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DIÁRIO DE BORDO, 10 de Julho de 2012

 

O argonauta Manuel Simões, nos primeiros tempos da nossa navegação, recordou-nos Apolónio de Rodes, que, no século III antes de Cristo, escreveu sobre a epopeia de Jasão e os argonautas da altura que foram à Cólquida buscar o Velo de Ouro para conseguirem  a entrega a quem de direito  do trono de Iolcos, usurpado por Pelias. Como vêem, naquele tempo, já era tudo política e economia (o trono, o velo de ouro, etc.).  Diário de Bordo ignora se, naqueles tempos, também já existiriam políticos a arranjarem cursos à pressa, a concluírem licenciaturas ao domingo ou pelo telefone (é verdade que não os havia na altura. Talvez um pombo correio servisse), coisas assim. Entre os nossos sábios argonautas, e entre os nossos generosos leitores, deve haver quem saiba mais qualquer coisa sobre o assunto do que nós, pobres timoneiros.


Também é verdade que Apolónio de Rodes escreveu sobre uma história que teria ocorrido séculos antes da sua época. Ocorreu com certeza, não foi inventada, porque estamos nós aqui na Argos, bem instalados, a falar convosco. O nosso estimado Apolónio baseou-se em Homero, e parece que também em Píndaro e outros autores, para nos contar sobre os nossos antecessores aqui na barca. Por isso tem um lugar à parte na Argos. Mais o Manuel Simões, que nos contou tudo isto.


Entretanto, ao longo dos tempos, outros escreveram sobre os factos a que assistiram. E inclusive imaginaram histórias inspiradas nesses factos. Pois no Babelia (suplemento cultural do El País) de sábado passado, 7 de Julho, vem uma entrevista com Petros Márkaris, um escritor grego, de origem arménia, nascido na Turquia, que estudou na Áustria e na Alemanha, guionista, dramaturgo e autor de romances policiais. Criou o detective Kostas Jaritos, que Babelia classifica como um observador agudíssimo da realidade grega, já nos finais dos anos 90. Está a escrever uma trilogia sobre a crise que a Grécia atravessa. O primeiro desses três romances já saiu. Em espanhol foi publicado o ano passado com o título Con el agua al cuello, pela Tusquets.


São conhecidas as potencialidades do romance policial como veículo da observação da sociedade. É pena que essas potencialidades não sejam mais aproveitadas. Raymond Chandler e Dashiell Hammett foram dois exemplos. Márkaris refere aliás que a sua preferência vai para a literatura policial norte-americana, pelo fundo social em que se situa. Vamos ver se conseguimos encontrar os seus livros. Argonautas, leitores, se os encontrarem, mandem-nos notícias.

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