, Marnes-la-Coquette, Vaucresson; e regressámos a casa de autocarro. Descobrimos algo que ainda nos encanta: mudando de ritmo e atitude, alcançámos um espaço invisível para quem cada dia ali circula. Além do prazer de caminhar em ambientes tão bonitos e espessos, este primeiro percurso permitiu-me reorganizar alguns lugares que, até agora, atingira de carro ou comboio e que portanto continuava a ver como ilhas. Aumentei o meu espaço habitado… Uma conquista preciosa.
