EDITORIAL – Ouro ou valores morais?

 

logo editorialO título do nosso blogue – A Viagem dos Argonautas –  poderá, de algum modo, sugerir que viajamos diariamente em busca do velo de ouro. Ou seja que andamos em busca de dinheiro. Baseámos o título deste projecto de comunicação de ideias num mito da Grécia Antiga – o de Jasão e os Argonautas, nas sua demanda do velo de Ouro. Velo, é, como se sabe, a lã dos carneiros, o produto da tosquia. Andamos nós à procura de tosquiar ouro?

Há diversos documentos que nos dão conta da incredulidade, por vezes trocista, com que indígenas de terras recém-descobertas acolhiam o interesse dos europeus pelo ouro. Para aquelas tribos ameríndias, num estádio civilizacional que se situavaa no Paleolítico superior, o ouro pouco préstimo tinha, pois era demasiado dúctil para ser transformado em utensílio. Não compreendiam os indios como podiam aqueles patetas vindos do mar trocar artefactos valiosos por pepitas de um metal quase inútil.

O ouro acompanha o nascimento das civilizações e, segundo os arqueólogos, o uso do ouro começou com as primeiras civilizações no Médio Oriente. Num túmulo da Pré-dinastia egípcia terá sido encontrado o mais remoto artefacto em ouro de que há registo – 5000 anos a.C. Ao longo da história, vamos encontrar o ouro como padrão para muitas moedas, como sinónimo de poder e abundância, como pretexto para assassínios, guerras. O impulso fundacional dos Estados Unidos, teve como pilar a febre do ouro, a quimera que induzia os colonos a avançar para o desconhecido, a dizimar as tribos autóctones.

De acordo com dados da World Gold Council, a organização internacional de empresas ligadas ao ouro, as reservas de ouro do Estado português são as décimas quartas mais avultadas do mundo, ascendendo a quase 400 toneladas e valendo mais de 16 mil milhões de euros. No entanto, representando apenas a 7,5% da dívida pública, a sua venda não modificaria substancialmente a situação. Ou seja, hoje em dia o valor do ouro é simbólico, um resíduo do passado. Mas é um símbolo negro, pois representa a vitória do valor material sobre os valores que podemos considerar humanos.

No nosso editorial de abertura do blogue, esclarecemos: Para nós o velo de Ouro é a afirmação daquilo em que acreditamos, ou melhor, daquilo em que cada um acredita e defende. Seremos um espaço plural onde é proibido proibir ideias políticas, científicas, filosóficas, crenças religiosas.

Ouro é vocábulo com muitas dezenas de acepções. Dos que num grande dicionário ocupam extensas entradas. Procurando mais para baixo das definições mais imediatas, encontramos as que o relacionam com valores morais. O vil metal, sonho de alquimistas e de banqueiros, tem significados positivos. Usemo-los.

 

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