DIÁRIO DE BORDO, 24 de Junho de 2012

 

A Argos navega num mar cada vez mais carregado. Sacode por todo o lado. Os argonautas mantêm-se firmes, mas o tempo está cada vez mais ameaçador.  À nossa frente levanta-se um rochedo terrível, do qual procuramos a todo o transe afastar-nos, para atravessar uma estreita  passagem, do outro lado da qual esperamos encontrar águas mais calmas. O ruído do mar a bater na rocha produz um som arrastado, muito lento, que, curiosamente, parece uma voz muito conhecida,  que diz: aus…te…ri…da..de.  Viramos o barco e tentamos a outra margem do estreito. Ondas fortíssimas empurram-nos para um sorvedouro e, ouvimos outra voz roufenha, a qual curiosamente ruge: suspender a democracia … suspender a democracia… etc.


Pedimos aos leitores de Diário de Bordo que perdoem a deriva da Argos entre a procura do Velo de Ouro e a viagem de Ulisses de regresso a Ítaca. Mas enfim, o facto é que andamos entre o perigo de esbarrarmos em Cila (na falência, na miséria, na bancarrota) ou de nos afundarmos em Caribdis, num redemoinho, num pântano, num marasmo político, que nos vai lentamente asfixiando,  sob um sistema pretensamente bipartidário, ou de bloco central, conforme preferirem (são disfarces da oligarquia de sempre). Os mais avisados dirão certamente: é pior, vamos levar com o rochedo e com o redemoinho.


Mas perguntam, não há saída? Que raio, não conseguimos evitar isto? Pois, quem aceita as regras que são impostas neste jogo tão cerrado em que estamos metidos, dificilmente descortinará uma saída. Uma passagem entre o rochedo e o redemoinho. Chipre, vejam lá, mais um estado da zona euro em dificuldades financeiras, em vez de se meter em troikas com a UE e o FMI, está a pensar em ir pedir ajuda à Rússia. É uma solução interessante, para os analistas, claro. A maioria vai de certeza desancar os cipriotas, se levarem avante esta iniciativa. Os chefes europeus, Merkel & Cia, não vão gostar nada, claro. E Putin tem cá um ar de altruísta. Mesmo que seja dez vezes melhor do que o tunante que a propaganda euro-americana nos quer fazer parecer que ele é, com certeza que não vai fazer caridade para o Mediterrâneo Oriental, para uma ilha dividida entre gregos e turcos, situada em frente da Síria, perto da Palestina e mais uma série de questões. Conclusão, vamos a ver no que isto vai dar.

 

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