Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 119 – por Manuela Degerine

O tempo e o espaço

Imagem1Ontem, antes de sair de casa, pesei-me com e sem a bagagem: dá dez quilos de diferença. Trago o mínimo dos mínimos, porém a mochila vazia já pesa um quilo, o saco-cama outro quilo, preciso de um impermeável, de polainas para a chuva, do telemóvel e seu carregador, da máquina fotográfica e seu carregador, de um caderno, de um púcaro, de uma colher, de um canivete, de produtos de higiene… Transporto o que qualquer indivíduo com dois metros de altura também transporta: o indispensável. Mais quilo e meio de comida que não encontrarei nas mercearias. Quinze doses de leite em pó e chocolate que, mesmo no albergue mais isolado, bastará despejar em água, de preferência quente, para obter uma bebida energética. Um pacote de flocos de aveia com frutos secos. Três sopas desidratadas. Um pouco de queijo. Ervas, especiarias, condimentos. Três tabletes de (excelente) chocolate preto. Mais o que hei-de hoje comer até chegar a Vilarinho. Três maçãs. Três sanduíches. Um pacote de biscoitos. A água. Acrescentemos portanto outro quilo e meio que irá diminuindo durante a manhã. Peso quarenta e seis; a carga equivale portanto a mais de vinte por cento do meu peso. Excessivo. A etapa do Porto a Macieira da Maia – Vilarinho – é de vinte e oito quilómetros…. Qual será este ano o padecimento? Lumbago?

Todos nós apanhámos o avião para – mais cedo ou mais tarde – mascarmos pizas chinesas ou donuts brasileiros: saturámo-nos portanto da mesmice do mundo. Estas viagens a pé são o inverso da descoberta que fizerem os europeus no século XIX, primeiro com o comboio, depois com o automóvel; e que Marcel Proust analisa: a velocidade criou uma nova apreensão do tempo e do espaço. Em contrapartida a minha geração cresceu numa época que popularizou as vias e meios de transporte rápidos, avião, tegevê, automóvel, autoestrada, hoje atravessamos o planeta com facilidade, encontramos porém o mesmo modo de vida – real ou desejado – em todos os continentes. Por outro lado, com o metro, o automóvel, o elevador, a escada rolante, deixámos de mover o corpo e vemos quase tudo em ecrãs, sejam eles a televisão, o computador, os vidros do carro ou do airbus, por conseguinte a caminhada permite-nos agora não só redifinir o nosso corpo, o nosso cérebro, não só reinventar uma relação direta com o mundo, mas também uma nova – para nós – perceção do tempo e do espaço… Neste momento concentro-me todavia menos nestas experiências do que nas dificuldades: o peso da bagagem, os vinte e oito quilómetros. Veremos como me sinto quando chegar a Vilarinho.

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