O meu convívio com José Afonso, infelizmente para mim, não foi muito. No entanto, escasso e irrelevante para a história do Zeca, foi para mim de uma grande importância.
Em 1967, o Manuel Simões, o Júlio Estudante e eu, criámos em Tomar uma pequena editora, a Nova Realidade. Fizemos questão de iniciar a actividade com um livro do Zeca, os «Cantares». Além das duas edições dos «Cantares» que se esgotaram, publicámos em 1970, um segundo livro «Cantar de Novo». Portanto, o Zeca conhecia-me de nome.
Na tarde do 11 de Março de 1975, na sequência do golpe de direita, que todos supúnhamos de maiores proporções, desloquei-me a Setúbal.
À entrada da cidade quem vejo eu parado na estrada, boina basca, mãos nos bolsos? – o Zeca. Arrumei o carro e fui falar com ele. Disse-lhe quem era. Falei-lhe na edição dos dois livros. Não perdeu muito tempo com cortesias, aviou-as rapidamente:
– Estás porreiro?… Trazes armas? – esperava-se a todo o momento uma ofensiva da direita. Eram cerca de três da tarde e não sabíamos que a operação «Matança da Páscoa», o culminar da conspiração spinolista, se tinha limitado ao ataque ao Ralis e a pouco mais. Esperava-se «a ofensiva», talvez até a invasão de forças espanholas. A canção «O que faz falta» foi repetidamente passada nas estações de rádio. Fora gravada nos últimos meses do ano anterior em Londres. Voltando ao encontro em Setúbal, tomámos nota dos respectivos endereços e números de telefone e despedimo-nos com um abraço. Depois, pelo tempo fora, encontrámo-nos em diversas ocasiões, em reuniões políticas e não só.
Durante a campanha do Otelo, em 1976, por exemplo, estivemos juntos algumas vezes. Quando do II Congresso dos Escritores Portugueses, em Março de 1982, ficámos lado a lado e almoçámos sempre juntos, durante os três dias, num pequeno restaurante da Conde de Valbom, em frente do muro da Gulbenkian, onde se realizaram os trabalhos do congresso. Num desses almoços esteve além de nós os dois, a escritora e saudosa amiga Maria Rosa Colaço.
Estivemos pela última vez, já ele estava muito doente, salvo erro em 1984, numa reunião de tentativa de criação de um movimento unitário da chamada extrema-esquerda (tentativa que soçobrou, como as anteriores, diante da muralha do sectarismo), realizada em casa de um amigo comum. O jornalista Viriato Teles refere-se a essa reunião na introdução do livro que escreveu sobre o Zeca.
As distracções do Zeca eram famosas. Conta-se como, numa manhã de domingo, foi com os filhos, ainda pequenos, ao jardim, os pôs a brincar nos baloiços e no escorrega e depois, pouco antes do almoço, sempre imerso nos seus projectos, chegou a casa sem eles. Perante a aflição da mulher, voltou correndo ao parque e lá estavam, felizes, brincando. Ou como, à mesa do café, trauteava uma melodia que criara, perguntando aos amigos se aquela música já existia, respondendo eles sempre, com amistosa ironia, que sim. Ou ainda, quando as salas multiplex eram ainda novidade, com a Zélia, e com o casal Bruno da Ponte e Clara Queiroz, foram ver um filme. No intervalo, saiu e quando o intervalo acabou o Zeca entrando por engano noutra sala, viu a segunda parte de um filme diferente. A Zélia e os da Ponte, pensaram que ele se fartara do filme e os esperava no átrio. Esperava-os de facto, mas com esta observação: «Não vos encontrei na sala. Mas estes filmes de agora… não percebi nada da história». Outros companheiros, por diversas vezes me contaram das atrapalhações quando, a meio de uma actuação, o Zeca se esquecia da continuação da letra. Parava tudo, ele encontrava o papel e lá se recomeçava.
Distraído o Zeca? Sim. Mas, ao mesmo tempo, muito atento à realidade do seu tempo. Seria uma grande injustiça que nós nos distraíssemos e que esquecêssemos um artista e, sobretudo, uma pessoa como José Afonso.
